Como a narrativa QAnon pode moldar o discurso político no Brasil

Por Tai Nalon

8 de setembro de 2020, 12h30


O relatório do Radar Aos Fatos da última semana revelou que conspiracionistas QAnon, seita radical com origem nos Estados Unidos, já orbitam as instituições brasileiras. O presidente Jair Bolsonaro, por exemplo, segue ao menos oito perfis no Twitter que divulgam, intencionalmente ou não, conteúdo oriundo dos subterrâneos do fundamentalismo de direita.

O sinal amarelo acendeu quando, na semana passada, o Aos Fatos desmentiu boato segundo o qual o médium João de Deus teria dito em uma delação que organizou orgias para ministros do Supremo Tribunal Federal. Sua estrutura tinha um tom muito semelhante àquele empregado pelo grupo americano que, em linhas gerais, prega existir no mundo uma rede de "satanistas pedófilos" que incluiria nomes como o do bilionário Bill Gates, a ex-secretária de estado dos EUA Hillary Clinton e o bilionário George Soros.

Tal como qualquer outra estratégia de desinformação, a retórica QAnon lança mão de elementos centrais no debate público, como a pandemia, e insere um conjunto de palavras-chave comuns ao discurso da extrema direita. Porém, enquanto as estratégias de desinformação mais sofisticadas buscam misturar elementos factualmente corretos com conclusões equivocadas, a narrativa QAnon apela para o absurdo. Seus defensores preferem usar teorias da conspiração de cunho religioso, sem qualquer amparo na realidade, para chegar a uma conclusão fundamental: autoridades públicas como políticos, cientistas, jornalistas, juristas, artistas são todos parte de um círculo comum que comunga de objetivos maléficos.

É importante entender essa lógica porque, nos EUA, já há quem classifique QAnon como seita, culto ou mesmo religião. Ou seja, sem controle, essa guerrilha digital cresce sem espaço para o contraditório, uma vez que se baseia em dogma, fé e delírio.

Aliados de Donald Trump já inocularam nesse grupo radicalizado a ideia de que o presidente americano seria o líder que salvaria o mundo da ameaça representada pelos vilões dessa fanfic do mal. Como estratégia de campanha para as eleições presidenciais americanas de novembro, trata-se de um poderoso apoio: não haveria militantes mais aguerridos do que aqueles que professam sua ideologia por meio da fé inabalável num salvador. A troco de rigorosamente nada, fanáticos substituem a militância organizada e uma estrutura de campanha digital cara em tempos de crise econômica.

Ao importar essa máquina para a realidade brasileira, o limite entre a militância paga, organizada, e aqueles que professam ideologias extremas fica ainda mais borrado. Também fica mais difícil entender o que é fraude, campanha irregular e estelionato eleitoral. Ao compartilharem desinformação de modo consistente, simpatizantes QAnon podem simplesmente não recair em dolo, uma vez que acreditam piamente na mentira.

Uma olhada rápida nas bases do Radar Aos Fatos extraídas do Twitter a partir de padrões de linguagem mostra que alguns compartilhadores dessas teorias da conspiração consideram concorrer às eleições municipais deste ano. Eles surgem das bases bolsonaristas já formais, como gabinetes de Câmaras e Assembleias locais. Integram movimentos que questionam desde a efetividade de políticas contra a pandemia, mas apostam na eficácia de um plano de destruição mundial por meio de chips inseridos nas seringas da vacina contra a Covid-19. É necessário entender como esses políticos vão se comportar à luz da crescente radicalização do discurso extremista nas redes e como as particularidades desse movimento serão úteis a eles. Serão eles enganados ou enganadores?


Esta análise foi originalmente veiculada na newsletter AF+ #45 em 5 de setembro de 2020 somente para apoiadores do Aos Fatos Mais. Para juntar-se ao grupo, contribua e garanta benefícios.