Falas de senadores governistas na CPI da Covid-19 alimentam defesa de tratamentos sem eficácia no Twitter

Por Bruno Fávero, Débora Ely e João Barbosa

11 de maio de 2021, 19h09

Desinformação repetida por senadores governistas na CPI da Covid-19 tem sido usada por perfis bolsonaristas para defender no Twitter drogas sem eficácia comprovada contra o coronavírus, como a cloroquina e a ivermectina, mostra levantamento do Radar Aos Fatos.

A reportagem analisou 114.575 tweets únicos publicados por 54.967 perfis que repercutiram as discussões sobre "tratamento precoce" da Comissão Parlamentar de Inquérito entre os dias 4 e 7 de maio. Os dados apontam que apoiadores do presidente Jair Bolsonaro tiveram peso relevante no debate online (28% do total) e concentraram a desinformação sobre o assunto — 112 dos 200 mensagens mais populares do grupo defendiam o uso das drogas ineficazes.

Também mostram que uma de suas estratégias, presente em 29 dos tweets populares analisados, foi repetir e exaltar alegações falsas sobre o assunto feitas por parlamentares ligados ao governo na comissão. Nesse contexto, o senador Luis Carlos Heinze (PP-RS), que apareceu em 21 mensagens, foi o mais citado, seguido de Eduardo Girão (Podemos-CE), mencionado em cinco tweets, e Jorginho Mello (PL-SC), em três.

Com presença discreta nas redes sociais — tem 30,6 mil seguidores no Twitter e 70,5 mil no Facebook — Heinze chamou atenção na CPI ao enfileirar dados falsos sobre a pandemia em seus questionamentos ao ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta. Em sua participação, ele citou, por exemplo, os casos dos municípios de Rancho Queimado (SC) e Porto Seguro (BA) para afirmar que “milhares de brasileiros estão fazendo esse tratamento (precoce) e se curando”.

As duas cidades costumam ser usadas por peças de desinformação como exemplos de lugares que zeraram internações depois de usar o chamado "kit covid", o que, como o Aos Fatos já mostrou (aqui e aqui), não é verdade.

Já Girão, que promoveu uma série de transmissões ao vivo em suas redes sociais com médicos que recomendam as drogas ineficazes, disse na CPI que a ivermectina “não tem nenhum tipo de contraindicação” e que “tem efeito antiviral”. Além de não ser sustentado por evidências científicas, o uso do medicamento contra a Covid-19 foi desaconselhado pela farmacêutica Merck, que o fabrica, e pela Sociedade Brasileira de Infectologia.

Por fim, Mello, entre outras declarações, angariou apoio de bolsonaristas no Twitter ao afirmar na CPI que “os municípios de Rancho Queimado e Chapecó [em Santa Catarina] fizeram um kit covid e o resultado foi extraordinariamente positivo (...) porque evitou mortes e limpou os hospitais". O Aos Fatos também já demonstrou ser falso que Chapecó tenha zerado as internações por Covid-19.

OPOSIÇÃO

O gráfico abaixo mostra os diferentes grupos que repercutiram no Twitter o debate sobre "tratamento precoce" na CPI.

As partes em verde representam o grupo bolsonarista, que concentrou o maior número de perfis que debateram o assunto nas redes (14.150 ou 28% do total), enquanto o grupo laranja mostra a oposição, que foi menor — somou 17% dos perfis analisados. Já o grupo azul (terceiro maior, com 15% ) reuniu perfis que compartilharam principalmente notícias de grandes veículos da imprensa sobre a CPI.

Assim como no grupo bolsonarista, Heinze (com 16 menções) e Girão (com sete) foram os senadores mais citados pela oposição, mas em tom crítico. Das 200 mensagens mais populares desse grupo, 183 eram contrárias à adoção de drogas sem comprovação científica para prevenir ou tratar a Covid-19.

Além dos dois parlamentares, quem também atraiu críticas da oposição foi o senador Marcos do Val (Podemos-ES). O capixaba, que também costuma sair em defesa da hidroxicloroquina nas redes sociais, declarou à CPI que toma “uma hidroxicloroquina e uma ivermectina” nos finais de semana.

“Se a gente está numa guerra em que a gente praticamente desconhece o inimigo, como dizer que essa tática ou essa munição é a que funciona e a outra não funciona? Nós temos que usar de todas”, completou, ignorando o método científico já consolidado para atestar eficácia de um tratamento.

METODOLOGIA

Os tweets foram obtidos por meio de uma busca na API do Twitter por termos relacionados à CPI da Covid-19 e ao "tratamento precoce". Em seguida, os perfis foram divididos em grupos (clusters) por meio do Gephi, software que agrupa usuários de acordo com o nível de interação entre eles — com esse algoritmo, perfis que se retweetaram com frequência tendem a ficar no mesmo grupo.

Em seguida, foram analisadas individualmente e classificadas as 200 mensagens com mais interações (curtidas e retweets) de cada um dos dois maiores grupos.

OUTRO LADO

O Aos Fatos entrou em contato por e-mail com os senadores citados na reportagem. A assessoria de imprensa de Jorginho Mello afirmou que o parlamentar não defende o “tratamento precoce”: “Ele é a favor, sim, que cada médico tenha a liberdade de prescrever o que for necessário para o paciente”.

Já a equipe de Eduardo Girão encaminhou um documento de oito páginas que contém “informações e estudos randomizados utilizados pelo senador para basear a opinião sobre o tema”. Em um trecho, o texto argumenta “não ser recomendável demonizar estes medicamentos, proibir, perseguir, censurar, criminalizar, desrespeitar, menosprezar, médicos ou instituições que, de boa-fé e respaldados na autonomia médica e do paciente, tentam encontrar soluções medicamentosas contra a Covid”.

Os demais senadores não se manifestaram até a publicação desta reportagem.

Referências:
1. Aos Fatos (1, 2, 3)
2. Folha de S.Paulo
3. Sociedade Brasileira de Infectologia

sobre o

Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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