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Apoiadores de Bolsonaro voltam a culpar governadores nas redes por agravamento da pandemia

Por Bernardo Barbosa e João Barbosa

4 de março de 2021, 16h22

Em meio a uma crise de superlotação nas UTIs e a um aumento no número de mortos pela Covid-19, aliados e seguidores do presidente de Jair Bolsonaro voltaram a culpar, nas redes sociais, governadores e prefeitos pelos problemas de gestão da pandemia no Brasil. As publicações mais populares com esse discurso somaram mais de 400 mil interações no Twitter e de 485 mil no Facebook, mostra levantamento do Radar Aos Fatos com dados coletados entre 24 de fevereiro e 2 de março.

A estratégia de responsabilizar lideranças locais e isentar o governo federal já foi usada por apoiadores do presidente em outros momentos críticos da crise sanitária —por exemplo, quando o Brasil atingiu 100 mil mortos, em agosto, ou com a falta de oxigênio em Manaus, em janeiro. Frequentemente, esta linha de atuação é acompanhada da alegação falsa, já checada pelo Aos Fatos, de que Bolsonaro foi impedido pelo STF (Supremo Tribunal Federal) de tomar medidas contra a pandemia.

Nesta última semana, o estopim foi uma decisão da ministra Rosa Weber, publicada no domingo (28), que restabeleceu o financiamento federal de leitos de UTI nos estados. Dados do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) indicam que o número de leitos bancados com ajuda da União havia caído de cerca de 12 mil em dezembro de 2020 para 4.000 no começo de março. O país tem aproximadamente 20 mil leitos de UTI dedicados a pacientes de Covid-19, segundo o Conass.

No mesmo dia da decisão, sem fazer alusão direta ao STF, Bolsonaro publicou em suas redes sociais valores de repasses da União aos estados. Como mostrou reportagem da Folha de S.Paulo, no entanto, 58% dos valores citados pelo presidente não têm relação direta com o combate à pandemia. Os posts de Bolsonaro levaram 19 dos 27 governadores a contestar os cálculos do presidente em uma nota pública.

Ainda assim, perfis simpáticos ao presidente passaram a usar esses dados para defender que o governo federal havia feito sua parte no controle da doença, por vezes insinuando que governadores e prefeitos geriram mal ou cometeram irregularidades com as verbas destinadas.

‘Pra onde foi o dinheiro?’

A coleta do Radar mirou, por meio de palavras-chave, publicações que falavam da crise no financiamento de UTIs. No Twitter, 51 dos 100 posts que mais receberam interações (curtidas e retweets) ao abordar essa temática defendiam o governo federal, somando mais de 400 mil interações (55,6% do total analisado). Um deles, do ministro das Comunicações, Fábio Faria (PSD), perguntava “pra onde foi o dinheiro”.

Dentro deste subgrupo, a maioria das publicações (42, ou 82%) foi feita a partir de domingo (28), quando foi publicada a decisão da ministra Rosa Weber sobre o financiamento de UTIs.

No Facebook, o apoio explícito ao governo federal foi menos frequente e apareceu em 28 dos 100 posts analisados pela reportagem. Mesmo assim, estas publicações tiveram 485 mil interações (curtidas e compartilhamentos), mais da metade (56,7%) de todo o universo do levantamento. No total, 22 dos 28 posts (78%) foram feitos no domingo (28) ou depois.

Nas duas redes, o próprio presidente foi protagonista na defesa da atuação de seu governo. O post em que listou repasses feitos pela União a estados ao longo de 2020 tinha quase 190 mil interações no Facebook na terça (2). No Twitter, o presidente distribuiu os valores em uma sequência de nove tweets que somavam 182 mil interações.

Críticas

Dos 100 tweets analisados, 59 continham críticas a governadores ou prefeitos por suas atuações na pandemia, por vezes insinuando a presença de irregularidades ao questionar onde foram parar os recursos vindos da União (31%). Também foram frequentes as menções a uma suposta má gestão local na saúde, acompanhada de cobranças pelo fechamento de hospitais de campanha e a falta de UTIs (52%).

Os mesmos assuntos também apareceram na amostra do Facebook, mas com menos frequência. As críticas a governadores e prefeitos estavam presentes em 35% dos posts; a insinuação de irregularidades, em 18%; e as cobranças sobre a gestão na saúde, em 25%.

Apesar de a decisão da ministra do STF ter motivado a mobilização bolsonarista, a corte e seus integrantes foram menos criticados: só foram citados negativamente em 11% dos posts analisados no Twitter e em 4% das publicações no Facebook.

Referências:
1. G1
2. STF (1, 2)
3. Folha de S. Paulo (1, 2, 3)
4. UOL (1, 2)
5. Governo do Maranhão
6. Conass
7. MP 1032/2021
8. Aos Fatos (1, 2, 3, 4, 5)

sobre o

Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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