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Estudo da USP não comprova que hidroxicloroquina e azitromicina funcionam contra Covid-19

Por Marco Faustino

8 de fevereiro de 2021, 18h39

Não é verdade que um estudo de pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (Universidade de São Paulo) comprovou que a hidroxicloroquina e a azitromicina são eficazes contra a Covid-19, como alegam publicações nas redes sociais (veja aqui). Por mais que essas duas drogas e a heparina tenham sido dadas aos pacientes, o objetivo do estudo era estudar o uso complementar da colchicina, e efeitos benéficos só foram encontrados entre os que também tomaram este medicamento, um anti-inflamatório usado no tratamento de gota. Foram observadas no grupo reduções no tempo de internação e no uso de oxigenoterapia.

O conteúdo amplificado nas redes sociais é do site Mídia Sem Máscara, que reproduziu um texto escrito pelo cineasta Filipe Rafaeli com informações enganosas. No Facebook, a peça desinformativa reunia ao menos 1.900 compartilhamentos nesta segunda-feira (8) e foi marcada com o selo FALSO na ferramenta de verificação (saiba como funciona).


COVID-19: estudo da USP comprova eficácia da hidroxicloroquina e da azitromicina

Um estudo de pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) não comprovou que a hidroxicloroquina e a azitromicina são eficazes contra a Covid-19. As duas drogas foram ministradas aos pacientes analisados na pesquisa, bem como a heparina, um anticoagulante, e a colchicina, anti-inflamatório usado contra gota. Porém, somente o grupo que tomou esta última substância apresentou efeitos benéficos, como redução do tempo de internação e de oxigenoterapia.

Assim, o estudo da USP “Beneficial effects of colchicine for moderate to severe COVID-19: a randomised, double-blinded, placebocontrolled clinical trial” ("Efeitos benéficos da colchicina para casos moderados a graves de COVID-19: um estudo clínico duplo-cego, randomizado e controlado por placebo") publicado em inglês no periódico científico RMD Open já deixa claro no título que busca avaliar os efeitos benéficos do uso complementar da colchicina.

A pesquisa concluiu apenas que a colchicina poderia ser benéfica se adicionada a um esquema terapêutico para pacientes internados com Covid-19, e que seu uso em conjunto com a azitromicina, a cloroquina e a heparina foi seguro. Não é dito que os demais medicamentos testados sejam eficazes.

A pesquisa realizada na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP considerou 72 pacientes, que foram divididos em dois grupos com 36 participantes cada. Em comum, os dois conjuntos tomaram hidroxicloroquina, azitromicina e heparina. Porém, em um deles os médicos inseriram ainda a colchicina. Foi somente neste grupo que se observaram benefícios no quadro clínico.

Na conclusão, os pesquisadores recomendaram que ensaios clínicos com um número maior de pacientes sejam realizados para avaliar melhor a eficácia e a segurança da colchicina como terapia adjuvante para pacientes hospitalizados com a doença.

“Não se pode afirmar que alguma delas [drogas], isoladamente ou em associação, inclusive a cloroquina, possa ser responsável pelos benefícios de redução do tempo de internação e de uso de oxigênio (benefícios encontrados no grupo que recebeu colchicina)”, disse o professor Paulo Louzada, um dos autores do estudo, ao Aos Fatos por e-mail.

Sem eficácia. Conforme já checado pelo Aos Fatos, uma série de outros estudos, conduzidos por diferentes grupos e revisados por pares, concluíram que a cloroquina e a hidroxicloroquina não são eficazes para tratar a Covid-19. Em novembro, por exemplo, um ensaio clínico do NHI (National Institutes of Health ou Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos) concluiu que a hidroxicloroquina não havia trazido nenhum benefício clínico aos hospitalizados.

Hoje, o uso da hidroxicloroquina e da cloroquina contra a Covid-19 não é recomendado pela IDSA (Infectious Diseases Society of America ou Sociedade de Doenças Infecciosas dos EUA) nem pela SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia). No Brasil, tanto a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) quanto o CNS (Conselho Nacional de Saúde) desaconselham o uso.

A azitromicina é um antibiótico e, portanto, atua contra bactérias, não contra vírus, como é o caso do Sars-CoV-2. No entanto, conforme também checado pelo Aos Fatos, ela tem sido usada em pacientes com Covid-19 que também desenvolvem infecções bacterianas.

Outro lado. Procurado pelo Aos Fatos, o cineasta Filipe Rafaeli disse que não teve qualquer contato com o representante do site Mídia sem máscara, e que teve seu texto, escrito em uma outra plataforma, copiado sem sua autorização. Segundo Filipe, o título original do artigo era: “COVID-19: estudo da USP comprova cientificamente a Hidroxicloroquina, Azitromicina e Colchicina", o que é igualmente enganoso.

Referências:

1. BMJ/RMD Open
2. Aos Fatos (Fontes 1 e 2)
3. JAMA
4. NHI
5. IDSA
6. SBI
7. Anvisa
8. CNS


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