Em vídeo, médica mente sobre substâncias e efeitos adversos de vacinas contra a Covid-19

Por Marco Faustino

1 de dezembro de 2021, 18h40

Um vídeo que circula nas redes sociais reproduz informações falsas sobre as vacinas contra a Covid-19 ditas pela médica Maria Emilia Gadelha Serra em uma palestra em Florianópolis (SC) em novembro (veja aqui). Não é verdade que a CoronaVac tem alumínio, uma substância tóxica, entre seus compostos. O imunizante contém hidróxido de alumínio em níveis seguros para humanos. Ele é usado há décadas para potencializar respostas imunológicas.

É falso ainda, como alega a médica, que o emulsificante polissorbato 80 contido na vacina AstraZeneca venha de células de fetos abortados. A substância é obtida a partir de sorbitol (um tipo de álcool) e ácido oleico. Tampouco procede que os imunizantes causaram AVCs (acidentes vasculares cerebrais) em pilotos de avião. Não há registro de casos e autoridades sanitárias e aeroportuárias rechaçam a veracidade da afirmação.

O vídeo com as alegações enganosas circula em aplicativos de mensagem, como o Telegram e o WhatsApp. Nesta última, ele foi enviado por leitores do Aos Fatos como sugestão de checagem (Fale com Fátima). A gravação também circula no Facebook, onde somava centenas de compartilhamentos nesta quarta-feira (1).


Selo falso

Na CoronaVac tem 225 microgramas de alumínio.

A CoronaVac não tem alumínio, mas hidróxido de alumínio na composição. Esta substância serve para potencializar a resposta imunológica do vacinado e é usada nas vacinas em níveis que não representam risco à saúde.

Segundo o Instituto Butantan, a quantidade de hidróxido de alumínio na CoronaVac é pequena e segura, dentro do volume estabelecido pelos órgãos reguladores: entre 0,15 a 0,30 miligramas (150 a 300 microgramas). Em 2011, o JECFA (Comitê Conjunto de Especialistas em Aditivos Alimentares da OMS) estabeleceu que a ingestão semanal tolerável para a substância é de até 2 mg para cada quilo de peso corporal.

Letícia Sarturi, mestre em imunologia pela USP (Universidade de São Paulo), explica que o hidróxido de alumínio é utilizado há mais de cinco décadas em vacinas como adjuvante. Além disso, somente 34% dessa substância na CoronaVac é, de fato, o elemento alumínio. “Esse alumínio passa por um processo de absorção, distribuição, metabolização e excreção pelos rins. A intoxicação ocorre quando há uma exposição frequente e com doses muito altas do metal”, diz ela.

O CDC (Centers for Disease Control, órgão de saúde do governo dos EUA) aponta que “a quantidade de alumínio a que as pessoas são expostas quando seguem o calendário recomendado de vacinação é baixa e não é absorvida de imediato pelo corpo”. A OMS (Organização Mundial da Saúde) informa que o hidróxido de alumínio presente nas vacinas não causa problemas de saúde a longo prazo e que os humanos ingerem a substância regularmente por meio dos alimentos ou das bebidas.

“O alumínio presente na forma de hidróxido e o metálico são espécies químicas diferentes. O primeiro faz parte de um grupo de bases fracas, que é utilizado, inclusive, no combate à acidez estomacal. É o mesmo que querer dizer que o sal de cozinha (cloreto de sódio) é igual ao sódio metálico (extremamente explosivo)”, afirmou ao Aos Fatos Mauro Mozael, mestre em Química pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).


Selo falso

O polissorbato 80, que tem na AstraZeneca, tem células de fetos abortados.

Não é verdade que o polissorbato 80 tenha células de fetos abortados. O composto, que é um conservante e emulsificante usado na indústria de cosméticos e alimentos, é obtido a partir da síntese química de sorbitol (um tipo de álcool) e ácido oleico.

Neste trecho, a médica mistura e distorce informações. Na realidade, durante a fase de pesquisas para a vacina AstraZeneca/Oxford, os pesquisadores utilizaram como base para o cultivo do microrganismo responsável pela imunização uma linhagem celular conhecida como HEK293. Ela foi produzida em 1973, na Holanda, a partir de células renais de um feto de um aborto feito legalmente. Isso não quer dizer, entretanto, que a vacina possui células de bebês abortados em sua composição.

“As pesquisas que envolvem a HEK293 utilizam células derivadas das originais, que não existem mais, e que não fazem parte da composição das vacinas. Além disso, o feto não foi abortado com a finalidade de desenvolver imunizantes”, ressalta Letícia Sarturi, mestre em imunologia pela USP.


Selo falso

As mulheres estão abortando [após serem vacinadas]...

A médica engana ao afirmar que as vacinas contra a Covid-19 causam abortos em mulheres. Além de inexistirem registros comprovados de casos assim, o Ministério da Saúde negou a veracidade da alegação.

Em nota, o Ministério da Saúde informou que monitora a segurança e a efetividade de todas as vacinas do PNI (Programa Nacional de Imunizações), e que não foi identificada relação entre a vacinação e abortos. A pasta recomenda que gestantes sejam vacinadas com os imunizantes CoronaVac e Pfizer.

Estudos publicados nas revistas NEJM e JAMA também não verificaram risco elevado de aborto espontâneo em razão dos imunizantes. A taxa de abortos nos EUA entre mulheres grávidas vacinadas e não imunizadas foi semelhante e dentro do esperado.


Selo falso

...os pilotos vacinados estão tendo AVCs...

Tampouco procede a afirmação de que pilotos de avião tiveram AVC (acidente vascular cerebral) após serem vacinados contra a Covid-19. O Ministério da Defesa e o Comando da Aeronáutica informaram que não existem relatos nem risco à segurança dos voos devido ao uso de imunizantes. A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) afirmou desconhecer que pilotos de aeronaves comerciais teriam sofrido derrame cerebral em razão das vacinas.

Em junho, Aos Fatos desmentiu uma alegação enganosa de que vacinas com a tecnologia mRNA (RNA mensageiro), como a da Pfizer, poderia causar coágulos sanguíneos no cérebro e que passageiros imunizados seriam vetados de voos por risco de derrame. Na realidade, a formação de trombos não está entre os efeitos adversos observados nestes imunizantes e autoridades e empresas aéreas desmentiram a existência de veto.

Outro lado. Contatada por Aos Fatos, Maria Emília Gadelha Serra não respondeu até a publicação desta checagem.

Referências:

1. OMS (Fontes 1 e 2)
2. CDC
3. Nicrom Química
4. Wikipédia
5. Dipa Química
6. Science Magazine
7. Nature
9. Ministério da Saúde
10. NEJM
11. JAMA
12. Aos Fatos


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