Impulsionados pela imprensa, médicos que desinformam sobre Covid-19 somam 30 mi de visualizações no YouTube

Por Bernardo Barbosa, Bruno Fávero, Débora Ely e João Barbosa

26 de fevereiro de 2021, 11h00

Vídeos em que médicos brasileiros reproduzem desinformação sobre a Covid-19 —como ao defender drogas sem eficácia comprovada para a doença ou alertar contra o uso de máscaras— tiveram ao menos 30,8 milhões de visualizações no YouTube desde janeiro do ano passado, mostra levantamento do Radar Aos Fatos.

Apesar de alguns desses profissionais terem canais próprios na plataforma, mais da metade dessa audiência —16 milhões de visualizações ou 52% do total— veio de entrevistas publicadas no site por veículos da grande imprensa, como a rádio Jovem Pan, a TV Record, a CNN Brasil, entre outros.

Para chegar a esses números, a reportagem fez uma busca na rede social por vídeos que continham termos relacionados à pandemia e avaliou aqueles que somavam pelo menos 100 mil visualizações. Encontrou 82 vídeos nos quais 27 médicos diferentes disseminam algum tipo de informação falsa ou insustentável sobre o novo coronavírus.

Entre os profissionais, aparecem com destaque nomes que se notabilizaram por defender o uso de drogas sem eficácia comprovada por pacientes com Covid-19, como o toxicologista Anthony Wong, morto no início deste ano, a oncologista Nise Yamaguchi e a médica Lucy Kerr.

Não por acaso, o chamado "tratamento precoce", tema presente em 80% dos vídeos, é o assunto mais recorrente no universo analisado. Os remédios mais citados são a hidroxicloroquina e a cloroquina (promovidas em 48 vídeos) e a ivermectina (mencionada em 36). Também aparecem o zinco, o vermífugo nitazoxanida e a vitamina D.

Como o Aos Fatos já mostrou, os estudos mais confiáveis já feitos apontaram que a hidroxicloroquina não tem efeito contra o novo coronavírus. Tampouco há comprovação de que as outras drogas citadas por esses médicos funcionem contra a doença.

Nesta semana, a amplificação de desinformação sobre Covid-19 pela imprensa entrou em debate depois que ao menos oito jornais brasileiros veicularam um anúncio, pago por uma associação de médicos, com um manifesto a favor do “tratamento precoce”. Uma checagem publicada pelo Aos Fatos mostrou que as pesquisas usadas para embasar o material têm problemas metodológicos.

DIFUSÃO

Os vídeos com desinformação promovida por médicos que a reportagem encontrou foram publicados em 35 canais de YouTube, dos quais 12 pertencem a veículos de imprensa. Desses, seis são de emissoras de TV, quatro de rádios e dois de jornais.

A rádio Jovem Pan foi o veículo que mais teve audiência nesse recorte — foram 14 vídeos publicados em quatro dos seus canais (Os Pingos nos Is, Pânico Jovem Pan, Morning Show e Jovem Pan News), que somaram 9,6 milhões de visualizações.

Em seguida, aparecem entre os veículos de imprensa os canais da TV Record (um vídeo com 2,1 milhões de visualizações), da CNN Brasil (cinco vídeos que somam 1,1 milhão de views) e do jornal O Tempo (um vídeo visto 1,1 milhão de vezes).

Com exceção de um vídeo publicado pelo jornal Gazeta do Povo, todas as publicações desses veículos no YouTube são reproduções de entrevistas transmitidas em rádios ou TVs das mesmas empresas. Ou seja, é provável que o alcance de público dos conteúdos tenha sido muito maior do que mostram os dados da rede social.

Além dos veículos, também tiveram presença relevante no levantamento canais dos jornalistas Leda Nagle (2,8 milhões de visualizações em 15 vídeos) e Fernando Beteti (2,1 milhões em seis vídeos) e o canal Viver Bem (1,6 milhão em dois vídeos).

ESPECIALISTAS

Entre os médicos, o pediatra e toxicologista Anthony Wong, morto por uma parada cardiorrespiratória em janeiro, é quem soma a maior audiência nas aparições encontradas em que reproduz alguma desinformação. Os sete vídeos de entrevistas concedidas por ele ultrapassam 5,6 milhões de visualizações.

Em um dos mais populares —de uma entrevista em 4 de janeiro no programa Direto ao Ponto, da Jovem Pan—, Wong defende o uso da hidroxicloroquina para Covid-19. O vídeo foi visto 2,3 milhões de vezes no YouTube.

“Desde o Sars, Mers e até Zika, a hidroxicloroquina funcionou. O segredo de qualquer doença é o tratamento precoce (...). Os lugares que usaram hidroxicloroquina e azitromicina precocemente [tiveram] mortalidade 50% a 80% menor”, disse Wong. Esses medicamentos, como o Aos Fatos mostrou aqui, aqui e aqui, não têm eficácia comprovada contra a doença.

Médica que aparece com mais frequência nos vídeos analisados, Nise Yamaguchi está logo atrás de Wong no número de visualizações. Ao todo, foram 18 participações da imunologista e oncologista em programas e lives assistidas mais de 5,2 milhões de vezes no YouTube.

O vídeo mais popular em que ela aparece, com 1,2 milhão de visualizações, é uma entrevista ao Os Pingos nos Is, da Jovem Pan, em 27 de outubro de 2020. Nela, a oncologista diz, contrariando as evidências científicas, que o tratamento precoce causou “diminuição importante nas hospitalizações” e que “se somaram evidências” da eficácia da hidroxicloroquina.

“Existiam dúvidas em relação aos benefícios, e essas dúvidas foram diminuindo. Então, hoje, nós temos tratamento”, comenta a imunologista. Ela ainda questiona a velocidade dos testes das vacinas e especula que lockdowns aumentem a contaminação.

Afastada em julho do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, por comparar o pânico causado pela pandemia ao holocausto, Yamaguchi chegou a ser cotada para assumir o Ministério da Saúde em maio, após a saída do também oncologista Nelson Teich.

Outra médica popular nos vídeos verificados é a especialista na área de ultrassonografia Lucy Kerr, que promove a ivermectina para profilaxia e tratamento da Covid-19. Nas seis publicações em que aparece, o alcance superou 3,1 milhões de visualizações.

Em seu vídeo mais visto —uma entrevista ao programa Alerta Super, da rádio Super Notícia, de Minas Gerais, publicado no canal do jornal O Tempo—, Kerr assegura a eficácia do antiparasitário contra o coronavírus. “Ela [ivermectina] já tem um histórico de ser uma potentíssima droga antiviral. Ela atua impedindo a entrada do vírus no núcleo da célula”, diz a médica.

Embora a droga tenha demonstrado inibir a replicação do Sars-CoV-2 em ambiente laboratorial, não há evidências que comprovem sua atuação no organismo humano para prevenir ou tratar a doença. Além disso, a Sociedade Brasileira de Infectologia se manifestou contrária ao uso de ivermectina, e a farmacêutica Merck, responsável por sua fabricação, afirmou que não há base científica que aponte benefícios do antiparasitário contra a Covid-19.

Por fim, Roberto Zeballos, imunologista do Hospital Sírio-Libanês, e Lair Ribeiro, médico que ficou famoso na década de 1990 por seus livros de autoajuda, completam o topo da lista dos médicos com mais visualizações neste levantamento.

Zeballos, que está em quatro vídeos visualizados no total mais de 2,7 milhões de vezes, defendeu, em todos eles, a administração de cloroquina em pacientes com coronavírus.

Não é a primeira vez que seu nome aparece associado a desinformação sobre a pandemia. Em maio do ano passado, circulou no WhatsApp um áudio de sua autoria especulando que o coronavírus teria vindo “de um laboratório ao lado de Wuhan”, na China. Dois meses antes, um estudo da revista científica Nature Medicine já havia descartado a hipótese de que coronavírus tenha sido desenvolvido em laboratório. Na época, Zeballos disse ao Projeto Comprova que a mensagem se tratava de “opinião pessoal”.

Já Lair Ribeiro, que aparece em seis vídeos que somam 1,8 milhões de visualizações, defende o uso de uma série de medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19, como a hidroxicloroquina, o ozônio e a vitamina D.

OUTRO LADO

O Aos Fatos tentou entrar em contato com todos os médicos e veículos citados na reportagem.

Lucy Kerr disse que os vídeos listados pela reportagem “apenas levam a verdade comprovada nos fatos e pelos estudos científicos já muito bem divulgados que dão respaldo científico à ivermectina como antiviral e, especificamente, para profilaxia, tratamento em todos os estágios e para as sequelas do Covid-19”.

A médica enviou ainda parte de um trabalho que produziu no qual cita uma série de estudos não revisados por pares que, segundo ela, mostram a eficácia da ivermectina contra a Covid-19. Kerr menciona também um estudo, citado acima nesta reportagem, segundo o qual a ivermectina inibiu a replicação do coronavírus em ambiente laboratorial.

O CFM (Conselho Federal de Medicina) respondeu que emitiu um parecer em abril de 2020 “no qual delibera que é decisão do médico assistente realizar o tratamento que julgar adequado, desde que com a concordância do paciente portador de covid-19, esclarecendo que não existe benefício comprovado no tratamento farmacológico dessa doença e obtendo o consentimento livre e esclarecido.” O órgão afirmou ainda que o parecer “não apoia ou condena o tratamento precoce ou qualquer outro tratamento farmacológico ou protocolos clínicos de sociedades de especialidades ou do Ministério da Saúde”.

Segundo o conselho, “a autonomia do médico e do paciente são garantias constitucionais, invioláveis, que não podem ser desrespeitadas no caso de doença sem tratamento farmacológico reconhecido, como é o caso da Covid-19, tendo respaldo na Declaração Universal dos Direitos do Homem, além do reconhecimento pelas competências legais do CFM que permite o uso de medicações off label.” O uso “off label” de um remédio ocorre quando ele é receitado para uma finalidade diferente da prevista na bula.

A entidade disse também que “não se pronuncia sobre casos concretos, pois se trata de instância de fiscalização e julgamento em grau recursal”, e que “se alguma pessoa tiver queixas contra um médico, pode procurar o Conselho Regional de Medicina (CRM) do estado onde houve a situação.” Cabe ao CRM abrir um “processo ético-profissional” para apurar fatos e confirmar possíveis irregularidades. Eventuais punições vão da advertência confidencial até a cassação do CRM, o registro que permite ao médico exercer a profissão.

O YouTube declarou ter “políticas claras sobre o tipo de conteúdo que pode estar na plataforma e não permite vídeos que promovam desinformação sobre a Covid-19.” O site mantém uma política específica para informações médicas incorretas sobre a doença. A empresa afirmou ter analisado e removido manualmente, desde fevereiro de 2020, mais de 800 mil vídeos relacionados a “afirmações perigosas ou enganosas” sobre o coronavírus.

Ainda de acordo com o YouTube, “qualquer usuário que acredite ter encontrado um conteúdo no YouTube em desacordo com as diretrizes da nossa comunidade pode fazer uma denúncia e nossa equipe fará a análise do material.”

A plataforma também colocou links para o site do Ministério da Saúde em sua página inicial e em resultados de busca relacionados ao coronavírus, além de destacar “conteúdo de fontes oficiais e de jornalismo profissional” sobre Covid-19 e promover campanhas junto aos criadores de conteúdo para a veiculação de vídeos sobre a pandemia.

O chefe de redação da Gazeta do Povo, Ewandro Schenkel, afirmou que o jornal preza pela liberdade de expressão e procura “ouvir o máximo de opiniões” sobre assuntos de sua cobertura, e que a responsabilidade pelas declarações é dos entrevistados.

“Ressalto que em nossa conta no YouTube já promovemos um debate sobre tratamento precoce com diversos médicos, entre eles o presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia. Acreditamos que quanto mais informação o leitor tiver mais apto ele estará para tomar suas decisões”, escreveu por e-mail.

A jornalista Leda Nagle afirmou que os entrevistados dos vídeos listados pelo Radar Aos Fatos são “profissionais médicos em pleno exercício das suas profissões e especialidades com CRM [registro no Conselho Regional de Medicina] em dia e válido, portanto responsáveis pelo que dizem e/ou pensam”.

O jornalista Fernando Beteti afirmou por e-mail que “cada médico convidado teve total liberdade de expor suas experiências práticas no tratamento da Covid-19 e de informar estudos científicos relacionados ao tema abordado. Cabe ao público final formar sua opinião, baseada na entrevista divulgada por profissionais médicos atuantes e que têm o pleno direito de exercer e de aplicar a melhor conduta para o tratamento de seu paciente”.

O Aos Fatos enviou e-mails para os médicos Nise Yamaguchi, Roberto Zeballos e Lair Ribeiro, mas não teve resposta até a publicação deste texto. A reportagem também procurou Band, Record TV, RedeTV, CNN Brasil, Jovem Pan, O Tempo e o canal Viva Bem, mas não recebeu resposta.

Referências:
1. Aos Fatos (1, 2, 3, 4, 5)
2. CNN Brasil
3. UOL
4. Science Direct
5. Sociedade Brasileira de Infectologia
6. Nature Medicine
7. Projeto Comprova
8. Conselho Federal de Medicina
9. ANS
10. YouTube (1, 2, 3)

sobre o

Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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