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É falso que ‘tratamento precoce’ zerou internações por Covid-19 em 15 cidades

Por Priscila Pacheco

30 de março de 2021, 15h23

Publicações nas redes sociais difundem uma lista de 15 cidades que supostamente não teriam mais internações de pacientes de Covid-19 por terem adotado o chamado “tratamento precoce” (veja aqui), o que é falso. A maioria dos municípios listados registra internações recentes de pacientes com a infecção, como Aos Fatos verificou em consulta às bases de dados epidemiológicos das cidades e dos estados.

Uberaba (MG), por exemplo, adotou o uso de medicamentos sem eficácia comprovada contra a doença em julho do ano passado e tinha quase 90% de ocupação em leitos públicos reservados para Covid-19 no dia 22 de março, data de publicação da lista.

Além disso, como já explicado pelo Aos Fatos, não existem estudos científicos sólidos que atestem a eficácia de drogas para prevenir ou tratar precocemente a infecção, por isso, não é possível dizer que "tratamento precoce" funcione.

O conteúdo enganoso conta com ao menos 3.648 compartilhamentos nesta terça-feira (30), e as postagens foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de verificação da plataforma ‌(‌saiba‌ ‌como‌ ‌funciona‌).


Todas com zero internações. Já adotaram o tratamento precoce

Tem circulado nas redes sociais uma lista de 15 cidades que teriam “zerado” o número de internações por terem adotado o suposto “tratamento precoce” contra Covid-19. A alegação, no entanto, é falsa. No dia 22 de março, data da postagem, ao menos 10 das 15 cidades mencionadas tinham pacientes hospitalizados com Covid-19. As outras cinco cidades não tinham dados públicos sobre a situação da rede hospitalar na data em questão.

O Aos Fatos compilou os números do dia 22 de março sobre a ocupação em leitos do SUS (Sistema Único de Saúde) das dez cidades com números públicos (veja tabela abaixo). Naquele dia, Uberaba (MG), por exemplo, contava com 52 pacientes internados na área reservada para Covid-19 em UTI e 118 em enfermaria, o que equivale a 87% e 83% de ocupação, respectivamente.

O município começou a disponibilizar medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19 como “tratamento precoce” em julho de 2020. Na última quarta-feira (24), a prefeitura divulgou o recebimento de uma doação de remédios que incluía o vermífugo ivermectina para pessoas com a infecção causada pelo novo coronavírus.

Outro exemplo é Porto Seguro (BA), que, apesar de adotar as drogas com suposta ação preventiva, conta com 45 pessoas hospitalizadas. No dia 2 de março, o prefeito Jânio Natal (PL) autorizou a Secretaria Municipal de Saúde a comprar drogas para implementar o “tratamento precoce”. A secretária Raissa Soares, que é médica e assumiu a pasta este ano, já vem defendendo o uso desses medicamentos desde 2020 e já foi alvo de checagem do Aos Fatos.

Critérios e outras cidades. Como o Aos Fatos já explicou, o potencial de um tratamento não é validado por especulações ou observações superficiais, mas por pesquisas que seguem critérios rígidos. Além disso, estudos científicos realizados desde o começo da pandemia não atestam a eficácia de nenhuma droga para tratar precocemente a Covid-19.

O Aos Fatos já checou outras postagens enganosas que citavam Porto Feliz (SP), São Lourenço (MG) e Búzios (RJ) (cidades presentes na lista de 15 municípios que teriam zerado internações) como casos de sucesso da aplicação do suposto tratamento, mas todas as publicações foram desmentidas como falsas.

Os cinco municípios que figuram na lista que vem sendo compartilhada mas não disponibilizam dados de internação do dia 22 de março em boletins epidemiológicos municipais ou estaduais foram contatados pelo Aos Fatos, mas apenas Rancho Queimado (SC) respondeu.

A cidade não possui hospital. Por telefone, Nazareno Floriano, secretário de Saúde do município, explicou que os pacientes com Covid-19 que precisam de hospitalização são enviados para Angelina, município vizinho. O secretário disse que não tem conhecimento de que havia habitantes internados no dia 22 e na semana anterior, mas que nos dias 23 e 24 duas pessoas foram enviadas para Angelina e já receberam alta.

Pilar e São Pedro dos Crentes. Não foram encontrados dados sobre internações nos sites das prefeituras de Pilar (AL) e de São Pedro dos Crentes (MA). Além disso, os painéis das secretarias estaduais de Saúde de Alagoas e do Maranhão não separam os números de hospitalizações por cidades, algo que impede a análise individual da situação nos hospitais municipais.

Também não foram encontradas informações sobre adoção de “tratamento precoce” em Pilar. Em São Pedro dos Crentes, o prefeito Lahesio Bonfim (PSL-MA), que é médico, já se pronunciou publicamente a respeito das drogas e disse que “o que não mata, engorda”.

Braço do Norte e São João Nepomuceno: Os dados de internações de moradores de Braço do Norte (SC) e São João Nepomuceno (MG) foram encontrados nos painéis das secretarias estaduais de Saúde, mas não foi possível verificar a ocupação do dia 22 porque as plataformas não disponibilizam o histórico.

Em Braço do Norte, o painel mostra que na segunda-feira (29) havia 18 pacientes de Covid-19 em leitos de enfermaria. Também foi possível verificar que a cidade distribuiu hidroxicloroquina, zinco e vitamina D em julho do ano passado.

Já em São João Nepomuceno, outro município sem informações sobre a adoção do “tratamento precoce”, havia 3,4% de ocupação de leitos de enfermaria na manhã desta terça-feira (30). Não há dados sobre ocupação de UTIs para os dois municípios.

Referências:

1. Aos Fatos (Fontes 1, 2, 3, 4, 5 e 6)
2. Prefeitura de Uberaba (Fontes 1, 2 e 3)
3. Prefeitura de Pilar
4. Prefeitura de São Pedro dos Crentes
5. Prefeitura de Porto Seguro (Fontes 1 e 2)
6. Prefeitura de Búzios
7. Prefeitura de Porto Feliz
8. Prefeitura de Cascavel
9. Prefeitura de Itajubá
10. Prefeitura de Saudades
11. Prefeitura de São Lourenço
12. Prefeitura de Cristal
13. Secretaria de Estado de Saúde do Rio Grande do Sul
14. Secretaria de Estado de Saúde do Alagoas
15. Secretaria de Estado de Saúde do Maranhão
16. Secretaria de Estado de Saúde de Santa Catarina
17. Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais
18. Estadão


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