Post usa dados em atualização ao relacionar praias lotadas à queda de óbitos por Covid-19

Por Luiz Fernando Menezes

4 de setembro de 2020, 17h08


Publicações que circulam nas redes sociais desinformam ao dizer que os dados de óbitos por Covid-19 registrados nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro diminuíram após o dia 23 de agosto, quando as praias teriam ficado lotadas de banhistas (veja aqui). Além de usar uma base que ainda está em atualização, a tendência de queda do número de mortes nos dois estados já vinha sendo observada desde antes dessa data.

Publicações no Facebook com a alegação enganosa reuniam ao menos 1.000 compartilhamentos até a tarde desta sexta-feira (4) e foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (saiba como funciona).


FALSO

Circula nas redes sociais uma publicação que sugere que a queda observada nos dados de óbitos de Covid-19 do Portal da Transparência do Registro Civil em SP e RJ a partir do dia 23 agosto teria alguma relação com a lotação das praias. A peça, no entanto, desinforma ao omitir que os números mais recentes dessa base ainda estão em fase de processamento e podem levar meses para serem consolidados.

Como explicado em diversas checagens anteriores, um óbito só aparece no sistema após a família do morto registrá-lo em cartório e o estabelecimento enviar os dados à Central Nacional de Informações do Registro Civil. Esse processo pode levar até 14 dias. Além disso, análises como a do Núcleo Jornalismo mostraram que é possível que os números sofram atualizações mesmo após esse período.

Outro ponto que pode atrasar a atualização de dados foi explicado pela Arpen (Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais) em vídeo publicado no dia 7 de maio: municípios com menos estrutura podem demorar mais do que 14 dias para registrar óbitos. Segundo a lei nº 6.015/1973, pessoas que moram em cidades que ficam a mais de 30 km de distância de um cartório têm até três meses para fazer o registro. E mesmo após esses prazos, é possível ainda que um óbito seja registrado tardiamente por meio de decisão judicial.

É fato, no entanto, que o número de óbitos registrados nos dois estados vem caindo, mas essa tendência não começou no dia 23 de agosto, como afirma a peça de desinformação. Em São Paulo, o número de mortes notificadas está em queda, mesmo que de forma lenta, desde a segunda semana de agosto.

Já o estado do Rio de Janeiro teve seu pico de mortes no dia 3 de junho, quando foram notificados 324 óbitos. A média móvel do estado mostra que os registros vinham caindo desde o final de julho, voltaram a crescer em meados de agosto e agora estão novamente em tendência de queda.

Peças que se aproveitam da demora na consolidação dos dados do Portal da Transparência do Registro Civil para desinformar e criar teorias de supernotificação das mortes por Covid-19 têm sido recorrentes nas redes sociais. No mês passado, por exemplo, os números foram utilizados em publicações que negavam que o Brasil teria passado dos 100 mil mortos pela infecção e que diziam os óbitos estariam em queda “acentuada” desde julho.

Referências:

1. Registro Civil
2. Aos Fatos (Fontes 1, 2 e 3)
3. Núcleo Jornalismo
4. Planalto
5. Seade
6. G1 (Fontes 1 e 2)
7. Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro


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