Em três meses, desinformação sobre Covid-19 foi de cura milagrosa à politização do isolamento

Por Amanda Ribeiro

30 de abril de 2020, 11h38


Desde o início da pandemia, a desinformação nas redes sociais sobre a Covid-19 passou de falsas promessas de cura a ataques ao distanciamento social adotado pelos estados para conter o novo coronavírus, concluiu o Aos Fatos ao analisar as 82 checagens que já publicou sobre o tema. O teor político das postagens enganosas verificadas acentuou-se a partir de abril, em meio à evolução de casos e mortes pela doença no Brasil.

Para fazer a análise, Aos Fatos organizou as checagens sobre Covid-19 publicadas entre 28 de janeiro e 28 de abril em duas categorias básicas: saúde e política. Até o dia 16 de março, informações falsas vinculadas a aspectos sanitários predominaram (57% de todas as verificações sobre o novo coronavírus no período). Mas, a partir de 1º de abril, ganham maior espaço peças de desinformação inseridas na disputa política gerada pela pandemia no Brasil (92% das checagens publicadas neste intervalo).

A seleção do conteúdo a ser checado por Aos Fatos segue critérios como relevância, alcance e repercussão da desinformação nas redes. As publicações potencialmente enganosas são detectadas por meio de monitoramento sistemático de Facebook, Instagram, WhatsApp e Twitter. Saiba mais sobre o nosso método de checagem aqui.

Falsas recomendações de prevenção e promessas de cura contra a Covid-19 (94%) predominaram entre as peças de desinformação checadas relacionadas à saúde. Essas publicações checadas traziam, em sua maioria, receitas caseiras que supostamente seriam eficazes contra a doença, como alimentos alcalinos, ou ingestão diária de vitamina C e água quente com limão.

Já a desinformação sobre medidas de isolamento adotadas para conter o vírus, espalhada nas redes com fins ideológicos, predominou entre os temas mais associados ao universo político (21%). Entre elas, destaca-se a notícia falsa de que a OMS (Organização Mundial da Saúde) teria recuado das recomendações de isolamento social, adotando uma linha de defesa da economia similar à apoiada pelo presidente Jair Bolsonaro.

Foram igualmente frequentes nessa categoria as checagens de peças desinformativas que falseavam fatos sobre a pandemia em outros países para reforçar narrativas políticas (21%). Destacam-se, nesse segmento, vídeos usados fora de contexto para sustentar a acusação xenófoba de que chineses estão propagando de propósito o novo coronavírus pelo mundo e posts com dados inexistentes de mortes de crianças na Itália difundidos para defender a manutenção das escolas fechadas.

Na seara política, os personagens mais atacados pelas peças de desinformação foram os governadores, responsáveis pela adoção das medidas de restrição de circulação. Em abril, nomes como João Doria (PSDB-SP), Wilson Witzel (PSC-RJ), Camilo Santana (PT-CE) e Rui Costa (PT-BA) figuraram como foco de seis peças checadas por Aos Fatos sobre a pandemia até o momento.

Conspiração. A primeira informação falsa checada pelo Aos Fatos sobre o novo coronavírus ganhou tração nas redes em janeiro: uma teoria da conspiração afirmava que o vírus havia sido patenteado em 2015 por um instituto de pesquisa britânico financiado pela Fundação Bill e Melinda Gates. A partir daí, passaram a predominar receitas falsas de cura ou prevenção contra a Covid-19 (40% das peças de desinformação checadas, ou duas de um total de cinco) e teorias da conspiração sobre a origem da doença (também 40% do conteúdo checado).

É importante ressaltar que, nessa época, a Covid-19 se concentrava principalmente na China e ainda não havia casos confirmados no Brasil. Talvez por conta disso, grande parte das peças desmentidas em janeiro tenha sido “importada” de outros países. Das cinco publicações verificadas naquele mês, quatro haviam circulado anteriormente em outras línguas e, então, adaptadas para português.

Em fevereiro, ainda sem casos da doença confirmados no país, o assunto saiu do foco da desinformação. Naquele mês, foram apenas duas checagens de conteúdos enganosos relacionados à Covid-19. Destas, uma já circulava em redes de outros países antes de desembarcar por aqui: o vídeo de um mercado de animais exóticos na Indonésia, apontado em publicações como o mercado de Wuhan que teria sido o epicentro inicial de disseminação do Sars-Cov-2 na China.

Em março, com a confirmação dos primeiros casos no Brasil, o número de publicações com informações enganosas sobre a Covid-19 cresceu gradativamente ao ponto de tomar toda a pauta do Aos Fatos. Das 50 checagens publicadas naquele mês, 36 eram diretamente relacionadas ao novo coronavírus -- 72% do total de verificações.

No início de março, predominaram nas redes postagens que anunciavam ingredientes milagrosos para curar ou prevenir a Covid-19: foram cinco checagens do tipo até o dia 18. Houve quem indicasse vinagre para assepsia das mãos e vitamina C e água quente com limão como forma de se proteger contra a infecção, ou ainda quem anunciasse a descoberta de vacinas por países como Cuba e Israel.

No entanto, à medida que Bolsonaro subiu o tom contra medidas de isolamento e propagar eficácia da cloroquina, ainda não comprovada, as o volume de postagens enganosas ganhou contornos políticos na segunda metade do mês. Entre 16 e 31 de março, Aos Fatos verificou 16 peças de desinformação que falseavam informações para criticar o isolamento social, alertar para uma suposta supernotificação de casos, apontar a China como criadora do coronavírus e subestimar a gravidade do surto no país.

Conteúdo nacional. A partir desse momento, passam a predominar publicações falsas essencialmente brasileiras: dentre as 36 checagens publicadas sobre coronavírus em março, apenas duas eram importadas, pois já haviam circulado em outros países. Uma delas mostrava a capa editada de um filme supostamente chamado “Coronavírus”, lançado na China em 2013. Aos Fatos verificou que se tratava, na verdade, da obra “Flu” (ou gripe, em tradução literal), lançada na Coreia do Sul em 2013.

Por fim, as postagens verificadas por Aos Fatos no mês de abril demonstraram a intensificação da politização da pandemia, com 7 das 41 peças de desinformação checadas naquele mês com ataques a políticos vistos como adversários pelo bolsonarismo.

Os principais alvos das críticas, como já demonstrado, foram os governadores. Desafeto do presidente Jair Bolsonaro, João Doria, de São Paulo, é, até o momento, o mais atacado, tendo sido alvo de duas peças de desinformação.

Exemplo disso é uma postagem desmentida no dia 20 de abril, que afirma que Doria teria desrespeitado medidas de isolamento para comparecer a uma festa no interior de São Paulo. A publicação compartilhava uma foto do governador em momento anterior à decretação da pandemia com a legenda: “Governador Doria em festa aqui em Araçatuba! Assim é fácil mandar o povo ficar em casa e você em festa”.

Vetor. O presidente Jair Bolsonaro amplificou duas peças de desinformação checadas em abril. A primeira foi um vídeo no qual um homem mostra a Ceasa de Contagem (MG) fechada para sugerir que haveria problemas de abastecimento no centro comercial devido às medidas de isolamento social adotadas em Minas Gerais. Na segunda, são apresentados trechos fora de contexto de uma fala do diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), Tedros Ghebreyesus, que dão a entender que o executivo seria contrário ao isolamento social.

Também predominaram dentre as checagens do mês de abril postagens críticas ao isolamento social (sete matérias) e com falsos alertas de supernotificação de casos de Covid-19 (oito reportagens).

Redes. Das 82 peças de desinformação checadas por Aos Fatos ao longo dos últimos três meses, 54 tiveram maior repercussão no Facebook. Isso se tornou especialmente evidente a partir do mês de março, quando 23 das 36 publicações checadas (63,8%) haviam sido publicadas na rede social. Em abril, o número saltou para 31 (75,6% do total).

Ao menos no início da pandemia, no entanto, a desinformação verificada vinha principalmente do WhatsApp. Correntes com falsos tratamentos e métodos de prevenção foram 3 das 5 (60%) postagens checadas em janeiro e 1 das 2 (50%) verificadas em fevereiro. Em março e abril, os números, apesar de crescerem em termos absolutos, diminuíram em termos proporcionais: foram oito peças checadas no primeiro mês (22,8%) e cinco no segundo (12,2%).

Colaborou Luiz Fernando Menezes.

Referências:

1. Aos Fatos (Fontes 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16 e 17)
2. Estado de Minas