Estabilidade dos resultados parciais em São Paulo não indica que houve fraude eleitoral

Por Luiz Fernando Menezes e Ana Rita Cunha

17 de novembro de 2020, 14h04


Não é verdade que a estabilidade nas colocações entre os quatro primeiros candidatos à Prefeitura de São Paulo indique que houve fraude na apuração do resultado da eleição municipal, como se alega nas redes sociais (veja aqui). O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) informou que o fato de as posições dos líderes terem se mantido as mesmas ao longo da apuração "indica apenas homogeneidade nos votos recebidos durante a totalização". Um especialista ouvido pelo Aos Fatos também confirmou que os números não indicam irregularidade.

De fato, Bruno Covas (PSDB) foi o candidato mais votado à prefeitura em todas as 58 zonas eleitorais da cidade. Em apenas duas zonas eleitorais – Parelheiros e Grajaú, redutos eleitorais da família Tatto – o candidato do PSOL, Guilherme Boulos, não aparece como segundo colocado, perdendo a posição para Jilmar Tatto (PT).

Ao todo, as publicações distorcendo a apuração da eleição em São Paulo somavam ao menos 6.000 compartilhamentos no Facebook até a começo da tarde desta terça-feira (17). Todas foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de verificação do Facebook (veja como funciona).


FALSO


Vem circulando nas redes sociais uma comparação entre diferentes momentos da apuração das urnas em São Paulo para apontar que os números quase não mudaram. Segundo as peças de desinformação, a pouca variação nos números seria indício de fraude. Por mais que os números apresentados nas publicações estejam corretos (você pode conferir aqui os dados das parciais da apuração em 0,39%, 37,77% e 57,77%), a falta de mudanças não prova irregularidades. Segundo o TSE informou em nota, "a estabilidade no percentual de votos em candidatos durante a totalização não constitui indício de fraude e indica apenas homogeneidade nos votos recebidos durante a totalização".

O professor do Instituto de Computação da Unicamp e representante da SBC (Sociedade Brasileira de Computação) nos testes públicos de segurança do TSE, Paulo Lício de Geus, afirmou ao Aos Fatos que a constância da porcentagem de votos durante a apuração não é algo inesperado e não indica irregularidades na apuração.

Segundo Geus, quando os flashes de carga contendo os votos das urnas de cada seção são enviados de maneira bem distribuída, "os números parciais poderão variar muito pouco mesmo". Pode ocorrer a oscilação se o carregamento dos dados das urnas é feito desigualmente por regiões onde haja concentração de votos de um determinado candidato. "Aí se observa ao longo do processo escorregamentos das parcelas de cada um”, explica Geus.

Na nota enviada ao Aos Fatos, o TSE explicou ainda que "conforme os boletins de urna são recebidos pelo sistema de totalização, eles são consolidados e têm os resultados preliminares imediatamente divulgados".

Em São Paulo, o resultado eleitoral não teve grandes variações nas zonas eleitorais. O prefeito e candidato à reeleição Bruno Covas (PSDB) teve o maior números de votos nas 58 seções eleitorais da capital paulista. E, em apenas duas delas – Parelheiros e Grajaú, redutos eleitorais da família Tatto –, o candidato do PSOL, Guilherme Boulos, não aparece como segundo colocado, perdendo a posição para Jilmar Tatto (PT).

Os dados estão disponíveis no site do TSE, em que qualquer eleitor pode conferir os resultados de zonas e seções eleitorais. Também é possível observar a homogeneidade no mapa do G1 com a apuração nas zonas eleitorais.

Por fim, é importante lembrar que o eleitorado de São Paulo é de mais de 8,9 milhões de pessoas. Sendo assim, para mudanças drásticas nas estatísticas, seriam necessários grandes números de votos. Em 2016, por exemplo, as mudanças nas porcentagens de votos no decorrer da apuração também foram pequenas, como você pode ver no acompanhamento da Exame. João Doria, o líder na época, saiu de 52,46% dos votos válidos com 8% de urnas apuradas, passou para 53,07% com 53% das urnas e terminou com 53,29%.

Desinformação. Usar dados de resultados preliminares para desinformar sobre a lisura das eleições é uma estratégia comum. Após as eleições no Brasil em 2018 e nos Estados Unidos em novembro deste ano, circularam peças de desinformação que apontavam o contrário: oscilações na porcentagem de votos dos candidatos ao longo da apuração como prova de uma suposta fraude eleitoral.

Em 2020 não foi diferente. Antes do pleito, circularam boatos, boa parte deles reciclados de eleições passadas, sobre a fragilidade do sistema eleitoral. No domingo (15), dia do primeiro turno, viralizaram principalmente duas peças que sugeriam a existência de fraude: uma dizia que um ataque hacker deixaria claro que o sistema eleitoral seria passível de fraude e outra, que as justificativas dos eleitores ausentes poderiam ser transformadas em votos válidos.

A Agência Lupa e o e-Farsas também desmentiram as peças de desinformação.

Referências:

1. EBC (Fontes 1 e 2)
2. UOL
3. Valor
4. TSE
5. G1
6. Exame
7. Aos Fatos (Fontes 1, 2, 3, 4 e 5)

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