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Desinformação de 2018 sobre fraude eleitoral é reciclada para campanha de 2020

Por Amanda Ribeiro

16 de novembro de 2020, 18h35


A narrativa de fraude alimentada nas redes sociais durante o primeiro turno das eleições municipais foi cultivada ao longo da campanha com peças de desinformação surgidas na disputa de 2018. Antes mesmo do vazamento de dados antigos do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) por hackers e da demora na divulgação dos resultados, fatos que suscitaram alegações enganosas neste domingo (15), informações falsas sobre a lisura do processo eleitoral já vinham sendo recicladas com sucesso em postagens ao menos desde setembro.

De 23 checagens sobre as eleições municipais publicadas por Aos Fatos entre 22 de outubro e 15 de novembro, sete desmentiam informações falsas e distorções sobre a votação — três delas circularam primeiro na disputa de 2018. Somadas, as postagens com alegações repetidas do pleito anterior reuniram 22.450 compartilhamentos no Facebook.

Uma delas, criada a partir de boatos difundidos pelo próprio presidente Jair Bolsonaro durante sua campanha naquele ano, alegava que apenas Brasil, Venezuela e Cuba usavam urnas para processar os votos (20 mil compartilhamentos). Outros alardeavam que as urnas haviam anulado os votos de 7,2 milhões de eleitores (1.250 compartilhamentos) e que uma suposta fraude havia sido descoberta por um voluntário do pleito em Brasília (1.200 compartilhamentos).

Alegações do tipo ganharam ainda mais força nas redes após tentativas de ataque hacker ao sistema do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e o atraso na apuração dos votos.

Ontem, a postagem distorcida que sugeria que um grupo hacker acabara de invadir o sistema do TSE, o que poderia ocasionar fraudes, teve 14 mil compartilhamentos e foi a segunda mais viral dentre as checagens verificadas pelo Aos Fatos. Outra alegação conspiracionista do mesmo dia, classificada como falsa, também se baseou no ataque hacker para afirmar que as justificativas de voto de eleitores poderiam ser fraudadas e transformadas em votos válidos.

Entre agosto e novembro, o Aos Fatos verificou 23 publicações falsas ou distorcidas sobre o pleito municipal de 2020, que somaram ao menos 142 mil compartilhamentos no Facebook e, potencialmente, 1,4 milhão de visualizações, indica levantamento.

Ataques. Para além das urnas, a desinformação eleitoral no primeiro turno também se concentrou nos ataques a candidatos em diversas cidades do país, algumas também recicladas da campanha de 2018.

Dentre as publicações checadas classificadas como ataques — dez, no total —, a mais viral (19.100 compartilhamentos no Facebook) foi a que acusava o deputado federal Celso Russomanno (Republicanos) de ter votado contra a Lei da Ficha Limpa. À época filiado ao PP, ele foi um dos 388 deputados federais que votaram pelo projeto em maio de 2010.

A mais atacada, no entanto, é mulher e está fora da disputa do eixo Rio-São Paulo. Ex-candidata à Vice-Presidência em 2018 e agora na disputa pela Prefeitura de Porto Alegre, Manuela D'Ávila foi vítima de cinco publicações difamatórias, algumas herdadas da campanha anterior: a acusaram de usar uma camiseta com os dizeres “Jesus é travesti”, de compartilhar em suas redes uma montagem de uma foice e um martelo de brinquedo no Dia das Crianças e de ser contrária aos feriados católicos por não acreditar em Deus. Peças sobre a candidata checadas por Aos Fatos acumularam ao menos 28 mil compartilhamentos.

Regras de votação. Com alcance menor e circulando principalmente no WhatsApp, postagens que distorciam mudanças em regras de votação para o pleito de 2020 passaram a ser mais compartilhadas nas redes na medida em que a data da votação se aproximava. A última verificação do tipo feita pelo Aos Fatos, publicada no último sábado (14), dizia que eleitores com mais de 60 anos não seriam obrigados a votar — o que é falso.

Outra publicação, checada na última sexta-feira (13) e compartilhada pelo candidato à Prefeitura de São Paulo, Celso Russomanno, afirmava que o eleitor que não levasse a própria caneta não poderia participar do pleito. O que existe, na verdade, é uma recomendação sanitária do TSE de que se leve objeto próprio para evitar a contaminação por Covid-19.

A infecção causada pelo novo coronavírus é, aliás, uma temática secundária muito comum nas peças que distorcem regras eleitorais. Dentre as cinco postagens checadas pelo Aos Fatos sobre o tema, quatro apontam a Covid-19 como a causa das supostas mudanças no pleito: a criação de horários exclusivos para idosos, o voto optativo para os maiores de 60 anos, a obrigatoriedade do uso de caneta própria e a proibição de participação dos contaminados com Covid-19.

Usuários também fizeram uso político da pandemia para apontar uma suposta contradição de políticos de esquerda durante a campanha eleitoral. Segundo uma postagem com 10.500 compartilhamentos, candidatos que antes defendiam medidas de isolamento haviam abandonado o discurso com a chegada das eleições e agora apareciam em carreatas em meio a aglomerações. A foto que supostamente comprovaria a contradição, no entanto, foi registrada em 2018.

Metodologia. O Aos Fatos verifica apenas peças de desinformação em larga escala, com ao menos 5.000 visualizações nas plataformas e que estejam gerando alto engajamento em ao menos duas redes sociais. Desse modo, é possível compreender que os boatos desbancados têm maior potencial de desinformar em larga escala e ultrapassar bolhas ideológicas.

Colaborou Ana Rita Cunha.

Referências:

1. Aos Fatos (Fontes 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14 e 15)
2. O Globo
3. G1

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