Donos de perfis que espalharam desinformação nas redes não conseguem se eleger

Por Amanda Ribeiro e Luiz Fernando Menezes

17 de novembro de 2020, 13h02


Novatos na política, mas conhecidos nas redes sociais, quatro influenciadores de direita que propagaram desinformação e foram checados por Aos Fatos antes da corrida eleitoral não tiveram apoio suficiente nas urnas para conseguirem se eleger no pleito municipal de 2020. Com mais de 140 mil seguidores só no Facebook, os candidatos Alexander Brasil (PRTB-SC), Alan Lopes (PSD-RJ), Rafael Zucco (PSD-SP) e Anthony Ferrari (PSD-RJ) conseguiram, juntos, 10 mil votos.

O levantamento, que analisou os resultados das candidaturas de seis responsáveis por divulgar desinformações desmentidas antes do início da corrida, entre 2019 e 2020, mostra que só dois obtiveram sucesso nas campanhas: os atuais prefeitos e candidatos à reeleição Volnei Morastoni (MDB-SC), de Itajaí, e Cássio Prado (PTB-SP), de Porto Feliz.

Dentre os novatos que se aventuraram a disputar o posto de prefeito de seus municípios, o resultado foi particularmente ruim: nenhum deles conseguiu mais de 5% dos votos válidos. Quem chegou mais perto foi o blogueiro conservador Alexander Brasil, que ficou em quinto lugar na disputa por Florianópolis, com cerca de 7.000 mil votos (2,9% dos votos válidos). Ele publicou, em 2019, a informação falsa de que o ex-ministro da Justiça Sergio Moro havia transferido 60 criminosos do Ceará para presídios federais.

O levantamento também evidencia que os influenciadores que concorreram a cargo de vereador não conseguiram transformar sua base nas redes sociais em votos nas urnas. Exemplo disso é o enfermeiro Anthony Ferrari Penza, que ganhou visibilidade com a pandemia da Covid-19. Em março, ele gravou um vídeo compartilhado mais de 100 mil vezes no qual afirmava que estados e municípios lucravam com mortes decorrentes da infecção. Em outubro, a peça que dizia que as vacinas não teriam sido testadas em humanos antes de virem ao Brasil, outra desinformação de sua autoria, também angariou mais de 25 mil compartilhamentos. Nas urnas, o engajamento não vingou: recebeu apenas 164 votos e não conseguiu a vaga de vereador em Cabo Frio (RJ).

Outro exemplo é Alan Lopes, autointitulado coordenador do Movimento Direita Inteligente, que possui 2.500 seguidores no Facebook e 55 mil no Twitter. Diferentemente de Penza, suas desinformações virais se referiam às eleições. Posts que diziam que a empresa chinesa Lenovo seria responsável pela produção das urnas de 2022 e que compartilhavam uma denúncia antiga, e já desmentida, de fraude sobre a eleição de Jair Bolsonaro passaram dos 22 mil compartilhamentos. No último domingo, no entanto, recebeu apenas 2.540 votos dos cariocas.

Outro que fracassou nas urnas foi Rafael Zucco (PSD), autor de uma postagem que associava a queda no número de casos de Covid-19 às praias lotadas. Ele concorreu a vereador em Guarulhos (SP) e teve 479 votos.

Inquérito das fake news. Também acompanhados pelo Aos Fatos desde o início da campanha, nenhum dos três bolsonaristas que tiveram os nomes citados no inquérito das "fake news", que apura ataques a ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), conseguiram se eleger no último domingo (15). Dentre eles, Marcelo Stachin foi o pior colocado: concorrendo a prefeito de Sinop (MT), ficou em último lugar, com 560 votos (0,86% dos votos válidos).

Mesmo quem já tinha contatos políticos não teve sucesso: o ex-chefe de gabinete do deputado estadual Douglas Garcia (PTB-SP), Edson Salomão (PRTB), apesar de contar com a campanha ostensiva feita pelo ex-chefe, não conseguiu uma cadeira na Câmara Municipal de São Paulo. Teve cerca de 20 mil votos.

Também ex-assessor de Garcia, o candidato a prefeito de Araraquara (SP) Rodrigo Ribeiro foi outro que não vingou: com 1.663 votos (1,58% dos votos válidos), foi o sétimo colocado na disputa. Ribeiro também foi apoiado pelo deputado, ainda que de forma um pouco mais tímida. Ele, Garcia e Salomão integram o Movimento Conservador, fundado em 2016 como Direita São Paulo.

Reação à derrota. A maior parte dos influenciadores derrotados não contestou os resultados com denúncias de fraude. Stachin, por exemplo, publicou um agradecimento a seus eleitores pelos “560 votos limpos” . Postura similar foi adotada pelo candidato Edson Salomão.

Um deles, no entanto, sugeriu, sem provar, a existência de fraudes no pleito. Pouco depois da divulgação dos resultados do Rio de Janeiro, Alan Lopes usou seu Twitter para atacar o TSE. “Quase dez da noite e Barroso continua brincando de manipular os números”; “Estamos sendo avisados dois anos antes do que está para acontecer no Brasil. O exemplo dos EUA, somado ao que aconteceu ontem, é um recado claro” e “O sistema cuspiu na nossa cara! Os Tribunais regionais tiraram a criptografia dos dados e mandaram abertos para Barroso fazer como bem entendesse”, são exemplos de postagens recentes suas no Twitter.

Não há, até o momento, nenhum indício de que houve fraude nas eleições de 2020. Conforme explicado pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) e atual presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Luís Roberto Barroso, a demora na divulgação dos votos se deu por uma falha em um dos processadores usados pela corte.

Os vitoriosos. Candidatos à reeleição pelos municípios de Itajaí (SC) e Porto Feliz (SP), Volnei Morastoni (MDB) e Cássio Prado (PTB) foram os únicos bem-sucedidos entre os acompanhados pelo Aos Fatos. Já ocupantes dos cargos a que se elegeram para 2021, tanto Morastoni quanto Prado propagandearam medicamentos e tratamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19 durante a pandemia. O primeiro recomendou o uso preventivo de ivermectina e a ozonioterapia. Já o segundo defendeu as drogas hidroxicloroquina, azitromicina e enoxaparina contra a doença.

Outro lado. Aos Fatos entrou em contato às 17h45 da última segunda-feira (16) via endereço de e-mail fornecido ao TSE com os candidatos Alexander Brasil, Alan Lopes , Rafael Zucco, Anthony Ferrari, Edson Salomão, Rodrigo Ribeiro, Marcelo Stachin, Volnei Morastoni e Cássio Prado para que pudessem comentar a reportagem. Até a publicação, na tarde desta terça-feira (17), não houve retorno de nenhum deles.

Referências:

1. Aos Fatos (Fontes 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9)
2. Divulga Cand (Fontes 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9)
3. G1 (Fontes 1 e 2)

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