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Falsos relatos de morte ganham espaço na desinformação sobre vacinas contra Covid-19 em grupos de WhatsApp

Por Bernardo Barbosa e João Barbosa

12 de fevereiro de 2021, 13h24

Uma série de alegações falsas ou sem comprovação de que vacinas contra a Covid-19 causam mortes e efeitos colaterais graves tem circulado em grupos de discussão política do WhatsApp. Desde 17 de janeiro, quando a vacinação começou no Brasil, ao menos 149 mensagens com esse tema foram compartilhadas 254 vezes em 69 dos 122 grupos monitorados pelo Radar Aos Fatos.

Na medida em que a imunização avança no país e no resto do mundo, o teor dessas mensagens também tem mudado. Enquanto em janeiro a maioria dos posts fazia alertas genéricos sobre os supostos riscos decorrentes da imunização, neste mês eles passaram a reproduzir principalmente falsos relatos de pessoas que teriam morrido ou enfrentado reações adversas após se vacinarem.

A reportagem identificou 55 mensagens compartilhadas 97 vezes que adotaram essa estratégia de aludir a casos específicos. A grande maioria, 51 mensagens (93%), apareceu no Radar em fevereiro, e muitas já foram checadas como falsas pelo Aos Fatos e outros veículos.

Uma estratégia comum, por exemplo, tem sido culpar as vacinas por mortes que realmente aconteceram, mas que tiveram outras causas, como nos casos recentes do ex-jogador americano de beisebol Hank Aaron e do cacique Fernando Katukina, do Acre.

Aaron, apesar de ter se vacinado, morreu de causas naturais sem relação com o imunizante, de acordo com os responsáveis pela autópsia de seu corpo. Da mesma forma, a vacina não foi o que causou a morte de Katukina, que tinha diabetes, hipertensão e insuficiência cardíaca congestiva, segundo a Secretaria de Saúde Indígena do governo acreano. Os casos de Aaron e Katukina apareceram em três mensagens cada, somando 16 compartilhamentos.

Em outras publicações, as mortes e os efeitos colaterais narrados pelas mensagens de WhatsApp são totalmente inventados. Umas das publicações que circulam conta o caso de um suposto pastor da cidade de Araguaína (TO) que teria se vacinado e morrido. A Assembleia de Deus no município, no entanto, negou que algum pastor tenha falecido após ser imunizado, como mostrou a Agência Lupa.

Também aparece nesses grupos um post de Facebook com uma foto da suposta médica Sara Beltran Ponce e um texto no qual ela relata ter sofrido um aborto depois de se vacinar. Na verdade, a mulher que aparece na foto se chama Amy Guy-Ulrich e ela continua grávida, como mostra apuração do Observador, de Portugal, e do Maldita.es, da Espanha, veículos que assim como o Aos Fatos integram a CoronaVirusFacts Alliance.

Por fim, outra desinformação comum que circula (com 11 compartilhamentos) é um post que distorce dados publicados neste mês pelo governo americano para afirmar que 500 pessoas teriam morrido no país por causa da vacina. Como o Aos Fatos mostrou, no entanto, isso não é verdade. A plataforma de onde saíram os dados agrega relatos que podem ser submetidos por qualquer pessoa e não indica que os casos de fato foram causados pela vacinação.

Conspiração

Outras publicações, predominantes em janeiro, fazem alertas genéricos e recorrem a teorias da conspiração para alertar sobre os supostos riscos da vacina.

A mensagem mais compartilhada nesse universo traz um texto falsamente atribuído ao vice-presidente Hamilton Mourão, conteúdo que já foi checado pelo Aos Fatos. Um trecho diz que laboratórios tentam se isentar de responsabilidade sobre eventuais efeitos colaterais derivados das vacinas (o que a lei brasileira não permite). Escrito na verdade por uma médica, o texto apareceu em pelo menos 48 mensagens, que foram compartilhadas 101 vezes ao longo de todos os 25 dias incluídos no monitoramento dos grupos de WhatsApp.

Outros posts recorrem a outras teorias da conspiração que vêm sendo checadas há meses pelo Aos Fatos, como a de que os imunizantes podem provocar alterações genéticas que fazem parte de um plano do bilionário Bill Gates, ou que contêm um chip que tornará possível o rastreamento em massa da população.

Referências:

1. Anvisa
2. Aos Fatos (1, 2, 3 e 4)
3. Estadão Verifica
4. Secretaria de Saúde Indígena
5. Agência Lupa
6. Observador
7. Maldita.es
8. CoronaVirusFacts Alliance

sobre o

Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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