Marcelo Camargo / Agência Brasil

Como 14 canais punidos pelo TSE amplificaram narrativas pró-voto impresso no YouTube

Por Amanda Ribeiro, Cecília do Lago, Débora Ely, João Barbosa, Marco Faustino e Priscila Pacheco

18 de agosto de 2021, 12h43

Os 14 canais de YouTube impedidos por decisão do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) de arrecadar recursos pela plataforma desempenharam papel expressivo no engajamento de narrativas a favor do voto impresso na semana em que a Câmara dos Deputados enterrou a proposta. Em comum, esses youtubers alimentaram desinformação de que as urnas não são auditáveis, suspeitas infundadas de que a votação foi fraudada e ataques a ministros do STF (Supremo Tribunal Federal). A maioria ainda estimula nos vídeos que a audiência faça doações por meio de transferências bancárias ou sites de vaquinhas online.

Nesta segunda-feira (16), o corregedor-geral do TSE, ministro Luis Felipe Salomão, determinou que YouTube, Twitter, Facebook, Instagram e Twitch suspendam a monetização de uma série de perfis e canais suspeitos de disseminar desinformação sobre o sistema eleitoral brasileiro. O magistrado também estabeleceu que as plataformas informem ao tribunal em até 20 dias o faturamento dessas páginas. Veja aqui o que dizem os envolvidos.

Somente no YouTube, os 14 canais listados pelo TSE somam 1,4 bilhão de visualizações. Aos Fatos analisou parte dos vídeos que eles veicularam na semana e, de fato, como alega o tribunal, desinformação sobre a segurança das urnas eletrônicas predominou entre os conteúdos tendo aparecido em ao menos 11 vídeos, que alcançaram 600 mil visualizações. O discurso é alinhado ao do presidente Jair Bolsonaro.

Em vídeo com 90 mil visualizações publicado no dia seguinte à derrota da PEC do voto impresso, por exemplo, o Vlog do Lisboa reproduziu informação falsa de que as urnas atuais são idênticas às de 1996. O apresentador Fernando Lisboa também transmitiu uma gravação em que Bolsonaro questiona a integridade dos equipamentos do TSE.

O canal Folha Política também contribuiu para a disseminação de desinformação ao reproduzir em seus vídeos trechos de discursos de parlamentares bolsonaristas pró-voto impresso. Foi publicada, por exemplo, uma gravação em que a deputada federal Caroline de Toni (PSL-SC) diz que o voto eletrônico não é auditável e que a contagem dos votos no Brasil não é pública, ambas informações falsas. O vídeo acumula 23 mil visualizações.

O Jornal da Cidade Online foi outra página que seguiu nessa linha e, no dia da votação da PEC, estampou uma entrevista com o deputado federal Coronel Tadeu (PSL-SP) com o enunciado “Coronel Tadeu detona urnas eletrônicas”. Com mais de 23 mil visualizações, o vídeo propaga uma fala do parlamentar de que o equipamento não passa hoje por “nenhum processo de auditoria”, o que também não procede.

Já o youtuber Oswaldo Eustáquio afirmou em uma publicação no último dia 10 que, depois do sepultamento da proposta, “nós vamos ter eleições com fraude novamente”. Desde a implementação das urnas eletrônicas, entretanto, não foi registrado nenhum caso de fraude eleitoral.

Suspeitas de fraude

Após a derrota, alguns canais se empenharam em espalhar uma suspeita não comprovada de que o sistema da Câmara teria sido alvo de fraude durante a votação da PEC. Com 55 mil visualizações, vídeo do canal Alberto Silva questionou a lisura do processo de votação ao mencionar uma gravação em que o deputado federal e ex-ministro do Turismo Marcelo Álvaro Antônio (PSL-MG) afirma não ter conseguido computar seu voto.

Silva se aproveitou da denúncia para tentar estabelecer uma conexão entre o sistema de votação da Câmara e a urna eletrônica brasileira. “É assim que querem confiar, que querem que a população confie no sistema de votação que é meramente eletrônico?”, questionou.

O influenciador Roberto Boni também repercutiu a fala de Álvaro Antônio no canal Universo Filial para sugerir a ocorrência de fraude. Em vídeo com cerca de mil visualizações, Boni cobrou que deputados bolsonaristas se reunissem para solicitar uma nova votação da PEC: “Muitos deputados federais não conseguiram votar. Isso seria uma espécie de sabotagem?”.

Ataques a magistrados

Aos Fatos identificou ainda ataques a ministros do STF em vídeos publicados em ao menos 10 das 14 páginas. No dia 11 de agosto, o canal Ravox investiu contra o STF e alcançou cerca de 8.000 visualizações. “Se quiser derrubar em definitivo a cleptocracia absolutista reinante, eivada de safardanas paramentados de togas ou gravatas, terá que ser assim. O diálogo parece que não funciona mais”, afirmou o youtuber no vídeo, em uma alusão à destituição dos magistrados.

O Jornal da Cidade Online obteve 91 mil visualizações em um vídeo no qual o presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, preso na semana passada, diz que é preciso "tomar atitude" contra os ministros e “limpar o Supremo”.

Ganhou fôlego entre os canais ainda a descontextualização de uma fala do ministro Luís Roberto Barroso dita em tom de piada sobre as eleições em Roraima, como o Radar Aos Fatos mostrou na semana passada. Allan dos Santos, do canal Terça Livre TV, e Oswaldo Eustáquio usaram o episódio para insinuar que o ministro havia anunciado uma intenção de golpe. “Eu queria estar numa TV aberta agora mostrando isso daqui para a população brasileira”, disse Santos. “Vocês entenderam, meus amigos, o que ele falou? Eleição não se ganha, se toma. Isso é golpe”, sugeriu Eustáquio.

Desejo de intervenção

Alguns youtubers listados na decisão do TSE também defenderam que Bolsonaro usasse o artigo 142 para acionar as Forças Armadas em resposta à rejeição da PEC, o que é falso porque a Constituição não permite tal possibilidade. No canal Universo Filial, Roberto Boni afirmou que é preciso “pedir, solicitar que o presidente Bolsonaro acione o poder moderador, as Forças Armadas para salvarmos as nossas instituições”.

Discursos de apoio a um golpe militar foram encontrados ainda no canal de Oswaldo Eustáquio. Ao atacar o STF em vídeo publicado no dia 10 de agosto, por exemplo, ele ameaçou: “E se acontecer alguma coisa em [protestos marcados para] setembro, não é culpa de Bolsonaro. E tudo indica que a corda, o cordão já era. Acabou o cordão. Tava por um fio, agora não tá mais por um fio”.

Monetização

Na decisão de segunda-feira, o ministro Salomão destacou que “o impulsionamento de denúncias e de notícias falsas acerca de fraudes no sistema eletrônico de votação (...) tem o potencial de comprometer a legitimidade das eleições”. O inquérito administrativo instaurado pelo TSE investiga a articulação de uma rede de pessoas que disseminam desinformação sobre o processo eleitoral e o eventual abuso de poder econômico e político.

Uma das estratégias de financiamento adotada pela maioria dos canais antes mesmo da suspensão da monetização pelo TSE é o pedido de doações às pessoas que os assistem.

Em 11 canais (Alberto Silva, Canal Universo Filial, Direto Aos Fatos, Jornal da Cidade Online, O Giro de Notícias, Oswaldo Eustáquio, Universo, Ravox, Terça Livre TV, Vlog do Lisboa e Vlog do Fernando Lisboa Replay), Aos Fatos constatou que os youtubers informam durante os vídeos seus dados bancários, senhas de PIX e links de sites de vaquinhas online para que sua audiência faça transferências bancárias.

Parte dos influenciadores argumenta que os repasses são necessários para que os canais se mantenham em atividade. Alguns deles, como O Giro de Notícias, alega que já foi desmonetizado pelo YouTube, medida tomada pela plataforma quando há reiterada violação às regras de uso.

O QUE DIZEM OS ENVOLVIDOS

Aos Fatos entrou em contato com os responsáveis pelos 14 canais que foram alvo da ação do TSE. Apenas Emerson Teixeira e Roberto Boni responderam ao pedido de posicionamento sobre as manifestações mencionadas nesta reportagem e sobre a decisão da corte.

“É muito triste o que o país está vivendo com todas essas perseguições. Não vou mudar minha postura nas postagens pois acredito nos meus direitos constitucionais. Espero que a ordem jurídica no país volte ao normal”, declarou Teixeira.

Roberto Boni, responsável pelas páginas Universo e Canal Universo Filial, disse que apenas reproduziu manifestações de parlamentares e que "os deputados não conseguirem votar a favor ou não [da PEC] é gravíssimo e demonstra falta de transparência e seriedade na votação". Também afirmou que não defende o fechamento do STF e do Congresso, mas que eles funcionem "normalmente e se respeitando", e que o pagamento de seus canais foi "confiscado" para uma conta do TSE "justo por estes equívocos".

Nas redes sociais, os demais donos dos canais se pronunciaram sobre o despacho do TSE. Em vídeo no YouTube, Ravox disse que não propagou "fake news" sobre as urnas eletrônicas. "Na verdade, eu sempre deixei muito claro. Não é nem que a gente desconfie das urnas. É uma questão de aprimorar, dar mais garantias à nossa democracia. Isso é crime no Brasil?".

No Twitter, o Folha Política informou que buscará meios legais de reverter o que chamou de censura. Já Oswaldo Eustáquio disse ser vítima de perseguição do TSE, um posicionamento semelhante ao de Alberto Silva, proprietário de um canal que utiliza seu nome e do O Giro de Notícias. O Jornal Cidade Online, por sua vez, classificou a decisão do TSE como “confisco”.

Bárbara Zambaldi Destefani, do canal Te Atualizei, afirmou que seu nome não consta em nenhum inquérito e que não foi apontada qualquer “fake news” relacionada ao seu canal. Ela disse também que a decisão teria sido uma forma de "calar sua voz".

O canal Terça Livre TV declarou que a decisão visa destruir canais de direita e que isso afetará o pagamento de funcionários, o que poderá levar ao encerramento da empresa.

Camila Abdo, do canal Direto aos Fatos, declarou que não havia problema em ter seu canal desmonetizado, porque sempre contou mais com ajuda por meio do PIX de seus seguidores, mas que acredita que a censura está institucionalizada no país.

Fernando Lisboa, proprietário dos canais Vlog do Lisboa e Vlog do Fernando Lisboa Replay, disse no Instagram que espera que a decisão seja derrubada.

Referências:
1. TSE
2. G1 (Fontes 1 e 2)
3. Aos Fatos (Fontes 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8)
4. Folha de S.Paulo
5. YouTube

Esta reportagem foi atualizada em 25 de agosto para incluir o posicionamento de Roberto Boni enviado por e-mail.

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Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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