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Cinco gráficos para entender a desinformação sobre Covid-19 no Brasil em 2021

Por Débora Ely e João Barbosa

28 de dezembro de 2021, 13h17

Ataques à CPI da Covid-19 e a defesa de medicamentos sem eficácia contra a doença predominaram na desinformação surgida sobre a pandemia em 2021, de acordo com dados captados pelo monitoramento do Radar Aos Fatos ao longo deste ano. De janeiro a dezembro, esses dois temas foram os mais recorrentes entre os conteúdos de baixa qualidade a respeito do novo coronavírus detectados pelo sistema.

Ao todo, o monitoramento coletou 620.545 publicações potencialmente enganosas relacionadas à pandemia entre 1º de janeiro e 26 de dezembro. Desse total, 126.779 continham termos vinculados à CPI (20%) e 122.368 mencionaram drogas que não funcionam para conter ou prevenir a infecção, o dito “tratamento precoce” (20%).

Entre os demais assuntos mapeados pela ferramenta, destacaram-se mensagens xenofóbicas direcionadas à China (12%), teorias conspiratórias sobre a pandemia (10%) — como a de que o vírus seria uma arma biológica criada para reduzir a população mundial —, publicações sobre vacinas (10%) e ataques a políticos (10%).

O gráfico abaixo mostra o volume de conteúdos detectados pelo Radar nos assuntos mais frequentes vinculados ao coronavírus. Cada postagem pode ter sido classificada em mais de uma categoria.

Lançado em agosto de 2020, o monitoramento do Radar Aos Fatos detecta automaticamente postagens de baixa qualidade — como, por exemplo, que contenham expressões sensacionalistas e termos ligados a campanhas enganosas — em cinco redes sociais (Facebook, Instagram, Twitter, WhatsApp e YouTube) e na web.

O volume de conteúdos de baixa qualidade coletados e classificados varia de acordo com a disponibilidade de dados em cada plataforma. Em 2021, o Twitter teve o maior número de mensagens sobre Covid-19 coletadas (526.058), seguido de WhatsApp (34.581), Facebook (20.553), YouTube (14.856), textos em sites (13.779) e Instagram (10.718).

Nem todo o conteúdo coletado pelo sistema é necessariamente falso, mas reúne características e padrões de linguagem que costumam ser indicativos de desinformação. Além de coronavírus, o algoritmo também monitora atualmente os temas democracia e Judiciário. Entenda aqui a metodologia.

DESINFORMAÇÃO SEGUE CALENDÁRIO POLÍTICO

Os dados mapeados pelo Radar neste ano sinalizam que o ritmo de desinformação nas redes acompanhou o calendário político do país. Postagens de baixa qualidade sobre a CPI da Covid-19 e as vacinas, por exemplo, tiveram picos nas plataformas monitoradas em períodos marcados por eventos simbólicos.

Instalada em abril no Senado, a CPI registrou ápice de conteúdos potencialmente enganosos em junho, como mostra o gráfico abaixo. O mês coincide com as suspeitas de irregularidades em torno da compra da vacina Covaxin e com depoimentos de aliados do governo federal à comissão, como a médica Nise Yamaguchi e o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) — que mobilizaram a base bolsonarista nas redes sociais.

Um exemplo está na mensagem exibida a seguir, colhida pelo Radar em grupos de discussão política no WhatsApp. Em resposta às críticas do senador Otto Alencar (PSD-BA) a defensores de medicamentos sem comprovação científica contra a Covid-19 na comissão, a postagem afirmava que a hidroxicloroquina e a ivermectina são eficazes para prevenir a doença, o que é falso.

Já publicações potencialmente desinformativas sobre os imunizantes tiveram dois picos, no início e no final do ano. Em janeiro, no início da vacinação no Brasil, imperaram mensagens de baixa qualidade que lançavam desconfiança sobre a CoronaVac, imunizante do Instituto Butantan que foi mais aplicado nos primeiros meses da campanha.

Em dezembro, o volume de conteúdos de baixa qualidade foi intensificado pela postura contrária do presidente Jair Bolsonaro (PL) à liberação das doses da Pfizer para crianças de cinco a 11 anos pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Um tweet coletado pela ferramenta em janeiro, por exemplo, alega falsamente que as “vachinas” — expressão usada por bolsonaristas para se referirem à CoronaVac — “não funcionam”. Na realidade, o imunizante tem taxa de eficácia global de 50,38%, índice que representa a capacidade de proteção da vacina contra todas as ocorrências da Covid-19, de extremamente leve à grave.

CLOROQUINA FOI A DROGA MAIS CITADA

No caso das postagens sobre drogas sem eficácia comprovada, o pico coincidiu com um dos momentos mais agudos da crise sanitária, em março, quando o país registrava recordes de óbitos por Covid-19.

Naquele momento, Bolsonaro e seus aliados foram os principais disseminadores de desinformação sobre o chamado “tratamento precoce”, como identificou na época o Radar.

Entre os conteúdos sobre medicamentos ineficazes ou sem comprovação científica contra a Covid-19 captados pelo monitoramento, a cloroquina e a hidroxicloroquina foram as drogas que mais movimentaram as redes sociais. Promovidas pelo bolsonarismo ao longo de toda a pandemia, elas apareceram em 58.805 postagens de baixa qualidade em 2021.

Em seguida, os remédios identificados com mais frequência nas mensagens desinformativas foram ivermectina (27.419), azitromicina (4.213) e zinco (1.920). Além das menções a drogas específicas, também foi encontrada uma quantidade significativa de referências a expressões genéricas como “tratamento precoce” e “kit covid”, presentes em 41.522 conteúdos potencialmente enganosos.

Referências:

1. Aos Fatos (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11 e 12)
2. Senado
3. G1
4. UOL
5. Folha de S.Paulo

sobre o

Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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