Márcio Pinheiro/SESA

Sites que embasam manifesto por 'tratamento precoce' adotam metodologias duvidosas

Por Marco Faustino e Priscila Pacheco

23 de fevereiro de 2021, 20h45

Plataformas citadas como referência no manifesto pelo "tratamento precoce" assinado por médicos e publicado como informe publicitário em ao menos oito jornais do país nesta terça-feira (23) apresentam problemas metodológicos que põem em xeque a credibilidade das informações fornecidas.

Os sites c19study, ivmmeta, hcqmeta, c19ivermectin e c19legacy compilam estudos sobre medicamentos que alegadamente teriam efeito contra a Covid-19, como a hidroxicloroquina e a ivermectina. Mas, sem métodos claros, análises fundamentadas aparecem em meio a outras sem o mesmo rigor, como pesquisas preliminares ou que não foram revisadas por outros cientistas.

Há casos ainda de pesquisas que tiveram seus resultados totalmente alterados, ou seja, que concluíram que medicamentos não funcionam para tratar a infecção, mas que, nas plataformas, aparecem com um resultado distorcido em favor do uso das mesmas drogas. Segundo especialistas que analisaram o conteúdo das páginas a pedido do Aos Fatos, falta ainda maior critério na seleção do material compilado pelos sites.

Abaixo, detalhamos alguns dos problemas das fontes do manifesto.

Metanálises enviesadas

Cinco dos seis sites listados como “bases de dados confiáveis” no “Manifesto pela Vida” (c19study, ivmmeta, hcqmeta, c19ivermectin e c19legacy) afirmam fazer metanálises (sínteses de resultados de pesquisas científicas) de medicamentos como a hidroxicloroquina e a ivermectina. Aos Fatos identificou situações em que conclusões de pesquisas robustas foram distorcidas em benefício do uso de remédios que não se provaram eficazes, como a hidroxicloroquina.

É o caso da c19study, que costuma questionar os dados utilizados pelos autores das pesquisas e considera apenas os resultados que são mais favoráveis à hidroxicloroquina. Um estudo publicado no Clinical Infectious Diseases que não encontrou benefícios no uso da droga em casos leves nem na redução da carga viral ou do risco de hospitalização aparece no site como se as internações tivessem sido reduzidas em 25%. Como justificativa para a distorção, a plataforma alega que houve inconsistência de dados.

Já um estudo publicado no New England Journal of Medicine que concluiu que a hidroxicloroquina não preveniu o adoecimento ao ser ministrada até quatro dias após a exposição ao vírus aparece no c19study como se tivesse ocorrido uma redução de até 49% no número de casos. Para sustentar isso, a página alega que seis outros estudos independentes teriam confirmado a eficácia do medicamento.

O site ivmmeta, dedicado à ivermectina, por sua vez, inclui numa mesma metanálise tipos de estudos que não são comparáveis e que aplicaram a droga em dosagens e grupos de controle diferentes, o que não pode ser considerado "cientificamente sólido", como escreveu o médico Joshua Davis, bolsista de revisão de pesquisa da rede Doximity, em artigo publicado no dia 2 de fevereiro.

Similaridades. Um ponto em comum entre as cinco iniciativas de metanálise é que a hierarquia natural entre diferentes tipos de pesquisa, em que estudos duplo-cego multicêntricos randomizados têm mais peso que os observacionais ou relatos de casos, é ignorada. O mesmo peso é conferido a todos os tipos de trabalhos, não importando as suas características.

Assim, são incluídos todos os estudos sobre as drogas, inclusive preprints de qualidade duvidosa ou mesmo muito baixa, segundo os especialistas consultados pelo Aos Fatos. “Eles pegam tudo que aparece sobre um assunto, como a hidroxicloroquina, e não fazem uma análise se a metodologia é adequada, se o nível de evidência é adequado, se a análise e condução foi adequada”, disse Mellanie Fontes-Dutra, biomédica e pesquisadora da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

O critério para seleção dos artigos também é frouxo, quando a produção de uma metanálise exige critérios mínimos de qualidade e organização, como alerta o microbiologista Luiz Gustavo de Almeida, da USP (Universidade de São Paulo) e colaborador do IQC (Instituto Questão de Ciência). Ele cita como exemplo a inclusão de uma carta aos editores do periódico “New Microbes and New Infections” em uma metanálise sobre a hidroxicloroquina.

O texto afirmava que a droga teria sido eficaz na profilaxia de profissionais de saúde do Instituto Cardíaco da Bulgária, mas também ressalta que não há qualquer estudo que embase essa conclusão, apenas uma "experiência".

Os cinco sites também têm autores anônimos e não apresentam claramente as metodologias que usam para gerar os materiais. Há, no máximo, descrições superficiais de métodos e que não contemplam os diferentes aspectos das análises ali publicadas.

Estimativas. Existe ainda um problema nesses sites com o cálculo do “p-valor”, que é uma estimativa da chance de o resultado obtido por um estudo ser fruto do acaso. Um p-valor baixo significa que o resultado é provavelmente relevante. Segundo Leandro Tessler, do departamento de Física da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), há técnicas para se calcular o “p-valor”, mas isso não é feito pelos sites dessa rede.

“Valores abaixo de 0.05 são geralmente considerados aceitáveis. 0.01 é muito bom. O site c19study apresenta o improvável valor de 0,000000000000002, ou 2x10 -15 , valor inconsistente com a heterogeneidade dos estudos”, explicou.

Em uma checagem anterior do Aos Fatos, Márcio Bittencourt, cardiologista da USP (Universidade de São Paulo) e colaborador do IQC, já havia apontado falhas dessas plataformas ao reunir dados de diferentes países por ignorar as particularidades de cada região, como a idade média da população. Países com população mais jovem, por exemplo, tendem a ter menos mortes do que nações com mais idosos, o que pode interferir na análise de mortalidade de um determinado medicamento.

Estudo sem resultados

Além das páginas de metanálises, é citado no manifesto dos médicos pelo "tratamento precoce" um site britânico chamado COPCOV, que propunha um ensaio clínico financiado pela Universidade de Oxford com 40 mil pacientes para avaliar a eficácia da hidroxicloroquina para prevenir uma infecção pela Covid-19. O ensaio foi registrado em março de 2020, mas até hoje nenhum resultado foi divulgado.

A previsão era de encerramento em abril deste ano, mas, até o momento, foram recrutados apenas 226 voluntários e o processo de seleção foi interrompido no Reino Unido sem justificativas aparentes. No próprio site da pesquisa consta ainda que dois grandes ensaios clínicos concluíram que a hidroxicloroquina não proporciona benefícios a pacientes hospitalizados.

O Aos Fatos tentou entrar em contato com a Associação de Médicos pela Vida, instituição responsável pelo manifesto publicado nos jornais, mas as ligações não foram atendidas e não houve resposta por email. Além disso, o site está fora do ar.

Referências:

1. Aos Fatos
2. Clinical Infectious Diseases
3. New England Journal of Medicine
4. New Microbes and New Infections
5. Doximity
6. Unicamp
7. Clinical Trials

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