Dida Sampaio / Estadão Conteúdo

Desinformação nas redes sobre senadores da CPI da Covid-19 mira G7 com falsos casos de corrupção

Por Cecília do Lago, Débora Ely e João Barbosa

27 de julho de 2021, 18h40

Conteúdos desinformativos já checados por Aos Fatos sobre senadores da CPI da Covid-19 alcançaram ao menos 485 mil interações no Facebook e no Twitter, segundo levantamento do Radar Aos Fatos. Em comum, a maioria dos posts contendo alegações falsas ou distorcidas busca associar à corrupção integrantes da comissão que se declaram independentes e oposicionistas em relação ao governo Bolsonaro, o chamado G7.

No Twitter, o Radar encontrou 174 postagens com algum grau de desinformação a respeito de membros da CPI. Somados, esses conteúdos reuniram 304,3 mil interações (curtidas e retweets).

A informação falsa mais popular entre os tweets analisados foi a denúncia de “rachadinha” contra Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Ao todo, 129 tweets com algum grau de desinformação sobre o tema alcançaram 200,9 mil interações.


De acordo com a peça desinformativa, um recibo provaria que um funcionário paga o aluguel da casa do senador, vice-presidente da CPI. Entretanto, o documento é referente ao escritório do parlamentar em Macapá (AP) e a transação não foi irregular, pois, segundo o Senado, o nome do congressista consta na nota como pagador e a administração dos gabinetes é uma atribuição das equipes dos gabinetes.

O Radar detectou que esta peça de desinformação surgiu na noite de 7 de junho, em uma conta apócrifa, criada em março deste ano e que hoje está desativada. Ela publicou uma série de tweets sobre a denúncia, marcou influenciadores bolsonaristas e convocou o impulsionamento de uma hashtag. A partir daí, o assunto se espalhou e permaneceu entre os assuntos mais comentados do Twitter pelas 24 horas seguintes.

Tirada de contexto, uma declaração dada pela senadora Simone Tebet (MDB-MS), representante da bancada feminina na CPI, foi o segundo tópico de desinformação mais disseminado no universo de tweets analisados pelo Radar: 34 tweets com maior ou menor grau de distorção sobre a fala da parlamentar geraram 83,1 mil interações na plataforma.

Ao afirmar que "não é porque o recurso é federal e foi repassado para estados e houve malversação do dinheiro público que ele [governador] pode ou deve ser investigado por esta comissão", Tebet se referia a uma restrição prevista na Constituição. Essa informação e o trecho em que ela fala que a decisão de investigar é da CPI são omitidos nas citações ao episódio, abrindo brechas para uma interpretação de que ela tentava acobertar mau uso de verbas federais nos estados.


O Radar também contabilizou 7 mil interações em postagens que mencionaram que a deputada estadual amazonense Nejmi Aziz (PSD), esposa de Omar Aziz (PSD-AM), presidente da CPI, havia sido presa dentro de um avião.

A peça de desinformação recorre a um vídeo de 2018 que mostra um tumulto causado pela recusa de uma mulher – que não era Nejmi – em despachar o excesso de bagagem em um voo. A esposa de Aziz foi detida em outro caso, em 2019, no âmbito de uma operação que investiga corrupção passiva, lavagem de capitais e organização criminosa. Ela responde em liberdade aos processos.

Além da associação com a corrupção, senadores foram alvo de desinformação no Twitter por meio de falsas declarações atribuídas a depoentes da CPI da Covid-19. Tweets que apontaram que o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello disse a Randolfe que não foi fardado à CPI para evitar “satisfazer fetiche de gazela”, por exemplo, somaram 8,6 mil curtidas e retweets. A declaração nunca foi proferida pelo general.


Também foi identificado um tweet que gerou 4,6 mil curtidas e retweets ao afirmar que o ex-ministro da Saúde Nelson Teich disse na CPI que senadores “torcem pelo caos”. Esta frase, que não consta nas transcrições disponíveis no site do Senado, não foi dita pelo oncologista em seu depoimento à comissão.

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Facebook

O Radar identificou que conteúdos enganosos sobre os senadores da CPI, e que foram checados por Aos Fatos, reúnem ao menos 180,7 mil compartilhamentos no Facebook. Este número representa a soma de vezes em que uma postagem desinformativa foi passada adiante por outros usuários, de acordo com o monitoramento diário do Aos Fatos dentro da parceria para verificação de informações falsas na rede social.

Na plataforma, a peça de desinformação mais compartilhada foi o vídeo da confusão em um voo atribuída à prisão da mulher de Aziz – foram 104,4 mil compartilhamentos. Um único post sobre o tema, marcado como falso, foi distribuído por mais de 37 mil usuários.

O segundo conteúdo enganoso mais compartilhado (56,3 mil vezes) citava que filhos do senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da comissão, embarcaram em um avião da FAB (Força Aérea Brasileira) para ir à praia. No entanto, as pessoas que aparecem na gravação não são fisicamente semelhantes aos filhos do parlamentar, e a aeronave também não é da Aeronáutica. A postagem mais distribuída com a informação falsa teve 18 mil compartilhamentos.

As demais mensagens enganosas relacionadas a senadores no Facebook tiveram alcance significativamente menor – entre 6,3 mil e 62 compartilhamentos, de acordo com levantamento do Radar.

Aos Fatos integra o Third-Party Fact-Checking Partners, programa de verificação de fatos do Facebook, desde maio de 2018. A parceria reúne dezenas de iniciativas independentes de checagem no mundo associadas à IFCN (International Fact-Checking Network) para combater a disseminação de desinformação na plataforma e também no Instagram.

Na parceria, posts com informações que se provaram falsas ou distorcidas recebem um aviso que alerta para a presença de desinformação, mesma notificação que é enviada aos usuários que interagiram com ele. A publicação também tem a visualização reduzida nos feeds e quem tentar compartilhá-la recebe um alerta de que se trata de desinformação.

METODOLOGIA

Para a coleta no Twitter, o Radar buscou, por meio da API da plataforma, palavras-chave relacionadas a desinformação sobre senadores da CPI e já checadas pelo Aos Fatos. Depois, analisou individualmente os 500 posts mais populares, classificando quais continham alegações falsas e distorcidas. Já no levantamento do Facebook, o Radar contabilizou o total de compartilhamentos dos posts enganosos classificados pelo Aos Fatos na ferramenta de verificação disponibilizada pela plataforma.

Referências:
1. Aos Fatos (1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7)
2. G1
3. Twitter
4. CrowdTangle

sobre o

Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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