Redes de vídeos curtos permitem edições que desinformam a partir de conteúdo verdadeiro

Por Ethel Rudnitzki, Bianca Bortolon e Milena Mangabeira

26 de agosto de 2022, 18h10

Logo após a entrevista ao Jornal Nacional do candidato do PT à Presidência, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na noite de quinta-feira (25), um trecho cortado e tirado de contexto viralizou nas redes de apoiadores de Jair Bolsonaro (PL), atual presidente e candidato à reeleição.

Na íntegra, Lula responde a um questionamento sobre se ele considera que o agronegócio como um todo faz oposição ao meio ambiente. “Não faz, não. Você veja o agronegócio, sabe, que é fascista e direitista. Porque os empresários sérios, que trabalham no agronegócio, que têm comércio com o exterior, que exporta pra Europa, pra China, esses não querem desmatar”, disse o candidato.

Nas redes, contudo, circulam editados apenas os segundos em que ele diz que parte do setor é “fascista”, dando a entender que o petista se referia ao agronegócio como um todo. Uma dessas versões foi vista mais de 20 mil vezes no TikTok e replicada centenas de vezes no Twitter. Outra foi postada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em seu canal no Telegram, do qual se espalhou para outros grupos e canais.

Vídeos cortados como esse ou com outras edições para desinformar têm se tornado cada vez mais frequentes. Desde junho, o Aos Fatos desmentiu 53 vídeos editados que circularam nas redes sociais — média de quatro por semana —, que somaram milhões de visualizações em todas as plataformas.

As manipulações mais comuns foram edições simples, como a inserção de texto que descontextualiza as gravações. Esse recurso foi utilizado em 30 (56%) das postagens checadas por Aos Fatos desde junho.

  • Em uma delas, que circulou durante a sabatina de Bolsonaro ao Jornal Nacional, bolsonaristas recuperaram um vídeo de 2018 em que o então candidato rezava com apoiadores e inseriram a legenda “antes da entrada do JN”, tirando as imagens de contexto.

Esse tipo de manipulação predomina em postagens de Facebook, uma vez que a inserção de texto é um dos únicos recursos de edição de vídeo disponíveis na plataforma, além de filtros de imagens.

Edições com níveis maiores de complexidade, como cortes (presentes em dez das checagens publicadas pelo Aos Fatos) e mudanças de áudio (desmentidos oito vezes), por sua vez, são mais comuns no TikTok e no Kwai. As duas redes de vídeos curtos chinesas permitem mixagens de conteúdo como junção de vídeos consecutivos, mudanças de áudio, alteração na velocidade das imagens e do som, filtros e textos, entre outras ferramentas.

  • Na semana passada, um trecho de vídeo de comício de Lula em que a professora Marilena Chauí tira uma garrafa da mão do ex-presidente viralizou com uma legenda que diz que o petista estaria bêbado. A postagem, originada no TikTok, cortou trecho em que Chauí devolve a garrafa para o petista, depois de abri-la.
  • No final de julho, circulou no Kwai vídeo de torcedores do Liverpool, time de futebol da Inglaterra que usa uniforme vermelho, sobreposto com uma música favorável a Lula. Na mesma semana, um áudio com xingamentos ao ex-presidente foi inserido em vídeo de bloco de Carnaval em São Paulo no TikTok.

O Radar Aos Fatos ainda identificou cinco checagens de vídeos que passaram por edições mais sofisticadas, como múltiplos cortes de áudio e alteração de imagem que exigem uso de programas de edição externos às plataformas. Entre elas, está vídeo com imagens do Jornal Nacional mostrando Jair Bolsonaro à frente das pesquisas.

Na publicação falsa, que foi uma das mais compartilhadas naquela semana, foram alteradas a voz da jornalista Renata Vasconcellos e a imagem exibida na tela. Apesar de a peça de desinformação apresentar um nível de sofisticação maior que a média, não se trata de um deepfake, versão que circulou em algumas explicações sobre o conteúdo. A voz da apresentadora é verdadeira, mas foi cortada e recortada para mudar o sentido das palavras ditas.

METODOLOGIA

O Radar Aos Fatos levantou todas as checagens que envolviam edição de vídeo feitas pelo Aos Fatos entre 1º de junho e 26 de agosto de 2022. Depois, analisou que tipo de manipulação foi feita, qual o tema da peça desinformativa e qual foi a principal rede em que o conteúdo circulou.

Referências:

1. Aos Fatos (1, 2, 3, 4, 5)

sobre o

Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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