A eficácia da desinformação quando o céu não é mais azul

Por Tai Nalon

21 de setembro de 2020, 18h15


A inesgotável capacidade de criar inimigos empreitada pelos desinformadores profissionais brasileiros parece ter encontrado seu ponto de inflexão na crise ambiental que consome o país. Enquanto as artilharias conspiratórias importam as teorias do "Deep State" norte-americano para associar um Grande Mal aos desdobramentos da pandemia do novo coronavírus, a desinformação associada aos incêndios no Pantanal, no Cerrado e na Amazônia cria espantalhos já conhecidos por quem cobriu as queimadas amazônicas no ano passado.

O Aos Fatos publicou nos últimos dez dias seis matérias sobre as queimadas que assolam esses três biomas. Em comum, esse material joga a culpa dos incêndios em três alvos já conhecidos: indígenas, ambientalistas, ONGs e, não menos importante, os dados oficiais. A rigor, é a mesma retórica usada em 2019, quando a crise na Amazônia repercutiu internacionalmente. Naquela época, campanhas desinformativas culparam as ONGs por colaborar com governos estrangeiros de forma a roubar riquezas e ameaçar a soberania nacional; puseram em xeque os dados de monitoramento que o próprio governo produz; acusaram indígenas de enriquecimento ilícito.

Esse expediente também reforça a estratégia bolsonarista de repetir à exaustão a mesma falsidade sem dar importância à realidade factual. Segundo o contador de declarações falsas ou distorcidas do presidente, Bolsonaro já afirmou ao menos 13 vezes que "o Brasil é o país que mais preserva o meio ambiente", aos menos 17 vezes que "nós temos 14% do território demarcado como terra indígena" e, com algumas variações, ao menos seis vezes que "a floresta amazônica não pega fogo".

A impressão de que tudo isso não passa de mera reciclagem de boatos é fundamental para compreender o sentimento de fadiga gerado pela idiotização midiática que mentiras recorrentes promovem. À semelhança de Donald Trump, Bolsonaro e seus apoiadores não intimidam adversários pela autoridade, mas pela repetição de teorias sobre um universo simbólico abstrato, pouco objetivo. Há sempre uma ameaça oculta, uma articulação insondável, algo que foge aos olhos e à constante vigilância.

A boa notícia trazida pelo Radar Aos Fatos desta semana é que, diante do descalabro ambiental, a retórica negacionista parece ser minoritária: apenas 10,8% dos tweets mais populares sobre o assunto traziam desinformação, enquanto 62% denunciavam os incêndios.

Os sintomas de ineficácia dessa estratégia também podem estar associados a certa incapacidade dos desinformadores de criar uma história diferente para a crise no Pantanal. Disseminar a narrativa de que uma região prevalentemente bolsonarista está tomada por ongueiros ambientalistas é brigar com a realidade próxima de seus apoiadores. Da parte deles, pode até fazer sentido o argumento de que as fronteiras inóspitas da Amazônia abrigam conspiradores internacionais. Porém, quando se abre a janela para ver o sol no Centro Oeste do Brasil, é inabalável a constatação de que onde o céu sempre foi azul agora há cinza.

Esta análise foi originalmente veiculada na newsletter AF+ #47 em 19 de setembro de 2020 somente para apoiadores do Aos Fatos Mais. Para se juntar ao grupo, contribua e garanta benefícios.

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