Bolsonaristas amenizam tom negativo sobre vacinas no Twitter, mas aumentam críticas a isolamento

Por Bernardo Barbosa, Bruno Fávero, Débora Ely e João Barbosa

17 de março de 2021, 15h10

Em uma de suas primeiras declarações como indicado a ministro da Saúde, o cardiologista Marcelo Queiroga elogiou os acordos de compra de vacinas pelo Executivo federal, mas criticou medidas de isolamento social, que, segundo ele, "não podem ser política de governo". Intencionalmente ou não, sua entrevista à CNN Brasil resumiu o que, como mostra levantamento do Radar Aos Fatos, tem sido a tônica do discurso de lideranças bolsonaristas no Twitter: amenizar o tom crítico às vacinas e dobrar a aposta no discurso antilockdown.

A reportagem coletou e analisou 1.158 tweets sobre esses dois temas (vacinas e medidas de isolamento) publicados entre 25 de agosto e 15 de março pelo presidente e dez parlamentares de sua base de apoio no Congresso (veja a metodologia no fim do texto): o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e os deputados Bia Kicis (PSL-DF), Carla Zambelli (PSL-SP), Carlos Jordy (PSL-RJ), Caroline de Toni (PSL-SC), Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), Filipe Barros (PSL-PR), Marco Feliciano (Republicanos-SP), Osmar Terra (MDB-RS) e Sargento Fahur (PSD-PR).

Como mostra o gráfico abaixo, até o fim do ano passado, comentários negativos sobre as vacinas predominavam — responderam por 95% do total de posts em outubro, 62% em novembro e 72% em dezembro. Em janeiro, mês em que começou a vacinação no Brasil, veio a virada. As críticas diminuíram para 41% do total e deram lugar a mais comentários positivos, que saltaram de 22% no último mês de 2020 para 46% no primeiro de 2021. Até a última segunda-feira (15), tweets positivos representavam 83% dos posts em março, contra apenas 11,9% de tweets negativos.

No mesmo período em que mudava o tom ao falar das vacinas, o grupo também aumentou a frequência das críticas a medidas restritivas adotadas em cidades e estados para tentar conter o novo avanço da Covid-19. De setembro a dezembro, esses perfis publicaram uma média de 41 tweets por mês com críticas a regras de isolamento social. O número ficou estável em janeiro, mas dobrou em fevereiro para 86 publicações. Em março, foram 64 posts até o dia 15 — caso o ritmo se mantenha, serão mais de 120 ao fim do mês.

A mudança no discurso acontece em um momento negativo para o governo Bolsonaro. Além do agravamento nos números da Covid-19 e da volta do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao cenário eleitoral de 2022, pesquisas de opinião mostram um aumento da rejeição ao presidente e apoio majoritário à vacinação. Como o Radar mostrou em janeiro, desde o ano passado bolsonaristas também vinham perdendo espaço no debate das redes sobre imunização.

DISPUTA COM GOVERNADORES

Os dois movimentos nas redes de apoiadores do presidente ainda têm como pano de fundo a disputa de Bolsonaro com governadores durante a pandemia e sugerem uma mudança na estratégia de enfrentamento por parte de seus seguidores.

Até o ano passado, quando mensagens negativas sobre vacinação predominavam, o assunto era usado com frequência para criticar governos locais. Entre os 376 tweets negativos sobre o tema, 146 (38,8%) continham críticas à CoronaVac, vacina da farmacêutica chinesa Sinovac desenvolvida em parceria com o Instituto Butantan, de São Paulo, e 111 (29,5%) ao governador paulista, João Doria (29,5%), do PSDB, possível rival de Bolsonaro nas eleições de 2022. Cerca de 32% dessas mensagens ainda eram contra a obrigatoriedade da vacinação, cogitada por alguns estados.

A partir de janeiro, porém, Bolsonaro e seus aliados passaram a falar de vacinação prioritariamente para promover ações de governo. Entre as 278 mensagens positivas sobre vacinas analisadas, 190 (68%) consistiam em anúncios de medidas adotadas pelo Executivo federal, como compra de insumos e distribuição de doses pelo país. A vacina mais citada nos posts positivos também foi a de Oxford (28,7%), desenvolvida pela AstraZeneca e fabricada no Brasil pela Fiocruz, órgão do governo federal.

Em 61 (21,9%) dessas mensagens positivas, Bolsonaro é citado diretamente, com destaque para dois momentos. Em dezembro, quando o presidente publicou medida provisória liberando R$ 20 bilhões para a vacinação e o governo anunciou o plano nacional de imunização, o nome dele apareceu em 57,1% dos tweets positivos. Na primeira quinzena de março, com menções à aquisição de doses da Covaxin e da intenção de compra de doses dos imunizantes da Pfizer e Janssen, Bolsonaro foi citado em 33,7% dos posts positivos.



A mudança de tom no debate sobre vacinas, no entanto, foi compensada em parte pela oposição mais barulhenta a medidas de isolamento social adotadas por estados e cidades. A maioria das críticas ao isolamento veio acompanhada de alegações de que medidas do gênero não funcionam para conter a Covid-19 (53,8%) ― o que não é verdade, segundo estudos científicos (aqui e aqui). Também apareceram alertas para possíveis problemas econômicos decorrentes das restrições (25,1%), como desemprego, além das críticas a governadores e prefeitos (25,6%).

O presidente e seus aliados sempre foram contra medidas de isolamento decretadas por governadores e prefeitos, como a interrupção de atividades consideradas não essenciais e restrições de circulação.

O Aos Fatos já mostrou em outras ocasiões que estas críticas frequentemente estão relacionadas à alegação falsa de que o STF (Supremo Tribunal Federal) proibiu o governo federal de adotar medidas do gênero, supostamente delegando todo o poder de combate à pandemia a gestores locais. No começo de março, com o agravamento da situação da Covid-19 no país, o Radar noticiou que apoiadores de Bolsonaro voltaram a culpar prefeitos e governadores por problemas na gestão da pandemia.

METODOLOGIA

Os perfis analisados foram escolhidos com base em seu alinhamento com o governo federal e sua presença no Twitter. A reportagem selecionou os dez perfis de parlamentares com o maior número de seguidores no Twitter entre aqueles nomes que se alinharam à orientação do governo federal em ao menos 95% das votações da Câmara dos Deputados e do Senado, de acordo com a ferramenta Radar do Congresso, do site Congresso em Foco.

Foi coletado então o maior número de mensagens possível desses perfis dentro do limite permitido pela API (Interface de Programação de Aplicação) do Twitter. Em seguida, as mensagens foram filtradas por dois conjuntos de palavras-chave, um relacionado a vacinas e outro a medidas de isolamento social.

As mensagens das duas bases de dados resultantes foram submetidas a uma análise de sentimento em relação aos temas de interesse, em que cada tweet foi classificado como positivo, neutro ou negativo. Mensagens ambivalentes, que tinham uma perspectiva positiva e negativa sobre o assunto, foram classificadas como negativas.

Referências:
1. CNN Brasil (1, 2)
2. UOL (1, 2)
3. G1 (1, 2, 3)
4. Folha de S. Paulo
5. Poder360
6. Aos Fatos (1, 2, 3)
7. Governo Federal (1, 2)
8. Agência Brasil
9. O Globo
10. BBC Brasil
11. Congresso em Foco

sobre o

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