Grupos de WhatsApp usam desinformação para negar histórico antivacina e elogiar atuação de Bolsonaro

Por Bernardo Barbosa

7 de abril de 2021, 14h53

Após meses de propaganda antivacina, grupos bolsonaristas têm mudado o tom no WhatsApp e agora se concentram em elogiar as ações do governo federal na vacinação contra a Covid-19. Análise do Radar Aos Fatos em 87 grupos públicos de discussão política mostra que, embora críticas aos imunizantes ainda circulem, os usuários tentam negar o histórico contrário à vacinação do presidente Jair Bolsonaro e, com uso de desinformação, culpar adversários políticos por problemas no ritmo da imunização.

Com base no monitoramento sobre Covid-19 do Radar (entenda como a ferramenta funciona aqui), a reportagem encontrou 290 mensagens com elogios à atuação de Bolsonaro na vacinação publicadas entre os dias 22 de março e 5 de abril nos grupos analisados. Ao menos 159 delas (54%), compartilhadas um total de 210 vezes, usavam alegações falsas ou distorcidas ao defender o presidente.

O uso das vacinas como uma pauta positiva para o governo é novidade no WhatsApp bolsonarista. Até fevereiro, o discurso dominante nesse meio era justamente o de críticas aos imunizantes contra a Covid-19 — como o Radar mostrou, eram comuns, por exemplo, falsos relatos de mortes e efeitos colaterais extremos provocados pelas vacinas. Nesta nova análise, porém, o discurso antivacina passou a ser minoria e apareceu em 79 mensagens.

A guinada retórica segue a variação do discurso do próprio Bolsonaro e de sua base. Durante pronunciamento no último dia 23, o presidente disse que sempre afirmou que "adotaríamos qualquer vacina, desde que aprovada pela Anvisa", omitindo que, na verdade, deu numerosas declarações contra os imunizantes. Da mesma forma, seus apoiadores no Congresso diminuíram o volume de publicações negativas sobre as vacinas no Twitter e passaram a comemorar anúncios do governo na área.

OMISSÕES E DISTORÇÕES

A imprecisão mais frequente nos grupos analisados, compartilhada em 24% dos posts com desinformação encontrados, é a de que o Brasil é um dos países que mais vacinou no mundo, ponto que vem sendo repetido por Bolsonaro.

“O Brasil é o 5º país que mais vacinou no mundo; (...). Já foram ministradas mais de 13 MILHÕES DE DOSES e, até o final do ano, já estão garantidas 500 MILHÕES”, diz um dos posts compartilhados na primeira semana do levantamento.

Embora seja o quinto país com o maior número absoluto de vacinados, o país está apenas na 70ª posição quando o critério utilizado é a proporção da população que já foi imunizada contra a Covid-19, de acordo com o site Our World In Data, que reúne dados de fontes oficiais de vários países (os números foram atualizados na terça, dia 6). Entre os 30 países com maior população, o Brasil era o sétimo colocado, com 10,3% da população tendo recebido pelo menos uma dose.

Outra alegação imprecisa usada para elogiar a atuação de Bolsonaro, presente em 9% dos posts, foi a de que o Brasil já tem 562 milhões de doses garantidas de vacinas contra a Covid-19 até o fim do ano. A declaração, no entanto, omite que alguns dos imunizantes incluídos nesta conta, como Sputnik V e Covaxin, ainda não receberam o obrigatório aval da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Além disso, os contratos para a compra de doses dos laboratórios Pfizer e Janssen deixam margem para possíveis atrasos na entrega das vacinas, como o próprio Ministério da Saúde informou.

Na mesma linha, outros posts com desinformação (8%) buscavam mostrar Bolsonaro como alguém que agiu na primeira hora para garantir vacinas para o país, ignorando que o presidente não só fez uma série de ataques às vacinas como chegou a desautorizar a compra da CoronaVac e a rejeitar ofertas da Pfizer em 2020.

Um destes posts, por exemplo, se valia da previsão de que a Fiocruz conseguiria produzir semanalmente seis milhões de doses da vacina de Oxford para afirmar que "essa notícia desmente todas as narrativas criadas contra o presidente Jair Bolsonaro, demonstrando que ele sempre teve preocupação com a questão da vacina contra a Covid-19 e trabalhou para que fosse viabilizada".

Esse discurso também apareceu em pronunciamento de Bolsonaro em março. Na ocasião, o presidente disse que “sempre” afirmou que o Brasil adotaria “qualquer vacina, desde que aprovada pela Anvisa”, o que não é verdade.

Além das distorções sobre a atuação do presidente, 13% dos posts traziam a alegação inventada ― e já checada pelo Aos Fatos ― de que o governo Bolsonaro deu um “golpe de mestre” ao iniciar secretamente a produção de uma vacina contra a Covid-19 com a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e supervisão de cientistas israelenses. Segundo essas mensagens, Bolsonaro não teria anunciado a medida antes “para que não houvesse interferência dos esquerdopatas”.

OS CULPADOS

Uma parte do discurso sobre vacinas identificado nos grupos consiste em dizer que o governo federal é o único ou o principal responsável por tudo de positivo ligado à vacinação. A outra, em afirmar que há sempre um fator externo ou um adversário político impedindo o governo de avançar ainda mais.

Em 23% dos posts com desinformação encontrados, governadores e prefeitos foram tachados como os únicos culpados pela demora na vacinação no Brasil e acusados de não “acompanhar o ritmo” das doses enviadas pelo governo federal. Embora de fato haja gargalos de logística e distribuição na ponta, as publicações ignoram que o governo federal atrasou entregas de vacinas e que, até meados de março, o próprio Ministério da Saúde recomendava a estocagem de doses para a segunda aplicação dos imunizantes.

De novo, a tentativa de atribuir a responsabilidade por atrasos na vacinação só a governadores e prefeitos reproduz o discurso do próprio governo federal, que, em ofício ao STF (Supremo Tribunal Federal), afirmou que “os atrasos verificados na efetiva aplicação das doses, a cargo dos entes subnacionais, não podem ser imputados ao ente federal”.

Nos posts com uso de desinformação para enaltecer a atuação do governo frente às vacinas, ainda aparecem críticas à esquerda, alvo em 76 publicações, e à imprensa, em 66 mensagens. Os dois atores são tratados como adversários do governo federal que estariam agindo contra avanços na vacinação ou omitindo a divulgação de medidas em prol da imunização.

Referências:
1. Aos Fatos (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8)
2. Our World In Data (1, 2, 3)
3. UOL (1, 2, 3, 4)
4. G1 (1, 2, 3)
5. Ministério da Saúde
6. Folha de S. Paulo
7. Fiocruz

sobre o

Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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