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Doações à Jovem Pan via ‘Super Chat’ do YouTube aumentaram com lives de Bolsonaro

Por Ethel Rudnitzki e João Barbosa

15 de setembro de 2022, 16h26

No início, em janeiro de 2020, a Jovem Pan transmitia no YouTube apenas trechos das lives do presidente Jair Bolsonaro (PL) — e só durante os intervalos comerciais da rádio.

Com o passar das semanas, as falas ao vivo de Bolsonaro ganharam mais espaço na programação, até que, em 2 de abril de 2020, a Jovem Pan não só transmitiu a íntegra pela primeira vez como os comentaristas do programa “Os Pingos nos Is” fizeram perguntas a Bolsonaro, segundo levantamento do Radar Aos Fatos em parceria com o estúdio de análise de dados Novelo Data. As transmissões encerraram em julho de 2022, em respeito à Lei Eleitoral.

A decisão de passar a exibir a íntegra das lives do presidente coincidiu com a saída do governo do então ministro da Justiça e Segurança Pública, o ex-juiz Sergio Moro (União Brasil-PR). “Assim, na medida em que foi constatado que a audiência abandonara Moro e mandara às favas seus pruridos anticorrupção, continuando fiel ao presidente, ‘Os Pingos nos Is’ mergulhou de vez no bolsonarismo”, registra reportagem da revista piauí publicada em agosto, também feita em parte com análise da Novelo Data.

Desde abril de 2020, o canal do programa no YouTube ganhou 3,36 milhões de inscritos, ainda segundo o estúdio de análise de dados. “Os Pingos nos Is” foi o segundo canal que mais cresceu no período entre aqueles que apoiam Bolsonaro. Esse engajamento se converte em dinheiro. A Jovem Pan teve faturamento de R$ 100 milhões em 2021 — dos quais R$ 20 milhões de receitas do YouTube, crescimento de 50% em relação ao ano anterior, de acordo com a piauí.

E as fontes de receita da Jovem Pan no YouTube vão além da publicidade. O Radar Aos Fatos coletou todas as doações recebidas via “Super Chat”, modalidade em que usuários pagam para ter os comentários destacados em transmissões ao vivo. O levantamento considera edições de quintas e sextas-feiras do “Pingos nos Is”, no YouTube, entre outubro de 2020 e setembro de 2022 — os comentários não estão ativados para vídeos anteriores.

O valor médio pago pelos usuários via “Super Chat” foi maior nas edições em que houve retransmissões das lives de Bolsonaro.

  • 64 lives presidenciais retransmitidas pela Jovem Pan receberam doações desde outubro de 2020;
  • Cada uma delas recebeu em média R$ 383,61;
  • As edições que não retransmitiram as lives tiveram média de arrecadação mais baixa: R$ 237,80;
  • Desde que o programa parou de retransmitir as lives em julho deste ano, a média de arrecadação caiu para R$ 150 por edição;
  • 70% do valor do “Super Chat” é revertido para o canal, os 30% restantes ficam com o Google.

Somente nas retransmissões de lives de Bolsonaro, o canal recebeu R$ 24.551,03 via “Super Chat”, valor pequeno se considerado o total de receita que a Jovem Pan recebe do YouTube, mas que revela como o engajamento da base de apoiadores do presidente se reverte em dinheiro.

A edição mais lucrativa do programa foi a de 29 de julho de 2021, que retransmitiu a que ficou conhecida como “Live Bomba de Jair Bolsonaro”, na qual ele prometeu mostrar provas de fraude nas urnas em 2018, mas apenas repetiu falsas acusações contra o sistema eleitoral. O vídeo recebeu mais de R$ 3,3 mil em doações via “Super Chat” no canal do “Os Pingos nos Is”, antes de ser excluído em julho deste ano por violar as políticas de conteúdo eleitoral da plataforma. Questionado, o YouTube não respondeu se, após a violação, o valor arrecadado na transmissão foi estornado.

A transmissão de 9 de setembro de 2021, a primeira live do presidente após os atos de 7 de Setembro daquele ano — marcados por falas de Bolsonaro contra o ministro Alexandre de Moraes e o STF (Supremo Tribunal Federal) —, rendeu R$ 2.849,15 em doações via “Super Chat” à Jovem Pan.

Print de edição do dia 09/09/2021 do programa Os Pingos Nos Is no Youtube, com doações via Super Chat

Na transmissão, Bolsonaro comentou sobre as manifestações e mentiu sobre a campanha de vacinação contra a Covid-19 no país e sobre a corrupção em seu governo, sem qualquer contestação por parte dos apresentadores do programa, que teceram elogios ao presidente e críticas aos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) ao final da live. “Não é atos antidemocráticos. São manifestações. E se alguém apresenta um cartaz, não foi o presidente Jair Bolsonaro que foi lá falar em intervenção”, disse o comentarista José Maria Trindade em defesa ao presidente.

‘Super Chat’ amplifica desinformação

As doações do “Super Chat” podem ser feitas por qualquer pessoa com um usuário no YouTube ou Google em transmissões ao vivo de canais com monetização aprovada pela plataforma. Ao fazer uma doação, o usuário tem seu comentário promovido ao topo dos resultados da transmissão, aparecendo com destaque. Quanto maior o valor da doação, maior o tempo de exibição do comentário.

  • Ao todo, 1.905 pessoas doaram ao “Pingos nos Is” entre outubro de 2020 e setembro de 2021, com média de R$ 23,12 por doador.
  • O usuário que mais fez doações (R$ 1.537,21 em 24 vídeos) usou o espaço para desinformar. Nas edições de 12, 19 e 20 de agosto de 2021, ele fez doações de R$ 142, em referência ao artigo da Constituição usado erroneamente para defender uma intervenção das Forças Armadas, acompanhadas de mensagens a favor dos atos de 7 de Setembro.

Registro de doação no valor de R$142,00 em transmissão ao vivo do presidente no programa Os PIngos nos Is

Outros usam o “Super Chat” como oportunidade de promoção de seus próprios canais. É o caso de um médico desinformador que busca promover o próprio canal no YouTube. Ele fez cinco doações somando R$ 80. “Sou Fã da Jovem Pan. Meu amigo Luciano Hang, proprietário das lojas 'HAVAN' gravou um vídeo pra mim, está no meu cnal [sic]. Também sou do 'Verde e Amarelo'. Abração a todos”, escreveu no “Super Chat” durante a live do dia 4 de setembro de 2021.

Outro lado. O YouTube informou à reportagem que suas diretrizes de comunidade são aplicadas a todos os conteúdos dentro da plataforma, incluindo comentários e “Super Chats”, que também podem ser moderados pelo canal responsável pela transmissão. “O criador [de conteúdo] pode ver quem comprou o Valeu Demais [recurso de aplauso virtual], revisar, responder, marcar com coração, curtir, fixar e remover comentários em seus vídeos”, disse a empresa em nota. Caso um comentário com doação viole as regras e seja removido ou moderado pelo canal, o dinheiro irá para instituições de caridade, conforme informado na política de transmissões ao vivo.

Além do “Super Chat” nas lives, a Jovem Pan também monetiza seus canais de YouTube por meio de anúncios inseridos via Google Ads, mas esses dados não são públicos. A reportagem tentou contato com a empresa por email e telefone disponibilizados no site e pelo contato do diretor do programa, mas não obteve resposta.

METODOLOGIA

O Radar Aos Fatos coletou os comentários de todas as transmissões ao vivo feitas pelo canal “Os Pingos Nos Is” às quintas ou sextas-feiras. Depois, filtrou aqueles comentários de Super Chat, convertendo valores de doações feitas em moeda estrangeiras para o real conforme cotação na data da doação. Por último, separou os vídeos que exibiam a live do presidente Jair Bolsonaro dos outros, fazendo o cálculo da média de doação por transmissão.

Também analisamos os dez usuários que mais fizeram doações ao programa no período, com base no número e frequência de doações e nos comentários publicados.

Referências:

1. Piauí
2. Aos Fatos (1, 2, 3, 4)
3. O Tempo
4. G1
5. Google (1, 2)


Esta reportagem foi atualizada às 18h30 do dia 15 de setembro de 2022 para atualizar a informação sobre aumento no número de inscritos do canal "Os Pingos nos Is".

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