Marcos Santos/USP Imagens

O que a ciência diz sobre os supostos tratamentos para a Covid-19 que circulam nas redes

Por Bruno Fávero

16 de julho de 2020, 16h40


Nomes de diferentes medicamentos têm circulado nas redes sociais como se eles fossem capazes de prevenir ou tratar precocemente casos de Covid-19. No entanto, alegações desse tipo, mesmo quando feitas por médicos, não têm respaldo científico.

Até agora, apenas dois remédios — a dexametasona e o remdesivir — mostraram efeitos contra o novo coronavírus em estudos randomizados (considerados os mais confiáveis) e ambos só foram eficazes em casos graves da doença, para pacientes internados.

Apesar disso, drogas como a cloroquina e a ivermectina continuam sendo indicados por políticos e até por profissionais de saúde, que não raro justificam a defesa usando estudos com problemas metodológicos ou evidências anedóticas, relatos de casos isolados que não têm validade científica.

Pensando nisso, resumimos abaixo o que concluíram os principais estudos científicos que já testaram medicamentos contra o novo coronavírus.

1. O que parece funcionar

A dexametasona, um corticoide, e o remdesivir, um antiviral desenvolvido contra o ebola, são as únicas drogas que até agora mostraram algum efeito contra a Covid-19 em estudos randomizados (considerados os mais confiáveis). No entanto, só há evidências de que eles funcionam para pacientes em estado grave, e as drogas não devem ser ingeridas por conta própria.

A dexametasona foi a descoberta mais importante porque conseguiu reduzir a mortalidade dos infectados, mostrou o projeto Recovery, maior ensaio clínico do Reino Unido, que também descartou a eficácia da hidroxicloroquina (leia mais abaixo).

No trabalho, 2.104 pacientes receberam a droga e tiveram sua evolução clínica comparada à de 4.321 pacientes em tratamento convencional. O medicamento reduziu em mais de 30% as mortes entre pacientes que precisaram de respirador e em 20% entre os que precisaram de oxigênio, mas sem intubação. Não houve efeito nos pacientes que não precisavam de ajuda para respirar.

Pesquisadores acreditam que, nos casos mais graves, a resposta imune do corpo contra o vírus pode contribuir para inflamar os pulmões e até levá-los a falhar. O corticoide ajudaria a combater essa inflamação, protegendo as vias respiratórias.

O remdesivir teve um resultado mais modesto: em ensaio clínico randomizado com 1.063 pacientes, a droga reduziu o tempo médio de internação dos pacientes de 15 para 11 dias e não afetou a mortalidade. Um estudo observacional (menos confiável que os randomizados) conduzido pela fabricante do medicamento indicou que ele também pode reduzir a mortalidade em pacientes graves, mas essa informação ainda precisa ser confirmada por novos ensaios.

Nas redes. Os resultados do estudo com a dexametasona têm sido usados para justificar protocolos que não têm comprovação científica, como o "tratamento precoce" sugerido por um alguns médicos brasileiros e rechaçado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e pelo Conselho Federal de Medicina.

À Jovem Pan o imunologista Roberto Zeballos, que faz parte desse grupo, disse que os medicamentos deveriam ser aplicados "um pouquinho mais cedo" e que "estamos falando [sobre os corticoides] há uns três meses, pareceu uma grande novidade, mas estamos fazendo há algum tempo".

Ele ignora, no entanto, que o Recovery mostrou justamente que o medicamento diminuiu a mortalidade de quem está em estado grave, mas não mudou a evolução dos casos mais leves.

2. O que parece não funcionar

Apesar de toda a discussão sobre a hidroxicloroquina, os quatro maiores estudos randomizados (considerados os mais confiáveis) publicados até agora apontam que o antimalárico não tem efeito contra o novo coronavírus. É por isso que a OMS (Organização Mundial da Saúde) interrompeu pesquisas com o medicamento, e organizações de médicos já se manifestaram contra seu uso. Mesmo assim, sua prescrição tem sido propagandeada pelo presidente Jair Bolsonaro, pelo presidente americano Donald Trump e por alguns médicos brasileiros.

O projeto Recovery, maior ensaio clínico randomizado do Reino Unido e que é conduzido por pesquisadores da Universidade de Oxford, deu a droga a 1.561 pacientes hospitalizados com Covid-19. Concluiu que ela não diminuiu a mortalidade e ainda aumentou ligeiramente o tempo de internação e o uso de respirador na comparação com os 3.132 pacientes que receberam tratamento convencional.

Em outro estudo, pesquisadores dos EUA reuniram 812 participantes para testar se ela preveniria o desenvolvimento da doença em pessoas que haviam acabado de se expor ao vírus. Concluíram, de novo, que não: a proporção de pessoas que desenvolveu sintomas foi praticamente a mesma tanto no grupo que tomou o remédio quanto no que recebeu tratamento convencional.

A terceira pesquisa foi feita na Espanha com 2.300 pessoas e, como a dos EUA, testou se a droga poderia ter um efeito profilático contra a Covid-19 após a exposição ao vírus. Os resultados detalhados ainda não foram divulgados, mas o pesquisador Oriol Mitjà, que coordena a iniciativa, já adiantou em entrevista que sua equipe também não encontrou efeitos benéficos do derivado da cloroquina.

Um quarto estudo randomizado — menor, de 150 pacientes com sintomas leves e moderados — conduzido por pesquisadores chineses que também não encontrou benefícios no uso do medicamento.

Nas redes. Quem defende a cloroquina frequentemente recorre a estudos observacionais, de menor confiabilidade, ou a relatos isolados de pacientes que tomaram a hidroxicloroquina, que não têm validade científica.

A pesquisa mais recente a atrair atenção foi realizada por médicos da rede de hospitais americana Henry Ford Health System e publicada em 1º de julho. No Brasil, o trabalho foi citado, por exemplo, em um vídeo do jornalista Alexandre Garcia que acumula mais de 300 mil visualizações.

Os pesquisadores analisaram dados de 2.541 pacientes e concluíram que aqueles que haviam tomado a hidroxicloroquina morreram com menos frequência (13%) do que os que receberam apenas tratamento convencional (26%).

No entanto, os próprios médicos admitem no artigo que são necessários mais "estudos prospectivos para examinar esse efeito" e, além disso, outros cientistas apontaram falhas na pesquisa. A mais relevante é que o grupo que tomou a cloroquina teve uma chance duas vezes maior de também ter recebido estereoides durante a internação. É possível que isso tenha distorcido os resultados porque, desde o mês passado, sabe-se que um medicamento dessa classe, a dexametasona, pode diminuir a mortalidade da Covid-19 (leia mais abaixo).

Outras pesquisas citadas incluem o antibiótico azitromicina, mas também não há evidências de a combinação das drogas faça diferença. Trabalhos citados por defensores da cloroquina que mencionam o medicamento, como os trabalhos do infectologista francês Didier Raoul, foram criticadas por limitações metodológicas sérias, como, por exemplo, não ter um grupo de controle para comparar com pacientes que tomaram o remédio.

3. Sem evidências de que funcione

Também não há evidências de que os vermífugos ivermectina e nitazoxanida (Annita) sirvam para prevenir ou tratar a Covid-19, como o Aos Fatos já mostrou em ao menos cinco checagens (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).

Até agora não há resultados publicados de estudos clínicos relevantes com nenhum dos dois medicamentos, embora haja dezenas em andamento no mundo todo — a plataforma ClinicalTrials registra trinta e três que investigam a ivermectina e 16 sobre a nitazoxanida.

No caso da ivermectina, um estudo observacional que apontou efeitos positivos chegou a ser publicado como preprint (trabalho sem revisão por pares), mas foi excluído depois que cientistas encontraram problemas em outros artigos que haviam utilizado a mesma fonte de dados.

Para serem considerados eficazes e seguros por autoridades, medicamentos precisam ser testados em ensaios clínicos que envolvam pelo menos algumas centenas ou até milhares de pacientes, segundo a Sociedade Brasileira de Pesquisa Clínica.

Além de não serem eficazes, os remédios podem ter efeitos colaterais se mal utilizados. Segundo a professora da Unicamp Raquel Stucchi, ouvida pelo Aos Fatos, a ivermectina, por exemplo, não deve ser tomada por pacientes com meningite ou outras doenças que atingem o sistema nervoso.

Origem. A comoção em torno de ambas as drogas começou depois que elas se mostraram eficazes contra o novo coronavírus em estudos in vitro, ou seja, em amostras de laboratório. A primeira foi testada por pesquisadores australianos, a segunda em trabalho anunciado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia.

Esse tipo de teste costuma ser usado para aferir se um medicamento já conhecido tem potencial para combater uma nova doença, processo chamado de reposicionamento de fármaco. Mas nada garante que os efeitos, se detectados, se repetirão em organismos mais complexos, como o corpo humano.

No caso dessas duas drogas, mesmo os resultados in vitro têm sido questionados por estudos recentes. Dois artigos mostraram que a concentração de ivermectina no corpo humano não chegaria nos níveis testados pelos pesquisadores australianos nem mesmo com a ingestão de uma dose dez vezes maior do que a recomendada hoje. Outra pesquisa em laboratório, realizada na USP, mostrou que tanto ivermectina quanto a nitazoxanida matam o novo coronavírus, mas também as células saudáveis — o que, segundo os pesquisadores, indicaria que elas não são promissoras para tratar a doença.

Nas redes. Apesar da falta de evidências, os medicamentos, especialmente a ivermectina, têm sido assunto de postagens e vídeos nas redes sociais, como os que exaltam a experiência de Porto Feliz (SP).

A prefeitura da cidade paulista está distribuindo um "kit covid" que inclui cloroquina e ivermectina para pessoas com suspeita de Covid-19. Com a medida, o prefeito Cassio Prado (PTB) diz ter controlado a pandemia. Na realidade, porém, os números são piores do que a média de municípios do mesmo porte, como mostrou o site Questão de Ciência.

No YouTube ainda há vídeos populares de médicos dando instruções e explicando o suposto mecanismo pelo qual os medicamentos agem. Um exemplo são dois vídeos com médica Lucy Kerr que acumulam mais de um milhão de visualizações cada.

4. Outras drogas e tratamentos sem evidências

Além das drogas já citadas, o Aos Fatos já checou uma série de promessas de cura para a Covid-19 que não têm comprovação científica. A lista até agora inclui AAS, aspirina, acetilcisteína, chá de boldo, chá de erva doce, chá de quina quina, vitamina C e água com limão, vitamina D e zinco, gargarejo com sal ou vinagre, auto-hemoterapia, uma suposta vacina americana, uma suposta vacina israelense , entre outros.

Referências:

1. MedRxiv 1 e 2
2. New England Journal of Medicine 1 e 2
3. Gilead
4. Estadão
5. Aos Fatos 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7
6. CNN Brasil
7. Sociedade Brasileira de Infectologia
8. Recovery Trial
9. Clinical Trials 1 e 2
10. ScienceMag
11. British Medical Journal
12. International Journal of Infectious Diseases 1 e 2
13. SSRN
14. UOL
15. Sociedade Brasileira de Profissionais em Pesquisa Clínica
16. Consulta Remédios
17. Science Direct
18. Europe PMC
19. American Society for Clinical Pharmacology and Therapeutics
20. Jornal da USP
21. Revista Questão de Ciência

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