Rede de desinformação promoveu golpe da lipozepina e fez disparar busca por falso emagrecedor

Por Marco Faustino

13 de junho de 2022, 14h02

M. S. viu no Facebook e no Instagram um anúncio de amostras grátis de um suposto emagrecedor que teria feito celebridades perderem dezenas de quilos em poucos dias. As postagens direcionaram para um texto sobre os benefícios do produto, com fotos, vídeos e depoimentos de artistas como Alcione e Preta Gil, com design semelhante ao do Gshow, site de entretenimento do Grupo Globo.

No texto, ela encontrou o link para um site onde é possível fazer uma “assinatura experimental” para obter “amostras grátis” — mediante o pagamento, por cartão de crédito, de R$ 19,90 de frete. Ela aceitou a condição e digitou os dados apressadamente, para não perder a oferta, limitada por uma contagem regressiva no topo da tela. “Pegue sua amostra grátis disponível somente pelos próximos minutos e faça como as milhares de mulheres que têm emagrecido com lipozepina!”

M. S. não conferiu a página até o fim para saber que seria cobrada também uma taxa de assinatura mensal de R$ 189,90 — valor referente a um pote do produto mais a cobrança de outro frete, de R$ 49,90 —, opção que não tinha como ser desmarcada ao solicitar a “amostra grátis”. O produto chegou 14 dias após o pedido, em 27 de maio.

Na mesma data, o Aos Fatos publicou que as supostas falas de Preta Gil no site promocional eram, na verdade, distorcidas e inventadas para promover a substância, que não é autorizada no Brasil e nunca foi consumida por ela. M. S. voltou às postagens do Facebook que a levaram a comprar o produto e se deparou com um aviso de informação falsa. Leu a checagem e decidiu nem tomar as gotas. Foi também quando viu na fatura do cartão a cobrança. Tentou contato com a empresa, com quem conversava pelo WhatsApp, mas não responderam mais.

Imagem mostra a página em que amostras de lipozepina são comercializadas
Aquisição. Os sites desinformadores redirecionam o usuário para adquirir amostras de lipozepina. Embora citadas como grátis há cobrança de frete e assinatura mensal.

O golpe da amostra grátis está nas redes pelo menos desde dezembro de 2021 e usou três suplementos como isca.

  1. O primeiro se chamava lipotril, composto por quitosana (derivado da carapaça externa de crustáceos), spirulina (um tipo de alga), psyllium (uma fibra extraída de sementes da erva Plantago Ovata) e picolinato de cromo (suplemento alimentar que combina o mineral cromo com o ácido picolínico).
  2. Quase simultaneamente, surgiu a lipotramina, suplemento apresentado como emagrecedor, composto por laranja moro, café verde e alfa-casozepina, um bioativo extraído do leite de vaca.
  3. O terceiro é a lipozepina, que citamos no início da reportagem.

Em março, uma enfermeira morreu por hepatite fulminante associada ao consumo de chá emagrecedor em cápsulas. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), então, centrou esforços para penalizar falsas terapias do gênero à venda no país e incluiu a lipotramina na lista de produtos proibidos, na qual já estava o lipotril.

Apesar da proibição, ambos ainda podem ser encontrados à venda na internet. Porém, postagens que os promoviam passaram a ser substituídas nas redes por uma nova marca, a lipozepina, que está fora da lista de veto da Anvisa. O dito “suplemento alimentar” tem embalagem de mesma cor da lipotramina e composição semelhante: laranja moro, café verde e alfa-casozepina, vitamina C, e colina (um nutriente que tem semelhança com vitaminas do complexo B).

O padrão de desinformação se repete: os sites simulam portais de notícias com depoimentos falsos de artistas e o link para a página oficial do produto, na qual é possível pedir amostras supostamente gratuitas ao fornecer dados do cartão de crédito.

Rede de desinformação. Entre dezembro de 2021 e início de maio de 2022, a Blue High Soluções, uma das empresas que vende os suplementos, tinha 6.380 reclamações no site Reclame Aqui, principalmente relacionadas à lipotramina. Esse número saltou para 8.259 em apenas duas semanas, quando começou a circular a campanha da lipozepina. Os principais objetos das reclamações são as cobranças da assinatura mensal e do frete, que pode variar de R$ 19,90 a R$ 49,90. Também há os que não receberam o produto.

As imagens de frascos e cartelas de amostras grátis da lipozepina nos anúncios da internet, no entanto, mostram outra empresa como detentora exclusiva dos direitos de comercialização e distribuição do produto: a B. H. Sol Yellow, registrada desde 19 de maio no Reclame Aqui. Ela conta com 14 reclamações que se assemelham às da Blue High. Desde janeiro deste ano, segundo o Procon de São Paulo, foram registradas 85 reclamações contra a Blue High, 76 delas contestando as cobranças.

O alcance do golpe se deve à campanha de desinformação montada nas redes. O Aos Fatos identificou 74 sites enganosos, sobretudo da lipozepina, impulsionados por contas falsas nas redes. Entre elas há páginas que simulam reportagens do G1, Gshow, do jornal O Globo e do canal GloboNews, além de UOL e Jornal da Band. Todos têm fotos adulteradas de celebridades segurando frascos de lipozepina, entrevistas editadas, declarações nunca dadas por artistas, comentários falsos com elogios ao produto e o link para o site oficial.

Imagem mostra página falsas do G1 e o Jornal da Band criadas para promover a lipozepina
Páginas falsas. Imagem mostra páginas falsas do G1 (acima) e o Jornal da Band (abaixo) criadas para promover a lipozepina.

Esse conteúdo é promovido por uma rede de perfis e páginas falsas no Facebook. O Aos Fatos identificou que eles se dividem em duas operações: uma parcela dissemina os sites enganosos e a outra tem perfis que simulam usuários reais e espalham relatos de que o produto é eficaz — ou seja, que as falsas pessoas teriam conseguido perder peso.

Para angariar seguidores de maneira orgânica e não levantar suspeita de fraude, as falsas usuárias adotam ao menos três narrativas: dizem que suas contas antigas foram hackeadas, que perderam dados dos computadores ou inventam a história de que os pais perderam o emprego, mudaram de cidade, nunca mais tiveram a vida de antes, e por isso resolveram criar um novo perfil em rede social.

Os perfis de Sabrina Costa, que alega ser moradora de Itaperuna (RJ), e de Carla Freitas, de São Leopoldo (RS), estão no grupo que simula pessoas reais que alegam experiências positivas com a lipozepina (veja abaixo). Na conta de Sabrina são utilizadas imagens da modelo e influenciadora digital americana Caroline Zalog. O perfil de Carla Freitas, por sua vez, utiliza fotos da tiktoker mexicana Paulina García.

Perfis falsos de Diana Vargas, Sabrina Costa e Carla Freitas com histórias criadas para fingir autenticidade. As fotos são de outras pessoas reais
Perfis fake. Histórias inventadas para fingir autenticidade com fotos de outras mulheres (Reprodução/Facebook)

Todas as contas utilizam fotos de terceiros, incluindo atrizes e modelos internacionais. As páginas de Karini Ramos e Mirella Bernadino, por exemplo, estão entre as que promovem os sites enganosos. A foto utilizada na página de Karini é da cantora indiana Aryanshi Sharma. Já na página de Mirella são utilizadas imagens da streamer brasileira Beatriz Vasconcelos. Nenhuma dessas pessoas reais fez propaganda dos suplementos. Os perfis enganosos já foram retirados do ar.

Comparativo mostra que as páginas de Karini Ramos e Mirella Bernardino utilizam fotos da cantora Aryanshi Sharma e da streamer Beatriz Vasconcelos
Comparativo. Perfis falsos de Karini Ramos e Mirella Bernadino (E) usam fotos da cantora Aryanshi Sharma e da streamer Beatriz Vasconcelos (D)

A estrutura criada se mostrou eficiente em promover a desinformação. O Google Trends, ferramenta que permite acompanhar a evolução do interesse por um tópico ao longo do tempo, mostra que as buscas pela lipozepina cresceram vertiginosamente a partir de maio de 2022.

Situação irregular. De acordo com as imagens dos produtos divulgadas nos anúncios da internet, a lipotramina e a lipozepina são produzidas pela Guki Nutracêutica (CNPJ nº 06.789.363/0001-34), que se apresenta como uma indústria de terceirização que fabrica conforme demanda de empresas. A comercialização fica a cargo da B. H. Sol Yellow e da Blue High Soluções.

O lipotril é distribuído pela Bio High, e sua fabricação também é terceirizada, mas nesse caso, a responsável é a C. J. Marchette Indústria e Comércio de Produtos Dietéticos (CNPJ n° 15.429.097/0001-20), nome empresarial da Ekobé do Brasil, que possui outras inscrições na Receita Federal (como, por exemplo, o CNPJ n° 15.429.097/0002-00).

Além da grafia semelhante dos nomes, a estrutura do site da Bio High é idêntica à página em que a lipozepina é vendida alegadamente de maneira oficial pela B.H Sol Yellow. O Aos Fatos entrou em contato com as empresas citadas, e a reportagem será atualizada caso haja resposta.

Comparativo mostra que a estrutura do site da Bio High é idêntica ao site oficial da lipozepina
Semelhanças. Comparativo mostra que a estrutura do site da Bio High é idêntica ao site oficial da lipozepina

Em abril, a Anvisa publicou uma resolução em que determina o recolhimento de todos os produtos fabricados pela Guki Nutracêutica e proíbe a comercialização, distribuição, fabricação e propaganda. A medida cautelar foi motivada pelo descumprimento das regras de boas práticas de fabricação. Embora a medida continue ativa, a lipozepina segue sendo vendida e divulgada na internet.

Outra medida restritiva semelhante havia sido imposta pela Anvisa em setembro de 2020. Na época, o órgão verificou que a Guki Nutracêutica não cumpria, de maneira geral, os requisitos higiênicos e sanitários, a presença de matérias-primas e de produtos finais vencidos, substâncias que poderiam adulterar os alimentos por elas fabricados, entre elas hormônios, e outras irregularidades.

A Anvisa informa que qualquer produto com propriedades terapêuticas, como a promessa de emagrecimento, só pode ser comercializado no Brasil com autorização da agência. A venda só pode ocorrer em farmácias ou drogarias, porque esses compostos são considerados medicamentos.

Direitos. Segundo o Procon-SP, condicionar a oferta de amostra grátis a uma assinatura mensal é uma prática abusiva. Nesse caso, o consumidor tem direito ao cancelamento imediato da assinatura e à devolução dos valores pagos. “Os consumidores devem solicitar imediatamente o cancelamento da assinatura e das cobranças e, caso a empresa se recuse, devem abrir reclamação no Procon”, orienta o órgão.

O órgão explica também que qualquer cobrança, seja de frete para o envio de amostras ou para uma “assinatura” mensal, só é legal se a informação for prévia, clara, precisa e ostensiva.

A oferta dos supostos emagrecedores também vai contra as boas práticas médicas. Em entrevista ao Aos Fatos, a presidente do departamento de Obesidade da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia), Maria Edna de Melo, afirmou que o uso de lipotril, lipotramina ou lipozepina não faz uma pessoa emagrecer.

“Não existe eficácia nem segurança comprovadas, muito menos avaliação de associação [médica]. Como é registrado como suplemento, não há um controle de qualidade para saber exatamente o que há dentro do produto”, diz a endocrinologista.

Em março, a SBEM e a Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica) já haviam se posicionado de forma conjunta contra o uso de “fórmulas emagrecedoras”, seja por conta própria ou por meio de prescrição médica. As entidades alertaram que não há qualquer evidência científica que justifique o uso de chás ou suplementos no tratamento da obesidade, e que essa abordagem deve ser abandonada.

Existem quatro medicamentos aprovados para o tratamento da obesidade pela Anvisa, avaliados em estudos clínicos de acordo com protocolos científicos rígidos: sibutramina, orlistate, liraglutida e a combinação de naltrexona e bupropiona, esta última ainda não comercializada no Brasil. De acordo com as sociedades especializadas, esses medicamentos devem ser utilizados somente com acompanhamento médico, e a prescrição deve ser associada a orientações de mudanças de estilo de vida.

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Referências:

1. Aos Fatos (Fontes 1, 2 e 3)
2. NIH
3. G1
4. Anvisa (Fontes 1, 2, 3 e 4)
5. Health Line
6. Reclame Aqui (Fontes 1, 2 e 3)
7. Facebook (Fontes 1 e 2)
6. Instagram (Fontes 1, 2 e 3)
7. Tik Tok
8. Web Archive (Fontes 1 e 2)
9. Google Trends
10. Vigilância Sanitária de Santa Catarina
11. SBEM

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