YouTube divulga relatório de impacto que ignora desinformação e extremismo

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Na segunda-feira (14), o YouTube divulgou um relatório sobre o “impacto econômico, cultural e social” da empresa no país. O documento, feito pela consultoria Oxford Economics, diz que “o ecossistema criativo do YouTube contribuiu com mais de R$ 4,55 bilhões para o PIB do Brasil” em 2022.

Apesar de ter sido o evento mais relevante do país no ano passado, a eleição presidencial é mencionada apenas de passagem.

A Plataforma de hoje traz as justificativas da empresa para essa escolha.

EM 5 PONTOS:

  • O YouTube foi peça fundamental na disseminação de mentiras antes, durante e após a eleição presidencial;
  • O relatório não informa, por exemplo, se o dinheiro pago à Jovem Pan entrou no cálculo da contribuição ao PIB;
  • O documento afirma que 94% dos usuários concordam que o YouTube “foi útil nas eleições presidenciais brasileiras”;
  • A empresa perdeu uma chance de estabelecer diálogo transparente sobre suas responsabilidades;
  • O impacto positivo existe. Mas ignorar o negativo só convém a quem tem contas a pagar com a Justiça.

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💥 O impacto do YouTube no Brasil

Sete meses após uma tentativa de golpe de Estado, as instituições brasileiras agem para punir os responsáveis. Até sexta (18), os ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) julgarão no plenário virtual se aceitam mais 70 denúncias contra invasores da praça dos Três Poderes.

O caso que tem recebido mais atenção, no entanto, vai além das pessoas que destruíram relíquias centenárias e estilhaçaram as vidraças do Supremo — mas também envolve objetos de alto valor pecuniário.

A cada semana vêm à tona mais detalhes sobre a atuação de caixeiro viajante de Mauro Cid, coronel da ativa e ex-ajudante de ordens da Presidência da República que vendeu joias que pertencem ao Estado brasileiro, segundo aponta a investigação até agora.

Desta vez, um nome inesperado emergiu na trama: o de Paulo Figueiredo Filho, influenciador digital e neto de ditador militar, que antes, durante e após as eleições propagou mentiras e extremismo na Jovem Pan. A informação foi noticiada pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Em março deste ano, segundo a Polícia Federal, Cid enviou o contato de Figueiredo pelo WhatsApp ao tenente Osmar Crivelatti, outro ajudante de Bolsonaro envolvido no caso, junto com o endereço de uma joalheria em Miami — cidade em que mora o ex-comentarista da emissora paulista.

Mensagens de Mauro Cid mostram que ele relatou a desconfiança de Bolsonaro com integrantes do alto comando do Exército na mesma época em que Figueiredo iniciou ataques contra generais “melancias”.

  • Em 28 de novembro do ano passado, Figueiredo disse no programa Os Pingos nos Is, da Jovem Pan, que “3 dos 14 [generais do Exército] têm se colocado de forma aberta na articulação contra uma ação mais direta, mais contundente das Forças Armadas”;
  • No que caracterizou como um “dever cívico”, ele divulgou os nomes de três generais, a quem acusava sem apresentar provas;
  • Nos dias seguintes, os militares viraram alvo de ataques nas redes. Postagens alegavam que eles teriam ligações com Alexandre de Moraes e com Lula e que teriam “traído o povo na porta dos quartéis”;
  • A mentira ensejou um posicionamento oficial do Exército Brasileiro, em defesa dos oficiais.

Em resumo, o entorno do então presidente — derrotado na tentativa de reeleição — ecoava teorias conspiratórias transmitidas pela Jovem Pan, com a maior parte da audiência concentrada no YouTube e links distribuídos pelo Telegram e pelo WhatsApp.


O YouTube anunciou a desmonetização da Jovem Pan em 23 de novembro de 2022, cinco dias antes do comentário de Figueiredo Filho. A plataforma de vídeos do Google era uma relevante fonte de receita: em 2021, a emissora faturou R$ 100 milhões, dos quais R$ 20 milhões vieram do YouTube, segundo reportagem da piauí.

A atuação da Jovem Pan em simbiose com redes bolsonaristas está documentada — e foi relevante em momentos cruciais, como no fim de semana do primeiro turno. O apoio da emissora ao ex-presidente gerou aumento nas doações recebidas via YouTube.

Questionada se o cálculo de que “o ecossistema criativo do YouTube contribuiu com mais de R$ 4,55 bilhões para o PIB do Brasil” inclui pagamentos feitos à Jovem Pan no ano passado, a empresa respondeu à Plataforma que “essa informação deve ser checada com a Oxford Economics”.

“De acordo com a empresa [Oxford Economics], o pagamento total feito pelo YouTube em 2022 foi estimado por meio de pesquisa com os criadores de conteúdo do YouTube sediados no Brasil e as informações publicadas sobre as receitas da indústria fonográfica. As receitas obtidas fora da plataforma foram estimadas com base nas respostas dos criadores de conteúdo e das empresas à pesquisa.”


O impacto do YouTube ao distribuir mentiras extremistas vai além da Jovem Pan, que é apenas o exemplo mais lucrativo.

A ação no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) que resultou na inelegibilidade de Bolsonaro, por exemplo, trata do encontro com diplomatas estrangeiros no Palácio da Alvorada. Apesar de infringir as regras da plataforma, o vídeo das mentiras contadas pelo então presidente teve ao menos 900 mil visualizações até o YouTube decidir deletá-lo.

Em novembro, dias após atualizar suas diretrizes para proibir desinformação sobre o resultado de 2022, o YouTube permitiu que canais não só publicassem conteúdo do tipo, mas também lucrassem com isso. Na época, o Radar Aos Fatos identificou 14 canais monetizados que fizeram lives golpistas, com quase 5 milhões de visualizações.

No próprio dia 8 de janeiro, quando extremistas destruíram os prédios dos Três Poderes, 23 transmissões ao vivo de canais monitorados pelo Radar Aos Fatos tiveram alguma forma de monetização.

Nem decisões do STF foram suficientes para expurgar vídeos golpistas do YouTube. Mesmo após bloqueio judicial, a plataforma permitiu que Barbara Destefani, Rodrigo Constantino, Paulo Figueiredo Filho e Paula Marisa continuassem publicando vídeos, que somaram 31 milhões de visualizações entre janeiro e maio.

O conteúdo, que também estava sendo promovido pelo algoritmo do YouTube, só foi excluído após questionamentos do Aos Fatos.

Segundo o relatório divulgado nesta semana, 75% dos usuários que pesquisaram notícias no YouTube “concordam que conseguem encontrar informações de notícias de fontes seguras e confiáveis” e 94% dos usuários “concordam que o YouTube foi útil nas eleições presidenciais brasileiras, oferecendo acesso a informações oportunas e/ou confiáveis”.

A Plataforma perguntou ao YouTube se a pesquisa buscou medir também quantos usuários dizem ter tido contato com informações não confiáveis e se o questionário aplicado diferencia informações “oportunas” de informações “confiáveis”.

A empresa disse apenas que o “relatório foi encomendado à Oxford Economics pelo YouTube, sendo uma das empresas referência no mercado” e que “a OEX retém a autoria da pesquisa e dos resultados e possui total independência sobre suas descobertas”.


Ao tentar varrer para baixo do tapete sua responsabilidade pela propagação de extremismo nas redes, o YouTube perdeu uma chance de estabelecer diálogo transparente.

É evidente que o impacto positivo da empresa existe.

  • Sem o YouTube, não haveria Nathalia Arcuri, criadora da Me Poupe!, empresa de educação financeira que surgiu a partir do canal homônimo e já ajudou milhões de brasileiros;
  • Muito menos gente conheceria Átila Iamarino, doutor em microbiologia e um dos mais relevantes divulgadores científicos do Brasil, criador de dois canais no YouTube — voz essencial durante a pandemia de Covid-19;
  • Felipe Neto seria apenas um botafoguense apaixonado;
  • Sem falar em Konrad Dantas, fundador da produtora KondZilla. Ele começou produzindo vídeos para amigos e hoje é dono do maior canal de YouTube da América Latina, o 20º maior do mundo, com 66 milhões de inscritos.

Mas o impacto negativo também está aí. Ignorá-lo só convém a quem tem contas a pagar com a Justiça.

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