Reprodução TikTok

Impulsionados por bolsonaristas, vídeos com ataques às urnas passam de 5 milhões de visualizações no TikTok

Por Débora Ely, Ethel Rudnitzki e João Barbosa

9 de junho de 2022, 12h26

Impulsionados por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL), vídeos desinformativos sobre as urnas eletrônicas ou com ataques ao sistema eleitoral reúnem mais de 5,3 milhões de visualizações no TikTok. O volume representa 33% da audiência dos conteúdos mais populares a respeito dos temas na plataforma, segundo amostra analisada pelo Radar Aos Fatos.

Para chegar a esses dados, o Radar fez uma busca no aplicativo por postagens que citam quatro hashtags relacionadas aos equipamentos (#urnaeletrônica, #urnaeletronica, #urnaseletrônicas e #urnaseletronicas) e analisou aquelas que tinham ao menos mil visualizações e foram publicadas a partir de 1º de janeiro do ano passado. Foram identificados, então, 76 vídeos com ataques e falsidades sobre o processo eleitoral.

A maioria dos conteúdos (47 gravações assistidas quase 4,7 milhões de vezes) questiona a credibilidade dos equipamentos de votação ou faz investidas contra o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e seus ministros. Com alcance menor, outras 29 publicações, que somam 706 mil visualizações, apresentam alegações enganosas já desmentidas por Aos Fatos e outras iniciativas de checagem a respeito do sistema eletrônico.

O TikTok está entre as plataformas que firmaram parceria com o TSE para o combate à desinformação eleitoral no Brasil em 2022. Nas diretrizes da comunidade, o aplicativo afirma que não permite "conteúdos que enganem os membros da comunidade sobre eleições ou outros processos cívicos" e que remove vídeos que causem "prejuízo à confiança do público em instituições e processos cívicos, como governos, eleições e órgãos científicos".

Procurada pela reportagem, a empresa disse que “proíbe desinformação eleitoral e trabalha com organizações independentes de verificação de fatos que ajudam a avaliar o conteúdo para que as violações de suas diretrizes da comunidade possam ser removidas assim que identificadas”.

TIKTOKERS BOLSONARISTAS

Os conteúdos que contêm ataques ao processo eleitoral foram disparados por 54 perfis no TikTok. Destes, 50 são alinhados ao bolsonarismo: compartilham regularmente vídeos em apoio ao presidente ou incluem termos ligados à militância em suas biografias, como “conservador” e “patriota”.

Esses usuários disseminaram 72 gravações contra o sistema de votação, que reúnem 5,1 milhões de visualizações. Grande parte (47 contas) mantém o TikTok como principal rede social, acumulando seguidores que chegam a 356 mil. Em outras plataformas, como Facebook, Instagram, Twitter e YouTube, a presença desses atores é pouco significativa.

O tiktoker Tiago Gama, responsável pela maior audiência da amostra investigada, ilustra esse comportamento. Sem contas populares nas redes sociais concorrentes, ele tem 188,1 mil seguidores no TikTok e exibe em seu perfil um versículo bíblico frequentemente mencionado pelo presidente — “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.

Há mais de um ano, Gama leva conteúdos relacionados à política para o TikTok. Um deles, de maio de 2021, viralizou na plataforma, alcançando 2,7 milhões de visualizações. Trata-se de uma apresentação antiga do humorista Danilo Gentili, então apoiador de Bolsonaro, na qual ele afirma não ser possível confiar nas urnas eletrônicas. “Vocês não desconfiam que tem alguma coisa errada?”, emenda Gentili.

Característica semelhante apresenta o perfil que arrecadou a segunda audiência mais expressiva na análise do Radar, uma página apócrifa que se identifica como gatonauta2022. Esse usuário conta com 18 mil seguidores no TikTok, número bastante superior aos 3 mil inscritos no YouTube, segunda rede social em que é mais popular.

O gatonauta2022 disseminou quatro vídeos que lançam dúvidas sobre o sistema de votação, assistidos 690 mil vezes no TikTok. Um exemplo está na reprodução de um trecho de uma live em que Bolsonaro disse que a contagem dos votos acontece em uma "sala secreta" do TSE, o que é falso — a gravação teve 3 mil visualizações na plataforma.

Em seguida, o terceiro colocado em número de visualizações foi Odair Souza, outra conta influente no TikTok (mais de 62 mil seguidores) que mantém apenas perfis pessoais nas demais plataformas. Souza, que exibe uma bandeira do Brasil ao lado de sua foto de perfil e as hashtags bolsonaristas #deusacimadetudo e #brasilacimadetodos em sua biografia, alcançou 687,3 mil visualizações com quatro postagens contrárias ao sistema eleitoral.

Ele reproduziu, por exemplo, um trecho de um vídeo no qual um youtuber bolsonarista afirma que um hacker investigado em um inquérito sigiloso da PF (Polícia Federal) tornado público por Bolsonaro adulterou o código-fonte das urnas eletrônicas. A alegação, assistida 6,5 mil vezes no TikTok, é falsa.

ATAQUES DA OPOSIÇÃO

Na amostra mapeada pelo Radar, os conteúdos que miram o sistema eleitoral não partiram apenas de apoiadores de Bolsonaro. Pelo menos dois vídeos sobre o assunto foram publicados por influenciadores críticos do presidente (outros dois apareceram em contas sem viés político claro).

O de maior alcance — cerca de 240 mil visualizações — foi disseminado por um usuário que se apresenta como Gabriel Alexandre e que carimbou a hashtag #forabolsonaro em sua biografia. Para seus 22,4 mil seguidores, Alexandre alegou que Bolsonaro se beneficiou de uma fraude nas eleições de 1994, realizadas em cédulas de papel. Na realidade, o documento mencionado na gravação foi descartado e não influenciou na votação obtida pelo então candidato a deputado federal no pleito daquele ano.

Procurado pelo Radar, Alexandre afirmou que “se agora, depois de anos, já constataram que ele [Bolsonaro] não se envolveu nem se beneficiou com este episódio, então ótimo”.

Publicados por bolsonaristas, outros conteúdos desinformativos no TikTok ainda mostram falsos relatos de que urnas estavam programadas para autocompletar o voto em Fernando Haddad (PT) em 2018, resgatam uma denúncia antiga de fraude nas eleições de Caxias (MA) que não foi comprovada pela PF e exibem um sistema distinto do usado nas urnas eletrônicas para simular a possibilidade de adulterar votos.

O Radar também entrou em contato com os demais usuários mencionados (à exceção de Odair Souza, que não foi localizado), mas não houve resposta.

Metodologia

O Radar coletou vídeos que continham as hashtags #urnaeletrônica, #urnaeletronica, #urnaseletrônicas e #urnaseletronicas no TikTok por meio da ferramenta TikTok Hashtag Analysis, desenvolvida pelo site Bellingcat. Depois, a reportagem assistiu aos 695 vídeos entregues pela aplicação que reuniam ao menos mil visualizações e que foram publicados a partir de 1º de janeiro do ano passado e classificou a incidência de ataques ou desinformação sobre o sistema eleitoral nesses conteúdos.

Referências:
1. TSE
2. TikTok
3. UOL
4. Aos Fatos (1, 2, 3, 4, 5)
5. Poder 360
6. Agência Lupa
7. Estadão

Esta matéria foi atualizada em 10 de junho de 2022, às 17h50min. Foi incluído no texto o posicionamento de Gabriel Alexandre.

sobre o

Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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