Adriano Ishibashi / FramePhoto / Estadão Conteúdo

Negacionismo e teorias conspiratórias predominam nas críticas ao 'passaporte da vacina' em WhatsApp e Telegram

Por Cecília do Lago, Débora Ely e João Barbosa

17 de setembro de 2021, 17h38

Alegações que rejeitam as evidências de eficácia das vacinas contra a Covid-19 e teorias conspiratórias alimentam, em grupos de WhatsApp e Telegram, o discurso contra a exigência de comprovante de imunização para entrada em locais de uso coletivo, adotada nos últimos dias no Rio de Janeiro e em São Paulo.

O Radar Aos Fatos detectou que 113 das 228 mensagens (50%) contra o "passaporte da vacina" postadas entre 1º de agosto e quarta-feira (15) em 74 grupos de WhatsApp traziam defesa de drogas ineficazes contra Covid-19, conspiracionismo e falsidades sobre os imunizantes. Esses conteúdos foram republicados nos grupos 209 vezes nesse período.

Já em 64 grupos no Telegram, 47 das 142 postagens (33%) críticas à medida continham informações falsas sobre os efeitos das vacinas e favor do "tratamento precoce". Apesar da menor quantidade, essas mensagens foram reproduzidas nesses grupos 1.045 vezes no período analisado pelo Radar.

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Nos dois aplicativos, as alegações desinformativas mais frequentes contra a obrigatoriedade do certificado de vacinação são recorrentes ao longo da pandemia e já foram desmentidas pelo Aos Fatos e por outras iniciativas de checagem. A narrativa que predomina é a que busca descredibilizar as vacinas: 68 mensagens compartilhadas 86 vezes nos grupos de WhatsApp; 46 posts disseminados 962 vezes nos do Telegram.

A temática dominante foi a de que os imunizantes são “experimentais”, o que é falso. As quatro vacinas usadas no Brasil têm comprovação científica e foram submetidas a três fases de testes, incluindo estudos clínicos em humanos. Além disso, os dados de eficácia e segurança foram validados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Passaporte-WhatsApp

Em seguida, destaca-se uma série de peças desinformativas que afirma que os imunizantes provocam efeitos colaterais irreversíveis, e até a morte, ou que são inúteis para controlar a pandemia. Uma das mensagens analisadas sustenta, por exemplo, que as pessoas estão sendo “mortalmente atingidas pelos efeitos colaterais da vachina”.

Também há postagens que alegam que as vacinas são “picadas da morte” e que “colocam a vida das pessoas em risco”. Na realidade, a imunização é a única forma segura e eficaz de criar imunidade contra o novo coronavírus e controlar a pandemia, pois torna mais difícil o surgimento de sintomas e de formas graves da Covid-19, reduzindo o risco de morte.

Passaporte-Telegram

Parte das mensagens desses grupos analisadas pelo Radar dissemina, ainda, teorias da conspiração ligadas ao movimento de extrema-direita QAnon ou de cunho religioso. Elas dizem, por exemplo, que as vacinas são um passo para a instalação de uma “nova ordem mundial” ou que representam a “marca da besta” e a chegada do “anticristo”.

Houve também publicações que desinformaram ao declarar que as substâncias causam mudanças no DNA humano e infertilidade ou que contêm um microchip de sinal 5G. Também são narrativas falsas já checadas pelo Aos Fatos (aqui, aqui e aqui).

TRATAMENTO PRECOCE

Mais frequente no WhatsApp, a defesa do uso de medicamentos provados ineficazes contra a Covid-19 também é recorrente entre as mensagens críticas ao "passaporte da vacina". O Radar identificou diferentes versões de um texto que pedia a manifestantes que levassem cartazes “em prol do tratamento precoce” e “contra o passaporte sanitário” nos atos pró-governo de 7 de Setembro: 123 compartilhamentos no WhatsApp e 83 no Telegram.

Não existe “tratamento precoce” contra a Covid-19. Nenhum estudo científico sólido comprovou que o kit (composto pelos medicamentos hidroxicloroquina, azitromicina, ivermectina e vitamina D, entre outros) cure ou previna a infecção pelo novo coronavírus.

FACEBOOK E TWITTER

Postagens que recorrem a desinformação contra a apresentação obrigatória do certificado de imunização em locais de uso coletivo também foram mapeadas pelo Radar no Facebook e no Twitter. Ao menos 41 e 15 posts nessas plataformas, respectivamente, reproduzem a imagem de uma suástica formada por quatro seringas e um texto que nega que as vacinas previnem infecções, transmissão e morte e que conclui que “o passaporte sanitário não é sobre saúde, é sobre controle”.

Passaporte-FB

METODOLOGIA

Nesta análise, o Radar Aos Fatos coletou mensagens que continham o termo “passaporte sanitário” nos 186 grupos de discussão política no WhatsApp monitorados pela ferramenta (leia aqui sobre a metodologia) e em 81 grupos públicos no Telegram acompanhados pela equipe do Radar. Após a coleta, as publicações foram classificadas de acordo com postura em relação à medida sanitária e com a presença de desinformação.

Referências:

1. G1 (1 e 2)
2. Aos Fatos (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8)

sobre o

Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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