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Bolsonaro deu 653 declarações falsas ou distorcidas sobre Covid-19 em seis meses de pandemia

Por Amanda Ribeiro e Ana Rita Cunha

11 de setembro de 2020, 17h57


Passados seis meses desde que foi decretada a pandemia de Covid-19, no dia 11 de março, o presidente Jair Bolsonaro deu 653 declarações falsas ou distorcidas sobre o novo coronavírus ou medidas adotadas pelo governo brasileiro no combate à infecção. É uma média de mais de três informações enganosas por dia apenas sobre o tema, de acordo com dados do contador do Aos Fatos que checa sistematicamente as falas do presidente.

Entre os dias 11 de março e 11 de setembro deste ano, foram verificadas 1.417 frases que abordavam de alguma maneira a pandemia. Bolsonaro usou desinformação principalmente para defender a cloroquina e para atacar a OMS (Organização Mundial da Saúde), governadores, prefeitos e o STF (Supremo Tribunal Federal).

A declaração enganosa mais repetida nesse período, por exemplo, foi a de que o Supremo impediu o presidente de tomar decisões para conter a pandemia. A frase, classificada como falsa ou imprecisa a depender da versão adotada por Bolsonaro, foi dita ao menos 63 vezes.

As falas falsas ou distorcidas também serviram para inflar ações do governo – aos menos cinco vezes, o presidente disse que teria gasto R$ 1 trilhão com medidas de combate ao novo coronavírus, mas o valor não passa de R$ 380 bilhões.

Decisão do STF. Em discursos, entrevistas, transmissões ao vivo e postagens nas redes sociais, algumas narrativas desinformativas foram mais repetidas pelo presidente. A frase mais frequente, por exemplo, que cita decisões do STF sobre a responsabilidade por medidas de enfrentamento da pandemia, faz parte de um discurso recorrente de Bolsonaro de culpar governadores, prefeitos e a corte pelos problemas decorrentes da disseminação do vírus no país.

Em suas declarações, Bolsonaro distorce o conteúdo das decisões do Supremo para sugerir que foi alijado de responsabilidade sobre as ações de contenção da pandemia. Ele omite, por exemplo, que os ministros definiram que algumas medidas competem apenas ao governo federal, como o fechamento de fronteiras terrestres – que chegou a ser adotado pelo governo – e de rodovias. Repetido inúmeras vezes, o argumento de Bolsonaro também passou a ser replicado por peças de desinformação com mais de 20 mil compartilhamentos nas redes sociais e que foram checadas por Aos Fatos.

Por causa dessa narrativa, Justiça também foi o tema associado a coronavírus em que, proporcionalmente, Bolsonaro deu mais declarações falsas ou distorcidas. Das 82 falas classificadas nessa categoria, 66 (80,5%) tinham informação enganosa – aqui foram incluídas as 63 vezes em que o presidente falou sobre as decisões do STF.

Imunidade de rebanho. A segunda desinformação mais recorrente no discurso do presidente é a de que os brasileiros estariam imunes à Covid-19 depois que “60%, 70% da população” tiver a doença. Nesses casos, em alguns momentos, Bolsonaro também afirma que 70% das pessoas serão contaminadas de qualquer maneira. Essa narrativa foi usada pelo menos 34 vezes para desqualificar a importância das medidas de isolamento e foi classificada como insustentável, pois ainda não há comprovação de que a população ficará imune ao novo coronavírus quando alcançar tal patamar de contágio.

As falas do presidente sobre imunidade de rebanho também desconsideram que um número grande de pessoas infectadas ao mesmo tempo demanda muitos recursos do sistema de saúde. Sem medidas de controle de contágio, o número de doentes pode ser maior do que o de leitos disponíveis, como aconteceu no Amazonas em abril, por exemplo.

Defesa da cloroquina. Sem eficácia comprovada contra a Covid-19, a cloroquina também foi um assunto recorrente entre as desinformações disseminadas pelo presidente. Como mostrou análise feita pelo Radar Aos Fatos, Bolsonaro foi quem mais impulsionou o antimalárico contra o novo coronavírus no Twitter brasileiro nos últimos seis meses.

O contador de checagens de declarações do presidente indica que, em suas postagens e discursos, Bolsonaro sustentou 21 vezes que o medicamento era eficaz no combate à Covid-19. Em outras 11, ele se contradisse ao admitir que não há comprovação científica da eficácia do remédio. Em nove ocasiões, o presidente afirmou, ainda, que a cloroquina era o único tratamento disponível para tratar a doença, o que não é verdade.

Ainda há pesquisas em andamento sobre o antimalárico, mas os quatro maiores estudos randomizados (considerados os mais confiáveis) publicados até agora apontam que ele, associado ou não a outras drogas, não tem efeito contra o novo coronavírus. Bolsonaro, como outros defensores do uso da cloroquina, frequentemente recorre a estudos observacionais, de menor confiabilidade, ou a relatos isolados, incluindo sua própria experiência, para sustentar a validade do remédio contra a Covid-19.

Críticas à OMS. Além da ciência, Bolsonaro também questionou em diversos momentos determinações da OMS (Organização Mundial da Saúde) e distorceu ao menos 26 vezes declarações de diretores da organização para apontar supostas contradições da entidade.

Um exemplo foi quando Bolsonaro passou a afirmar que a OMS teria se alinhado ao seu posicionamento de condenar o isolamento social. Para isso, o presidente distorceu 12 vezes uma fala do diretor-geral da entidade, Tedros Ghebreyesus, proferida em entrevista em 30 de março. Na ocasião, Ghebreyesus na verdade alertou que os governos devem considerar os impactos do confinamento sobre a população mais pobre, mas em nenhum momento defendeu o fim ou o relaxamento das medidas de isolamento.

Economia. Tema com maior número de declarações em termos absolutos (260 ou 18,3% do total de frases verificadas), as medidas econômicas adotadas pelo governo para mitigar os impactos da pandemia também foram alvo de distorções por parte do presidente.

Em ao menos 13 ocasiões, por exemplo, Bolsonaro inflou o valor mensal gasto pelo governo com o auxílio emergencial pago a trabalhadores informais e de baixa renda. Apesar de afirmar que a soma despendida por mês seria de R$ 50 bilhões, Aos Fatos verificou que a média de gastos (calculada dividindo-se os valores totais pelo número de meses em que o benefício foi pago) foi de R$ 42,5 bilhões até agosto e R$ 41,8 bilhões até julho.

O presidente também superdimensionou em ao menos seis ocasiões o gasto total do governo com a pandemia, que, segundo ele, teria chegado a R$ 700 bilhões ou R$ 1 trilhão. Na primeira ocasião em que o valor foi mencionado, no começo de julho, haviam sido despendidos cerca de R$ 200 bilhões. Na última menção, feita em agosto, o valor tinha chegado a R$ 273,8 bilhões, com previsão de gastos de R$ 510 bilhões. Ainda hoje, os valores estão bem abaixo dos mencionados pelo presidente: foram despendidos R$ 379,7 bilhões de um total previsto de R$ 570,7 bilhões.

Origem da desinformação. Seguindo uma tendência já observada em outros balanços feitos por Aos Fatos ao longo dos últimos meses, o presidente proferiu mais falas falsas ou distorcidas ao dar declarações espontâneas durante entrevistas e transmissões ao vivo nas redes sociais. Esses dois meios foram responsáveis por 396 (60,6%) das declarações consideradas falsas ou distorcidas.

Por outro lado, publicações do presidente no Twitter e no Facebook (excetuando-se as lives) foram a origem da maior parte das frases classificadas como verdadeiras: 313 declarações (40,9%). As postagens nesses meios, em geral, compartilham uma característica: têm uma linguagem mais protocolar, frequentemente reproduzindo trechos de notas oficiais de órgãos ou ministérios. Bolsonaro costuma, por exemplo, divulgar nas redes balanços semanais de ações de combate à pandemia e, muitas vezes, repete seguidamente os mesmos dados, como o número de beneficiados pelo auxílio emergencial.

Acertos. A declaração com informações corretas mais repetida, dita em 17 ocasiões, é a de que o risco de morte para pessoas abaixo dos 40 anos é baixo, excluídas as condições prévias de saúde. De fato, estudos recentes estimam que o risco de pessoas com menos de 50 anos de idade e que não têm condições preexistentes de apresentarem quadros graves da Covid-19 é baixo. É preciso, entretanto, considerar que essa parcela da população está suscetível a complicações e, mesmo com sintomas leves, pode transmitir a doença a outros.

Referências:

1. Aos Fatos (Fontes 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21 e 22)
2. Tesouro Transparente
3. Nexo
4. OMS