Vídeo recorre a informações falsas para atacar credibilidade de pesquisas eleitorais

Por Priscila Pacheco

18 de fevereiro de 2022, 14h57

Um vídeo no YouTube faz alegações falsas para desacreditar levantamentos de institutos tradicionais e promover uma enquete em que o presidente Jair Bolsonaro (PL) aparece em primeiro lugar em intenção de voto (veja aqui). O fato de o número de entrevistados em pesquisas ser baixo em relação ao total de eleitores não as torna “desonestas”, já que elas usam amostragem qualificada. Tampouco procede que a parcela de pessoas ouvidas seja a mesma em todos os estados. A quantidade considera o tamanho do eleitorado local.

Veiculado originalmente no canal do youtuber bolsonarista Celio Lobo, o conteúdo enganoso reunia ao menos 89 mil visualizações no YouTube, 2.779 compartilhamentos no Facebook e também circulava no Twitter nesta sexta-feira (18).


Selo falso

Os mais famosos institutos de pesquisa, quando fazem e divulgam suas análises, entrevistam no máximo 2 mil ou 3 mil pessoas em todo o país. Lembrando ainda que o país tem 26 estados e um distrito federal e que, se dividíssemos essas famosas e certeiras pesquisas científicas, com toda a ironia possível, que o consórcio de imprensa liderado pela Rede Globo divulga, pelo número de pessoas entrevistadas em cada estado, isso é 3 mil dividido por 26, que é igual a 115 pessoas entrevistadas em cada estado. Isto mesmo, 115 pessoas por estado é o que entrevistam e dizem que tudo é científico e chegam a um resultado final dizendo que fulano é o vencedor.

Vídeo promove enquete e ataca pesquisa de institutos tradicionais

O vídeo publicado pelo youtuber Celio Lobo engana ao apontar que o fato de institutos entrevistarem uma parcela pequena de pessoas em relação ao eleitorado seria uma prova de que as pesquisas de intenção de voto não são confiáveis. A proporção menor de entrevistados ante o total de eleitores é estatisticamente apropriada em levantamentos que utilizam método por amostragem, de acordo com especialistas ouvidos por Aos Fatos.

O cientista político e professor da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Henrique de Castro explica que o método por amostragem empregado nos levantamentos funciona como o de um hemograma: não é preciso colher todo o sangue do paciente, mas uma fração representativa, para obter um resultado preciso. Assim como em um laboratório de análises clínicas, o material de pesquisas eleitorais precisa, portanto, ser coletado, medido e armazenado por profissionais qualificados e em ambientes adequados.

João Francisco Meira, presidente do Comitê de Opinião Pública da Abep (Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa) e do Instituto Vox Populi, afirma que amostras entre 2.000 e 3.000 pessoas, como as citadas no vídeo checado, resultam atualmente em pesquisas com 95% de confiança e margens de erro entre três e quatro pontos percentuais.

Também não procede a afirmação feita no vídeo de que as pesquisas entrevistariam o mesmo número de pessoas em todos os estados, desconsiderando o tamanho do eleitorado local. Levantamentos eleitorais seguem regras para obter uma amostra representativa da população, como a presença de entrevistados em diversos estados e municípios e cotas proporcionais de sexo, idade e renda familiar de acordo com cada local.

Os institutos sorteiam municípios, setores censitários — critério utilizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) para dividir a população — e, dentro deles, as pessoas a serem entrevistadas. Ao contrário de enquetes online, como a promovida pelo vídeo checado, não parte do entrevistado a atitude de responder a uma pesquisa de opinião.

O questionário a ser aplicado na pesquisa eleitoral também é avaliado e testado, para observar se as perguntas induzem a opinião do entrevistado. Ao final, uma equipe de estatísticos analisa os dados coletados para medir os resultados e as margens de erro.

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No vídeo checado, é mencionada uma enquete com 68.948 votos feita por um site, sem dar informações sobre o critério de escolha dos participantes e as perguntas feitas. Nela, o presidente Jair Bolsonaro (PL) apareceria em primeiro lugar nas intenções de voto para as eleições deste ano. Até a publicação desta checagem, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) liderava todos os levantamentos feitos por institutos de pesquisa.

As enquetes online têm elementos que impedem uma amostra fidedigna às características gerais de um país, como a necessidade de conexão à internet e a adesão voluntária dos questionados, segundo os especialistas ouvidos por Aos Fatos. Dessa forma, grupos mais engajados por uma causa ou candidato tendem a participar mais que outros.

A Resolução 23.600/2019 do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que regulamenta as pesquisas eleitorais, descreve enquetes como “levantamento de opiniões sem plano amostral, que dependa da participação espontânea do interessado, e que não utilize método científico para sua realização”.

O TSE exige, por exemplo, que as pesquisas eleitorais sejam registradas e que informem os dados do contratante, os recursos gastos, qual questionário será aplicado, a metodologia e o estatístico responsável. Os registros ficam disponíveis no site do tribunal.

Segundo outra resolução do TSE, de 2021, quem divulgar pesquisas não registradas, como enquetes de internet, dias antes das eleições pode ser punido. Em 2020, a data-limite para a divulgação desse tipo de consulta foi 27 de setembro, cinco dias antes do primeiro turno.

Aos Fatos entrou em contato com o canal Célio Lobo, produtor do vídeo desinformativo, mas não recebeu retorno até a publicação da checagem.

Referências:

1. UERJ
2. Geofusion
3. IBGE
4. TSE (Fontes 1 e 2)


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