Defensores da cloroquina impulsionam discurso antivacina no Twitter

Por Marina Gama Cubas e João Barbosa

28 de julho de 2020, 18h57


Defensores do uso da cloroquina contra a Covid-19 têm impulsionado o discurso antivacina nas redes sociais com o avanço nas pesquisas de imunizações contra o novo coronavírus — duas já estão sendo testadas em voluntários no Brasil. Análise do Radar Aos Fatos aponta que quase a metade (47%) dos tweets mais populares contrários às vacinas postados desde junho citou o antimalárico como alternativa para a cura da doença, apesar da falta de evidências de sua eficácia.

Para o levantamento, foram coletados 1,2 milhão de tweets com termos relacionados a vacinas e o novo coronavírus publicados entre 4 de junho e 22 de julho — período que abrange o primeiro anúncio de parceria para a produção da imunização e o início dos testes no Brasil. O Radar Aos Fatos, então, filtrou os conteúdos com críticas e questionamentos sobre as vacinas que reuniam mais de 100 curtidas e compartilhamentos e chegou a 123 tweets. Desse total, a defesa da cloroquina apareceu em 58 postagens (47%).

O que predomina entre essas publicações é a alegação de que seria mais seguro tomar um remédio que existe há muito tempo do que se voluntariar para uma vacina ainda em desenvolvimento. Apesar de existir há 80 anos, o antimalárico não se provou eficaz contra a infecção pelo novo coronavírus.

Duas vacinas são testadas no momento em voluntários brasileiros, uma desenvolvida pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, outra produzida pela empresa chinesa Sinovac Biotech. As testagens foram aprovadas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e, nos dois casos, fazem parte da terceira e última fase de testes em humanos.

De forma geral, o questionamento sobre quem teria coragem de testar as vacinas foi identificado em 16% das 123 publicações críticas à imunização. Já o discurso que coloca em xeque se as vacinas funcionam esteve presente em 14%.

Entre as postagens que questionam a eficácia da vacina também constam pedidos para que as autoridades sejam as primeiras a testá-las, sugerindo que a imunização poderia causar efeitos colaterais.

Vacina-alvo. Apesar de seguir um processo rigoroso de testes e aprovação, as vacinas são alvo de questionamentos e teorias da conspiração que perpassam, principalmente, posicionamentos ideológicos. Como o Aos Fatos já mostrou, antes mesmo de ser testada em humanos, as imunizações são avaliadas em células em laboratório e em animais. Todo o processo é acompanhado por agências reguladoras, caso da Anvisa no Brasil.

Ainda assim, a CoronaVac, desenvolvida pela Sinovac Biotech e que está sendo testada em São Paulo, é alvo preferencial das críticas nas redes. Das 123 publicações analisadas, 93 a citavam, na maior parte das vezes com a alegação de que a cloroquina seria mais confiável que uma vacina proveniente da China. Em outros casos, a crítica se referia ao fato o país ser comunista ou continha teorias da conspiração sobre a origem do vírus.

Desde o início da pandemia, a China figura como tema de conteúdos enganosos nas redes. Checagens feitas por Aos Fatos também já demonstraram que o governador João Doria (PSDB) é um dos personagens mais citados em peças de desinformação do tema. No caso da CoronaVac, portanto, ocorre novamente o encontro de duas narrativas de desinformação

Já a vacina da britânica Universidade de Oxford, testada em parceria com a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), foi citada apenas em 12 postagens com críticas à imunização.

Política e ataques. O crescimento e a diminuição das críticas sobre as pesquisas com vacinas e comparações com a cloroquina ocorreram, em geral, a depender das decisões políticas de diferentes esferas e de divulgações sobre a evolução das pesquisas. Segundo a análise de Radar Aos Fatos, quase 80% dos tweets com críticas a vacinas contêm uma narrativa política que critica as decisões sobre as testagens, financiadores e posições político-ideológicas daqueles que defendem as pesquisas das imunizações.

As críticas e a disseminação de conteúdos de baixa qualidade sobre as vacinas tiveram seu pico na semana de 11 a 17 de junho, quando Doria anunciou a parceria com a Sinovac para o desenvolvimentos da vacina. Dos 123 conteúdos analisados, 55 foram publicados após a fala do governador paulista.

O tweet mais popular nesse período foi publicado pelo ex-deputado Roberto Jefferson, investigado no inquérito das "fake news" aberto pelo STF (Supremo Tribunal Federal) e que teve seu perfil suspenso no Brasil última sexta-feira (24).

Em seguida aparece uma publicação de Bernardo Küster, que também coloca a vacina sob o espectro político e a compara com a cloroquina. O blogueiro é outro investigado no inquérito do STF que apura disseminação de desinformação e ataques contra a instituição.

Antes do anúncio da parceria de Doria com a empresa chinesa, as postagens negativas sobre as vacinas contra o coronavírus costumavam citar personagens fora do espectro político brasileiro, como Bill Gates e George Soros, ou mesmo o empresário João Paulo Lemann.

As postagens críticas às imunizações voltaram a crescer quando a Universidade de Oxford anunciou que os testes indicaram que a sua vacina é segura e teve bons resultados nas fases iniciais, e o governo de São Paulo começou os primeiros testes com a vacina da Sinovac.

Metodologia

O Radar Aos Fatos coletou por meio da API pública do Twitter 1,2 milhão de publicações entre o dia 4 de junho e 22 de julho que continham menções à coronavírus ou Covid-19 e vacina. Para a análise, foram selecionados os tweets mais populares (curtidas + retweets), com interação igual ou superior a 100, que somaram um total de 1.736 postagens.

Em seguida foram filtrados apenas os posts que continham conteúdos críticos a vacinas ou que colocavam em dúvida a seriedade de seu desenvolvimento. Nessa seleção, foram encontrados 123 tweets.

Eles, então, foram separados em sete semanas, de acordo com a data de publicação de cada um. A categorização dos tweets bem como a análise do conteúdo desinformativo foram feitas de maneira manual pela equipe do Radar Aos Fatos. Os tweets mais populares de cada período foram categorizados sob os seguintes critérios: 1) origem da vacinas; 2) categoria, que poderia ser comparativo, questionamento, eficácia, negação etc.; e 3) fundo, que indicava se havia alguma outra temática por trás do conteúdo, como defesa da cloroquina, política, preconceito etc.

O período analisado foi dividido em sete semanas: 4 a 10 de junho; 11 a 17 de junho; 18 a 24 de junho; 25 de junho a 1º de julho; 2 a 8 de julho; 9 a 15 de julho; 16 e 22 de julho.

sobre o

Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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