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É falso que variantes do novo coronavírus provocam danos graves ao fígado

Por Priscila Pacheco

13 de abril de 2021, 19h01

Não é verdade que variantes do Sars-Cov-2 causem danos graves ao fígado, como a hepatite medicamentosa, como alega o oftalmologista e deputado estadual potiguar Albert Dickson (Pros) em um vídeo que circula nas redes sociais para defender um "tratamento precoce" que não existe (veja aqui). Até o momento, não há evidências que relacionem complicações hepáticas à Covid-19, que ataca principalmente os pulmões.

O vídeo ganhou tração nas redes após reportagem do jornal O Estado de S.Paulo noticiar que, em São Paulo, ao menos cinco pessoas que fizeram uso de drogas sem eficácia comprovada contra a Covid-19 deram entrada na fila de transplante de fígado e outras três morreram de hepatite medicamentosa.

Publicações com o vídeo enganoso contavam com ao menos 22.072 compartilhamentos no Facebook nesta terça-feira (13) e foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (veja como funciona).


Estão chegando [pacientes com hepatite] por causa da nova cepa. Aí estão dizendo que é ivermectina. Os pacientes estão pegando hepatite não é por conta do medicamento e sim por conta da nova cepa. A nova cepa atinge fígado.

Em entrevista ao jornalista Fernando Beteti, o oftalmologista e deputado estadual do Rio Grande do Norte Albert Dickson (Pros) engana ao afirmar que a causa de complicações no fígado relatadas em hospitais pelo país seriam as variantes do novo coronavírus, mas isso é falso. Os casos divulgados até o momento pela imprensa relacionam-se mais ao uso de drogas sem eficácia comprovada contra a Covid-19, como a ivermectina e a azitromicina, defendidas pelo médico no vídeo checado. Até o momento, não há indícios de que as novas cepas tenham impacto maior no fígado.

Além disso, nenhum estudo científico sólido concluiu que haja algum tratamento precoce efetivo contra Covid-19, como Aos Fatos já mostrou. A ivermectina, por exemplo, necessita de mais pesquisas e não é indicada nem pela própria fabricante para tratar Covid-19. Em 31 de março, a OMS (Organização Mundial da Saúde) disse que o vermífugo deveria ser aplicado somente em pesquisas até que dados provem seu potencial contra a doença.

Fígado. Vitor Ribeiro Paes, médico do departamento de patologia da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), comenta que o principal alvo do Sars-Cov-2 é o conjunto de células pulmonares. “Ele [o Sars-CoV-2] não é um vírus hepatotrópico [que tem como principal alvo o fígado] como os da febre amarela, da dengue e da hepatite. Esses três vírus primordialmente atacam o fígado”, exemplifica.

Por mais que não esteja descartada, a ação direta do Sars-CoV-2 em outras células ocorre em um grau muito menor do que no pulmão, segundo o especialista, que ressalta ainda que lesões no fígado costumam aparecer mais em pacientes em estado grave da Covid-19. Porém, isso não é resultado das novas cepas, mas de um processo inflamatório intenso do corpo, comum também em outras doenças que se agravam, e que pode lesionar outros órgãos, como o coração e os rins.

A falta de oxigênio no organismo também pode ser nociva para a pessoa com Covid-19 grave. “O fígado usa bastante oxigênio para metabolizar substâncias tóxicas. Se o paciente não tiver oxigênio suficiente, o fígado não vai funcionar tão bem”, explicou Paes.

Hepatite. Na peça de desinformação, o médico e deputado Albert Dickson levanta a hipótese de confusão em diagnósticos. Ele diz que médicos poderiam estar confundindo uma hepatite supostamente causada pelo vírus com a medicamentosa. Especialistas ouvidos por Aos Fatos, entretanto, refutam essa possibilidade, pois por meio de biópsias seria possível identificar exatamente a causa da complicação no órgão.

Em março, o Estadão mostrou que ao menos cinco pessoas em São Paulo entraram para a fila de transplante por apresentarem hepatite medicamentosa. Todas elas haviam sido diagnosticadas com Covid-19 e tomado ivermectina e antibióticos como “tratamento precoce”. Outras três pessoas na mesma situação morreram da doença no fígado.

Os médicos que acompanham os casos disseram ao jornal que as biópsias apontavam que a origem do problema seria medicamentoso, e não complicações da própria Covid-19. “A Covid pode atacar o órgão, mas de uma forma diferente. Ela causa pequenos trombos (coágulos) nos vasos. Esse padrão que encontramos é de lesão por medicamentos”, disse ao Estadão Ilka Boin, professora da Unidade de Transplantes Hepáticos do Hospital das Clínicas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

O Aos Fatos entrou em contato com o deputado Albert Dickson, mas não obteve retorno.

A peça de desinformação também foi checada por Estadão Verifica e Agência Lupa.

Referências:

1. Aos Fatos (Fontes 1 e 2)
2. Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte
3. Fiocruz
4. OMS
5. Diário do Nordeste
6. Folha de S. Paulo
7. BBC Brasil
8. Blog do hospital Albert Einstein
9. Scielo
10. Estadão


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