Isac Nóbrega/PR

Bolsonaro dá mais declarações falsas em entrevistas que em textos nas redes sociais

Por Amanda Ribeiro

9 de janeiro de 2020, 17h41


Em 2019, Jair Bolsonaro proferiu mais declarações falsas ou distorcidas em entrevistas do que em outros meios, como publicações nas redes sociais, aponta levantamento feito a partir das falas checadas e compiladas por Aos Fatos no contador de declarações do presidente. Nas conversas com jornalistas, o presidente errou 225 vezes; em publicações no Twitter e no Facebook (à exceção das transmissões ao vivo), foram 79.

Sozinhas, as lives semanais de Bolsonaro no Facebook foram responsáveis por 147 declarações falsas ou distorcidas. Se somadas aos erros em posts nas duas redes sociais, o montante (226) é equivalente ao das falas incorretas em entrevistas concedidas pelo presidente em 2019.

Ao todo, Bolsonaro deu 608 declarações falsas ou distorcidas nos doze primeiros meses do governo, o que equivale uma média de 1,6 por dia. Isso significa que, dentre as 1.067 frases checadas em 2019, 56% continham algum grau de distorção.

Os meses que mais concentraram essas declarações foram maio (67,3%) e junho (64,5%), quando estiveram em destaque no discurso presidencial o meio ambiente e armas. Naquela época, a Amazônia apresentou dados alarmantes de desmatamento, e o Congresso analisou o decreto que flexibilizava a posse de armamentos no país.

Racismo e questões de gênero e sexualidade foram abordados pelo presidente sempre de maneira distorcida ao longo de 2019. Todas as 14 declarações a respeito desses temas tinham distorções ou informações falsas (100%).

Foi o caso de quando Bolsonaro afirmou, em 12 de dezembro, que o conceito de família no Brasil seria formado apenas por “um homem e uma mulher”. Mesmo que o artigo constitucional 226 diga que "é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar", o STF (Supremo Tribunal Federal) reconhece constitucionalmente desde 2011 que família também abarca a união entre pessoas do mesmo sexo.

Bolsonaro também propagou mais informações falsas ou distorcidas ao falar sobre ditadura (90% das declarações), ideologia política (90%) e imprensa (88,9%).

Falas verdadeiras. Há temas, no entanto, sobre os quais o presidente Bolsonaro mais acertou do que errou. Quando ele abordou assuntos vinculados à articulação política do governo no Congresso Nacional, 72,1% das declarações foram verdadeiras. Uma das explicações para o índice assertivo é o fato de que anúncios sobre ações elaboradas pelo próprio governo, como o envio de projetos para a Câmara ou o Senado ou a aprovação de determinadas medidas, são compilados por Aos Fatos com esse rótulo.

Foi checada como verdadeira, por exemplo, a afirmação de que o partido Novo apoiava integralmente o governo com relação à reforma da Previdência. A declaração foi dada em discurso realizado no dia 29 de abril.

Bolsonaro deu mais declarações provadas verdadeiras ao falar de economia (56,7% das checagens), do atentado a faca que sofreu em Juiz de Fora (MG) (56,7%) e de segurança pública (55,6%).

Em economia, observar o contexto e os meios em que foram proferidas as declarações de Bolsonaro ajuda a entender o maior grau de acertos do presidente. As declarações verdadeiras se concentraram em posts no Twitter de cunho institucional (48,4%), como anúncio de ações e balanços do governo ou de indicadores econômicos. Os erros, por sua vez, foram mais comuns quando o presidente abandonou o tom oficial, o que aconteceu com mais frequência em discursos e entrevistas (49,1%).

Erros repetidos. A declaração falsa mais recorrente de Bolsonaro em 2019 foi a de que a escolha de seu ministério atendeu apenas a critérios técnicos. Com poucas variações, o argumento foi repetido 13 vezes - a primeira no discurso de posse, em 1º de janeiro, e a última no pronunciamento de Natal, em 24 de dezembro.

Na verdade, ainda que não tenha recorrido a alianças formais com as lideranças partidárias no Congresso Nacional, Bolsonaro seguiu critérios essencialmente políticos ao montar o time de ministros, tendo atendido a apelos de bancadas temáticas parlamentares, como a do agronegócio, que indicou a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, do DEM. Os exemplos seguem com Ricardo Salles, do Meio Ambiente, também avalizado pelos ruralistas, e Damares Alves, indicação de políticos evangélicos.

O segundo erro mais repetido pelo presidente foi uma imprecisão sobre o tamanho do território brasileiro que é ocupado por terras indígenas. Bolsonaro repetiu ao menos sete vezes que seriam 14% da área total do país quando, na realidade, são 12,6%, segundo a Funai (Fundação Nacional do Índio).

A contabilidade das declarações do presidente Bolsonaro é feita diariamente pela equipe do Aos Fatos — que mapeia canais oficiais, redes sociais e meios de comunicação — e publicada nesta base de dados. A organização do contador de declarações parte de uma ideia concebida originalmente pelo Fact Checker, tradicional coluna de checagem do jornal americano Washington Post.

Referências:

1. Aos Fatos (Fontes 1, 2, 3 e 4)
2. O Globo
3. G1
4. STF
5. Folha de S.Paulo
6. Washington Post


Esta reportagem foi atualizada às 12h04 do dia 10 de janeiro de 2020 para corrigir o número de declarações dadas por Bolsonaro em discursos e entrevistas. Um discurso havia sido classificado como entrevista, o que afetou a contagem final. As conclusões da matéria, no entanto, permanecem as mesmas.