Ex-donos de corretora de criptoativos comandam golpe dos falsos emagrecedores

Por Marco Faustino

27 de junho de 2022, 11h54

Ex-sócios e ex-executivos de uma corretora de criptoativos tirada do ar após arrecadar milhões de reais de clientes estão por trás de uma rede de desinformação criada para aplicar golpes com a venda de falsos emagrecedores. O esquema existe desde dezembro do ano passado, pelo menos, como mostrou o Aos Fatos. A operação, que utiliza sites e perfis falsos no Facebook e no Instagram, é comandada por pessoas ligadas à CriptoHub, que fechou em 2020 alegando dificuldades financeiras.

A corretora foi lançada em 2018 por meio de um ICO (Initial Coin Offering, em inglês, “oferta inicial de moeda”, em tradução livre), método sem regulamentação que permite a empresas captar dinheiro com o objetivo de criar novos criptoativos. A companhia lançou a criptomoeda CHBR e pode ter arrecadado até R$ 32 milhões para esse fim, segundo o Portal do Bitcoin. A criptomoeda, entretanto, jamais foi listada em qualquer corretora relevante de criptoativos.

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Em fevereiro de 2020, os servidores da empresa saíram do ar. Isso levantou temores para o risco de “exit scam”, um golpe em que uma empresa interrompe a entrega de um produto ou serviço, embora siga recebendo dinheiro por ele. Dois meses depois, a CriptoHub anunciou oficialmente seu fechamento nas redes sociais, devido a “dificuldades financeiras e cenário atual do mercado” e estabeleceu o prazo de 15 dias para que clientes resgatassem criptoativos hospedados nas carteiras da corretora.

Imagem mostra como era o site da Criptohub em 2018
Arquivo. Imagem mostra versão arquivada da capa do site da Criptohub em 2018.

Ex-clientes da corretora alegam, em queixas publicadas no Reclame Aqui e em processos na Justiça, que enfrentam dificuldades para recuperar o dinheiro. A empresa parou de responder na plataforma em novembro de 2020. O Aos Fatos entrou em contato com o autor de uma ação judicial movida contra a CriptoHub no Paraná, que pediu para não ser identificado. Segundo ele, “se não tivesse recorrido à Justiça não tinha reavido nada”. O ex-cliente diz que os executivos “sumiram” após o anúncio do fechamento da empresa. “Só pegaram o dinheiro [dos clientes] e sumiram.”

Depois do fechamento da CriptoHub, seus executivos atuaram com algumas marcas de falsos emagrecedores e outros produtos supostamente terapêuticos. A ação fraudulenta se concentra atualmente na marca lipozepina, que, apesar de não ter registro da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), se apresenta como um emagrecedor natural.

Resumo. A operação digital revelada pelo Aos Fatos envolve ao menos dez empresas sediadas em diferentes cidades de São Paulo e de Santa Catarina — e que têm como sócios seis homens que, antes, foram sócios ou executivos da CriptoHub. Outras duas pessoas que não tinham ligação com a corretora também aparecem como sócias nas empresas envolvidas no golpe dos falsos emagrecedores.

Abaixo, mostramos um resumo das relações societárias e o papel de cada uma dessas empresas em captar clientes na internet por meio de informações mentirosas, como páginas que simulavam o Gshow, site de entretenimento do Grupo Globo, com entrevistas falsas de celebridades recomendando produtos que estão na lista de emagrecedores irregulares da Anvisa.

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A rede. Por meio de sites enganosos, com depoimentos falsos de artistas como as cantoras Alcione e Preta Gil, o consumidor é levado a uma página interna do site lipozepina-oficial.com, da BH Sol Yellow. A empresa foi criada em fevereiro deste ano, meses antes de as informações falsas começarem a circular. O quadro societário inclui a Asana Participações, propriedade de Glauco Gobatto, ex-responsável pelo desenvolvimento e prospecção de novos negócios da CriptoHub. Ele também é dono do domínio lipozepina.com.br, onde o produto é citado como “o melhor emagrecedor”.

Gobatto aparece nos dados de registro do domínio bluehigh.com.br, utilizado pela Blue High Soluções, de Nazaré Paulista (SP). Essa empresa responde às reclamações de consumidores que adquirem amostras da lipozepina pelo site lipozepina-oficial.com. A Blue High é a responsável pela comercialização de outro suplemento que recorre a sites enganosos, a lipotramina, que consta na lista de emagrecedores proibidos pela Anvisa.

O site da BH Sol Yellow e da Blue High Soluções são praticamente idênticos. A única diferença é a cor utilizada (veja abaixo).

Comparativo mostra que os sites das empresas BH Sol Yellow e Blue High Soluções são praticamente idênticos; a única diferença é a cor utilizada
Quase iguais. Nos sites das empresas BH Sol Yellow e Blue High Soluções, a única diferença é a cor (Reprodução)

Os sócios da Blue High são Patrick Wendel Rocha Medeiros e Demétrio de Moraes. Este último fez parte do quadro societário da CriptoHub, como mostra o CruzaGrafos, ferramenta da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) que mostra informações societárias sobre empresas.

Outro suplemento proibido pela Anvisa usado no golpe, o lipotril, é distribuído por uma terceira empresa, a Bio High Comércio e Serviços, também sediada em Nazaré Paulista (SP), cidade da Blue High Soluções. A Bio High registrou o domínio lipotril.com.br e o seu responsável é Victor Gamarra de Moraes, ex-diretor de comunicação da CriptoHub. O quadro societário da Bio High é composto por Sabrina de Souza Maria e pelas empresas C2 Network Participações e GVHS Marketing Digital. Esta última tem Gamarra de Moraes como sócio.

Entre os sócios da C2 Network estão Carlo Ramon Vailatti, ex-presidente da CriptoHub, e Rafael Vidal Rawadauski, ex-estrategista de marketing da corretora. Rawadauski aparece como responsável pelo domínio biohigh.com.br, utilizado pela Bio High Comércio e Serviços. Outro sócio da C2 Network é a GVHS, de Victor Gamarra de Moraes.

Por meio do CruzaGrafos, o Aos Fatos verificou que Carlo Ramon Vailatti e Demétrio de Moraes eram sócios na CriptoHub. Vailatti também aparecia ao lado de Glauco Gobatto em eventos. Ambos estavam, por exemplo, no coquetel de inauguração da extinta corretora.

Foto mostra Ramon Vailatti ao lado de Glauco Gobatto na Blockchain Expo, evento realizado na Holanda em 2018
Blockchain Expo. Foto mostra Ramon Vailatti (à esq.) ao lado de Glauco Gobatto (à dir.) em evento realizado na Holanda em 2018.

A estrutura do site da Bio High é idêntica à página em que a lipozepina é vendida, supostamente de maneira oficial, pela BH Sol Yellow (veja abaixo). As diferenças estão nos elementos visuais e nos produtos comercializados. No site, é possível visualizar um outro número de CNPJ, que também pertence a Bio High Comércio e Serviços. Ele aponta para uma segunda sede, em Itajaí (SC).

Comparativo mostra que a estrutura do site da Bio High é idêntica ao site oficial da lipozepina
Semelhanças. Estrutura do site da Bio High (acima) é idêntica ao site oficial da lipozepina (abaixo)

Oculax e FlexxMais. Não é a primeira vez que um produto da Bio High é promovido com ajuda de desinformação. Em agosto de 2021, o Aos Fatos verificou que um anúncio usava a imagem do médico Drauzio Varella para afirmar que ele recomendava o uso de um suplemento chamado Oculax, distribuído pela empresa, para prevenir ou curar doenças oftalmológicas.

Além de Varella já ter dito em seu site oficial que não promove qualquer tipo de medicamento, o anúncio difundia uma entrevista editada e violava uma norma da Anvisa que proíbe que suplementos sejam apresentados como indicação de prevenção, tratamento ou cura de doenças. Ainda assim, o produto continua sendo vendido no site da Bio High.

Em janeiro de 2020, um outro anúncio usou a imagem de Drauzio Varella para promover um produto à base de colágeno para tratar dores nas articulações, chamado FlexxMais. Uma versão arquivada da página do produto mostra que a estrutura era semelhante a do site que vendia a lipotramina, e que aparecia como de responsabilidade da Blue High Soluções.

Versão arquivada da página de vendas do FlexxMais (abaixo) mostra que a estrutura era semelhante a do site oficial de vendas da lipotramina (acima)
Comparativo. Versões arquivadas das páginas da lipotramina (acima) e da FlexxMais (abaixo).

O FlexxMais era vendido pelo Clube Saúde & Bem Estar, que tinha sede em Jundiaí (SP), mas atualmente está instalada em Itupeva (SP). Um dos sócios da empresa é Demétrio de Moraes, mesmo nome que aparece ligado à CriptoHub e à Blue High Soluções, da lipozepina e da lipotramina.

No registro do domínio clubesaudebemestar.com.br aparece o nome de Leandro Anderson Francisco, ex-diretor de tecnologia e ex-chefe de operações da CriptoHub. Antes de assumir o cargo na ex-corretora, Leandro era pastor evangélico na Codi (Comunidade Discípulos), uma igreja em Jundiaí (SP), da qual ele é proprietário, segundo o site da Receita Federal.

Quatro meses antes de a CriptoHub fechar as portas, Leandro teria se mudado para Portugal, segundo o Portal do Bitcoin. Publicações recentes na página da Codi no Facebook, no entanto, sugerem que ele pode estar no Brasil.

Registro de Marcas. Há pedidos de registros da marca lipozepina e lipotramina no Inpi (Instituto Nacional da Propriedade Industrial), órgão ligado ao Ministério da Economia, que reforçam a ligação de executivos da extinta corretora com os falsos emagrecedores.

No caso da lipozepina, o pedido está em análise e foi feito pela empresa Vitta Verva Fabricação de Produtos para Infusão, sediada em Itupeva (SP), mesma cidade do Clube Saúde & Bem Estar. Os sócios da Vitta Verva são Demétrio de Moraes e Patrick Wendel Rocha Medeiros — que também são sócios da Blue High Soluções.

O pedido de registro da marca lipotramina também está em processo de análise e foi feito pela empresa Walfare Club Promoção de Vendas, de Valinhos (SP), cidade a oito quilômetros de Vinhedo (SP), sede que a BH Sol Yellow declara na Receita Federal. A Walfare Club tem Demétrio de Moraes como um dos sócios. Já o registro da marca lipotril foi concedido em janeiro para a Bio High Comércio e Serviços.

Campanhas digitais. Uma rede composta por 74 sites que simulam páginas do Grupo Globo para promover a lipozepina compartilhavam o mesmo Google Analytics ID (UA-137749396-25), como mostrou o Aos Fatos. No site Dnslytics, foi possível verificar que os sites gamarra.network e highstakes.network, da agência de publicidade High Stakes Marketing Digital, também utilizam essa mesma ID, ou seja, são administrados pela mesma conta que gerencia os sites enganosos.

Os domínios da agência High Stakes, que alega ser uma empresa especializada em campanhas agressivas de marketing de alta escala, foram registrados por meio da empresa Dynadot, a mesma utilizada para registrar os domínios dos sites desinformadores.

O fundador da High Stakes é Victor Gamarra de Moraes. A agência está sediada em Nazaré Paulista (SP), mesma cidade das empresas Bio High Comércio e Serviços, que comercializa o lipotril, e da Blue High Soluções, que comercializa a lipozepina e a lipotramina. A Blue High está localizada a 100 metros de distância da High Stakes, no centro do município paulista. Já a Bio High está no bairro de Vicente Nunes, a 2,5 km das outras duas empresas.

Nos sites da High Stakes, a empresa aparece como parceira da extinta CriptoHub, do Clube Saúde & Bem Estar e da C2 Network. Gamarra é um dos sócios da GVHS, que é sócia da Bio High, que comercializa o lipotril.

Outro lado. O Aos Fatos tentou contato com Victor Gamarra, em 14 de junho, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem. Logo após o contato, no entanto, o Google Analytics ID “UA-137749396-25” desapareceu do código-fonte dos sites gamarra.network e highstakes.network, da High Stakes Marketing Digital.

Referências:

1. Aos Fatos (Fontes 1, 2, 3, 4, 5 e 6)
2. Web Archive (Fontes 1, 2, 3 e 4)
3. Portal do Bitcoin (Fontes 1, 2 e 3)
4. Coin Times
5. Facebook (Fontes 1, 2 e 3)
6. Reclame Aqui (Fontes 1 e 2)
7. Archive.is
8. BH Sol Yellow
9. Blue High Soluções
10. Registro.br (Fontes 1, 2 e 3)
11. CruzaGrafos
12. Linkedin
13. Twitter (Fontes 1 e 2)
14. UOL
15. Imprensa Nacional
16. Inpi (Fontes 1, 2 e 3)
17. Dnslytics
18. Dynadot
19. Google Mapas (Fontes 1 e 2)

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