Divulgação Facebook

Bolsonaristas citados no inquérito das 'fake news' no STF saem candidatos nas eleições e colam imagem ao governo

Por Amanda Ribeiro e Luiz Fernando Menezes

22 de outubro de 2020, 12h24


Três bolsonaristas citados no chamado inquérito das "fake news", que apura ataques a ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), buscam cargos públicos nas eleições municipais deste ano. Edson Salomão, Rodrigo Ribeiro e Marcelo Stachin foram alvo de busca e apreensão nos últimos meses e tiveram suas contas nas redes sociais bloqueadas por decisão do ministro Alexandre de Moraes. Agora filiados ao PRTB, partido do vice-presidente Hamilton Mourão, eles disputam cargos de vereador por São Paulo, prefeito de Araraquara (SP) e prefeito de Sinop (MT), respectivamente.

Aberto no início de 2019 pelo então presidente do Supremo, Dias Toffoli, o inquérito das "fake news" apura ataques a ministros da corte por meio de notícias falsas, calúnias e ameaças. Sob a relatoria de Alexandre de Moraes, a investigação é sigilosa e o que se sabe sobre ela é oriundo de decisões que foram tornadas públicas, como o bloqueio das contas dos investigados, operações de busca e apreensão e quebras de sigilo bancário e fiscal de parte deles.

Salomão e Ribeiro, por exemplo, foram alvo dessas medidas. Até agosto, eles integravam o gabinete do deputado estadual paulista Douglas Garcia (PTB), de onde foram exonerados para disputar as eleições. Garcia também é investigado no inquérito das "fake news" e responde a processos por supostamente produzir e divulgar um dossiê com informações pessoais de opositores "antifascistas" do governo Bolsonaro. Ele nega que seja autor ou responsável pelo vazamento do documento.

Em 2016, Salomão e Garcia fundaram o movimento Direita São Paulo, que organizava reuniões, palestras e manifestações em defesa de pautas conservadoras, como armamento e Escola Sem Partido. Com o objetivo de ganhar uma abrangência nacional, no ano passado ele foi transformado no Movimento Conservador, do qual Salomão é presidente. Hoje, o grupo também é investigado pelo STF em outro inquérito, que apura a realização de atos antidemocráticos no início do ano.

A participação de Salomão e Garcia no Movimento Conservador motivou o Ministério Público de São Paulo a instaurar em fevereiro uma investigação para apurar se ele usava as instalações da Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo) para propagar desinformação. Segundo o órgão, o chefe de gabinete do deputado, cuja remuneração era de R$ 24.730,88, usaria seu horário de expediente para gravar vídeos e fazer publicações com uma “estratégia de mobilização de ataques cibernéticos belicosos que violam a ordem democrática". O processo foi arquivado em agosto.

Em depoimento prestado à Polícia Federal no dia 29 de setembro, o deputado federal Alexandre Frota (PSDB-SP) apontou os endereços de três assessores de Garcia — entre eles Salomão — dentro de uma lista de IPs que estariam envolvidos em um suposto esquema de linchamento virtual com o uso de desinformação. Ainda foram listados dois endereços ligados ao deputado federal e filho do presidente, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que, de acordo com Frota, seria um apoiador ostensivo do Movimento Conservador.

Mandados. Ainda enquanto era chefe de gabinete de Garcia, Edson Salomão foi alvo, em dezembro de 2019 e em maio deste ano, de mandados de busca e apreensão, quando teve celulares e computadores apreendidos. Em março, foi determinada a quebra de seu sigilo bancário e fiscal e, em julho, suas contas nas redes sociais foram bloqueadas. Todas as ações ocorreram no âmbito do inquérito das fake news.

Em suas redes sociais e à imprensa, Salomão sempre negou as acusações e afirmou ser perseguido pela corte. O Aos Fatos entrou em contato com ele para que pudesse se posicionar sobre o inquérito e o possível impacto das investigações em sua campanha. Por mensagem, Salomão disse que Alexandre de Moraes mandou arquivar a parte da investigação que se referia a ele. "Portanto já concluíram a investigação e não encontraram nada”, afirmou.

Em vídeo publicado nas redes sociais no dia 13 de agosto, Salomão fez afirmação semelhante e apresentou um print que, segundo ele, seria da decisão que determina o arquivamento do processo no STF. O documento, assinado pelo ministro Alexandre de Moraes, encaminha as investigações ao TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo).

Consultada pelo Aos Fatos, a assessoria do STF respondeu que “o inquérito 4.781 (chamado de Inquérito das Fake News) é sigiloso. Não temos qualquer informação”. Em busca no TJ-SP, o Aos Fatos não encontrou nenhum processo em tramitação que cite Salomão como disseminador de desinformação e tenha sido desmembrado do inquérito das fake news. Já o Ministério Público de São Paulo negou, por telefone, que o processo tenha passado pela Promotoria do estado.

Atuação nas redes. No mesmo mês em que teve suas contas bloqueadas, Salomão criou um novo perfil no Twitter, onde atualmente tem 53.700 seguidores, e reativou uma página no Facebook criada em 2014 e que de início levava o nome de uma corretora de seguros de sua propriedade.

Defensor do governo do presidente Jair Bolsonaro, ele usa as hashtags #bolsonaro e #bolsomito em postagens de sua campanha eleitoral nas redes. O candidato também comenta frequentemente em postagens do presidente nas redes sociais, dando-lhe os parabéns pelas medidas anunciadas.

Araraquara. Colega de Salomão no gabinete de Douglas Garcia e também envolvido no inquérito das fake news, Rodrigo Ribeiro concorre ao cargo de prefeito de Araraquara, no interior paulista. Ele teve as contas nas redes sociais suspensas em julho e foi alvo de busca e apreensão em maio. Assim como Salomão, também criou novos perfis logo em seguida: no Twitter, tem agora 7.963 seguidores; no Facebook, a página que promove sua candidatura tem 4.571 curtidas.

Em página de arrecadação de fundos para sua campanha, Ribeiro narra sua trajetória política e afirma ter sido contatado pela primeira vez por Edson Salomão em 2017, após fazer um protesto na frente da Câmara Municipal de Araraquara contra a exposição Queermuseu e a performance “La Bête”, feita no MAM de São Paulo, que representavam cenas de sexo e nudez. A partir daí, passou a coordenar o núcleo do Direita SP — hoje Movimento Conservador — na cidade e a organizar uma série de manifestações favoráveis ao então deputado federal Jair Bolsonaro.

De maneira similar a Salomão, Ribeiro é um defensor do mandato do presidente Jair Bolsonaro. Em vídeo publicado no dia 3 de outubro, o candidato aparece apertando a mão do vice-presidente, Hamilton Mourão, colega de partido. Em outras postagens, afirma que o presidente tem que ajudar a “despetizar” as cidades do Brasil e que a esquerda “tem jogado sobre os ombros do Bolsonaro as mortes por Covid-19 e ironizado o termo ‘gripezinha’ que ele usou, copiando o Dr. Dráuzio [Varella]”.

O Aos Fatos entrou em contato com Rodrigo Ribeiro para solicitar uma entrevista por meio de mensagem telefônica e e-mail. Em resposta, o candidato fez perguntas sobre a linha editorial do Aos Fatos e, posteriormente, não respondeu mais aos contatos.

Em nota enviada ao portal RCIA, da cidade de Araraquara, à época do bloqueio de suas redes, Ribeiro afirmou que era alvo de perseguição por parte de partidos de extrema-esquerda e acusado sem provas de promover desinformação por profissionais da imprensa local. Afirmou, ainda, que nunca participou de atos contra o Estado democrático de direito e que era contra a intervenção militar, o AI-5 e a dissolução do STF.

Sinop. Também filiado ao PRTB e citado no inquérito das "fake news", o mato-grossense Marcelo Stachin disputa o cargo de prefeito de Sinop (MT). Crítico ostensivo do Congresso, do STF e da esquerda, o empresário chegou a participar de acampamentos em Brasília e de manifestações contra o Judiciário e o Legislativo.

Em maio, ele foi apontado em reportagens como um dos integrantes de um grupo que ameaçou invadir o Congresso e o STF com o apoio de militares da reserva. Em vídeos publicados em suas redes sociais, Stachin aparece com fardamento militar, apesar de não integrar a corporação. De acordo com o Código Penal Militar, usar indevidamente uniforme, insígnia ou distintivo militar a que não se tenha direito é crime, com pena de até seis meses de detenção.

O empresário teve as contas nas redes sociais bloqueadas em julho e foi alvo de busca e apreensão em maio pela Polícia Federal a pedido do STF. Ao contrário dos outros candidatos envolvidos no inquérito, no entanto, não criou novas páginas: segue usando um perfil pessoal no Facebook, em que acumula 4.930 conexões, e uma página no Instagram com 1.880 seguidores.

Antes de se filiar ao PRTB em fevereiro deste ano, Stachin integrou, durante 14 anos, os quadros do PSDB. Apesar disso, foi um apoiador ostensivo da criação do partido do presidente Jair Bolsonaro, o Aliança pelo Brasil. Em suas redes, há imagens de seu carro, apelidado de “mitomóvel”, adesivado com o símbolo do partido.

Stachin também publica vídeos em defesa do presidente, como um em que joga no lixo uma faixa crítica a Bolsonaro, e compartilha postagens críticas a eventuais opositores. Em publicação no Instagram no dia 24 de janeiro, publicou foto que mostra o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, deitado dentro do que parece ser uma caçamba de lixo, com a legenda “tem que ucranizar”. No texto que acompanha o post, pergunta se os seguidores sabem “como são tratados os políticos corruptos na Ucrânia”.

Em outra publicação, classificada como falsa em checagem feita por Aos Fatos, Stachin sugere que a vacina contra a Covid-19 CoronaVac, desenvolvida por empresa chinesa em parceria com o Instituto Butantan em São Paulo, seria uma farsa.

Em entrevista ao Aos Fatos, Stachin disse que o inquérito das fake news é “inconcebível” e “inconstitucional” e afirmou que ele e seus advogados conhecem apenas parcialmente o teor das denúncias, que não teriam sido liberadas aos citados. Disse, ainda, não ter nada contra o Poder Judiciário, e que suas críticas se limitam a ações individuais dos ministros.

Questionado se a citação no inquérito teria afetado a confiança de eleitores, Stachin lamentou apenas a diminuição de visibilidade nas redes sociais. “Eu fui censurado. Antes, eu postava uma foto, a foto tinha 2.000 curtidas, 10.000 curtidas, um vídeo meu chegava a ter 1,2 milhão de visualizações. Hoje não tem nada. O que é que eles fizeram? Eles me algemaram nas redes sociais. Isso para o eleitor é ruim, porque o eleitor tem que ter acesso a informações. (...) a fake news não prejudicou o Marcelo. A fake news prejudicou toda a sociedade”.

Referências:

1. G1 (Fontes 1, 2, 3 e 4)
2. Poder 360
3. STF
4. Folha de S.Paulo (Fontes 1 e 2)
5. Correio Braziliense
6. Época (Fontes 1 e 2)
7. CNN Brasil
8. Alesp
9. TJ-SP
10. Terra
11. O Globo
12. BBC Brasil
13. RCIA
14. Congresso em Foco
15. Planalto
16. Aos Fatos

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