Reprodução/TSE

Em grupos de WhatsApp, 35% das mensagens sobre voto nulo e abstenção são desinformativas

Por Bianca Bortolon, Ethel Rudnitzki, João Barbosa e Milena Mangabeira

12 de julho de 2022, 13h37

Mensagens desinformativas representam um terço das publicações que citam votos nulos e brancos e abstenções em 133 grupos de política no WhatsApp monitorados pelo Radar Aos Fatos. Das 405 postagens sobre o tema feitas entre 1º de janeiro e 27 de junho, 143 continham alegações falsas ou distorcidas (35%). Teorias da conspiração e dados inexistentes sobre eleições em outros países são os argumentos enganosos mais frequentes na amostra analisada.

As mensagens afirmam, por exemplo, que o montante de nulos, brancos e abstenções seriam votos válidos deliberadamente apagados pelas autoridades eleitorais, o que não se sustenta. "A nova modalidade de fraude nas eleições, além de fraudar urnas, é dizer que teve milhões de abstenção [sic]", afirma corrente que circulou em 16 grupos da amostra analisada pelo Radar. "Fizeram isso no Chile e domingo passado na Colômbia, eles apagaram milhões de votos e disseram que 18 milhões de pessoas não votaram", conclui.

Chile e Colômbia não aparecem por acaso: a onda de desinformação foi abastecida pelas vitórias eleitorais de candidatos de centro-esquerda nesses países. Mais da metade (51%) das correntes desinformativas encontradas exageram o índice de abstenções em pleitos estrangeiros.

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Como indica o gráfico acima, as mensagens enganosas tiveram pico em janeiro, na repercussão da eleição de Gabriel Boric à presidência chilena, e no fim de junho, com o triunfo de Gustavo Petro na Colômbia.

"​​No Chile, devido a abstenção eleitoral de mais de 50%, colocaram um drogado de extrema esquerdista [sic] no poder", diz uma mensagem que circulou 49 vezes em 31 grupos monitorados. Na verdade, o pleito teve 55% de comparecimento — a maior taxa de participação eleitoral em 30 anos. O voto não é obrigatório no país.

Na última semana de junho, logo após a vitória de Gustavo Petro na Colômbia, foram veiculadas no grupos 64 mensagens desinformativas de que nulos e abstenções seriam, na realidade, votos válidos “apagados” ou não contabilizados. Assim como no Chile, o sufrágio não é obrigatório, mas a participação eleitoral foi a maior desde 1998 — a abstenção ficou em 41%.

Mensagem falsa associa abstenções a fraude eleitoral em países latinoamericanos

As alegações falsas publicadas nos grupos monitorados, entretanto, não se restringiram à América Latina. "​​Macron ganhou novamente as eleições na França por uma estreita margem. 'Abstenção' do eleitorado de mais de 60%", afirmava mensagem enviada em abril. Ainda que o não comparecimento às urnas tenha sido um dos maiores da história do país, não passou de 28%.

Nulos e brancos. Cinquenta e uma mensagens desinformativas sobre supostas fraudes se referem especificamente sobre os votos nulos e brancos, que não são validados nas eleições, e circularam 88 vezes nos grupos monitorados pelo Radar. Em diferentes versões, elas todas embutem a suspeita de ameaça ao pleito brasileiro em outubro.

"Cuidado com os brasileiros que votam nulo ou em branco. O Brasil está em perigo de cair no roubo", dizia uma das mensagens, que começou a circular em abril deste ano. Em outra delas, é levantada a hipótese de que a conversão de votos válidos em nulos ou em ausências seja automatizada: “Estamos de olho! abstenções ou anulação de votos por meio de programa inserido com esse objetivo?”.

Mensagem falsa associa votos brancos e nulos a fraude eleitoral

Não há, entretanto, qualquer evidência dessas alegações. Como Aos Fatos já mostrou, o sistema atual de votação no Brasil funciona desde 1996 sem que tenham sido registradas irregularidades, e não é possível inserir programas nas urnas para alterar resultados.

Já o cálculo de abstenções é feito a partir do percentual de eleitores que não se apresentaram para votar, embora tenham direito, e não com base na supressão de votos válidos. Votos brancos e nulos, embora sejam inválidos, são registrados para fins estatísticos.

Quatro mensagens recuperaram antigas peças desinformativas sobre o assunto, como a de que urnas eletrônicas teriam anulado 7,2 milhões de votos nas eleições de 2018, que, na verdade, foram invalidados por escolha dos eleitores.

Biometria. A exigência do cadastro biométrico, suspensa pela Justiça Eleitoral devido à pandemia, também aparece com viés desinformativo nos grupos monitorados. Pelo menos 37 mensagens alegamm que o cancelamento de títulos de idosos e a exigência do cadastro das digitais para votar seriam uma “estratégia da esquerda e do TSE (Tribunal Superior Eleitoral)” para “manipular o número de abstenções”. Não será necessário cadastrar a biometria para comparecer à eleição de 2022.

Outras 15 correntes convocavam a participação dos eleitores no pleito, mas desinformaram ao aventar a possibilidade de fraude. Uma delas, compartilhada 25 vezes, listava ações para o engajamento dos eleitores. Entre frases de incentivo, como "não deixe de votar" e "verifique seu título de eleitor a tempo", a mensagem aconselhava: "Apoie iniciativas favoráveis ao voto impresso e a contagem pública total dos votos. Ajude-nos a combater a fraude."

METODOLOGIA
O Radar coletou mensagens que continham termos relacionados a "abstenção", "voto nulo" e "voto em branco" compartilhadas nos 220 grupos de discussão política monitorados no WhatsApp entre 1º de janeiro e 27 de junho de 2022. Depois, identificou quantas postagens difundiam desinformação sobre o assunto e quais eram suas alegações.

Referências:

1. Poder 360 (1, 2, 3)
2. G1
3. Aos Fatos (1, 2, 3, 4, 5)
4. TSE (1, 2, 3)

sobre o

Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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