Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Reinfecção, anticorpos e células T: o que se sabe até agora sobre a imunidade à Covid-19

Por Bernardo Barbosa

25 de agosto de 2020, 13h37


Já se passaram cinco meses desde que a OMS (Organização Mundial de Saúde) declarou que estávamos vivendo a pandemia de Covid-19. Para quem foi obrigado a se isolar em casa e ficar longe de parentes e amigos, é bastante tempo; mas ainda é pouco para a ciência conseguir saber detalhes sobre a imunidade para a doença provocada pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2).

A recente confirmação do primeiro caso comprovado de reinfecção por Covid-19, em Hong Kong, lança novas dúvidas sobre a duração e a eficácia da imunidade de pessoas que já contraíram a doença. Também não descobrimos ainda ao certo qual o poder das células T na resposta do corpo ao novo coronavírus, dentro da chamada imunidade cruzada.

Não há uma estimativa mais precisa de qual o potencial de transmissão do vírus a partir de uma pessoa infectada (taxa de transmissão), assim como quantos de nós precisamos estar imunes para que o Sars-CoV-2 pare de circular. E falta o principal: uma vacina, a maior garantia de imunização segura em larga escala.

As incertezas naturais do processo de pesquisa científica são um prato cheio para desinformação, ainda mais quando queremos tantas respostas em pouco tempo sobre algo tão novo.

Na terça-feira (18), por exemplo, o Aos Fatos publicou checagem mostrando não ser verdade que um estudo concluiu que a maioria das pessoas é imune à Covid-19. O texto falso foi publicado pelo presidente Jair Bolsonaro em sua página no Facebook.

Apesar do pouco tempo, a ciência já conseguiu respostas importantes, mesmo que iniciais e nem sempre precisas, sobre como o vírus age e como o corpo humano responde a ele. Abaixo, contamos o que se sabe a respeito dos quatro tópicos em que pairam mais dúvidas: reinfecção, defesas do corpo, imunidade cruzada e imunidade de rebanho.


Reinfecção

Na segunda-feira (24), pesquisadores da Universidade de Hong Kong anunciaram ter comprovado, pela primeira vez, um caso de reinfecção por Covid-19, noticiou a Bloomberg. Segundo os cientistas, a pesquisa foi aceita para publicação pelo Clinical Infectious Diseases, periódico científico que é referência sobre doenças contagiosas. No Brasil, a USP e a Fundação Oswaldo Cruz investigam 20 suspeitas de reinfecção, segundo o Estadão.

Segundo Raquel Stucchi, infectologista, professora e pesquisadora do Departamento de Clínica Médica da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), ainda é difícil saber qual será o tamanho do impacto desta descoberta. “Nós não sabemos ainda o quanto ela [a reinfecção] vai ser frequente, por exemplo”, diz.

Para Daniel Mansur, professor de imunologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e membro do Comitê Científico da SBI (Sociedade Brasileira de Imunologia), a pesquisa de Hong Kong mostra que há possibilidade de reinfecção, “mas parece ser raro”.

Segundo os responsáveis pela pesquisa, um homem de 33 anos foi infectado por uma linhagem diferente do Sars-CoV-2 menos de cinco meses após o primeiro contágio. De acordo com Mansur, a detecção de uma outra linhagem do vírus é o que reforça a existência de uma nova infecção.

Com a confirmação deste caso, aumenta a incerteza também sobre quanto tempo dura a imunidade de uma pessoa que pegou Covid-19, assim como sobre o papel dos mecanismos de defesa do corpo contra o vírus.


As defesas do corpo

Um tema frequente nas dúvidas sobre imunidade à Covid-19 é o papel dos anticorpos e das células T na resposta do corpo humano à doença. Mas antes de falarmos sobre este tema específico, é necessário explicar como o organismo reage a uma infecção, seja pelo Sars-CoV-2 ou não.

De forma bastante simplificada, Stucchi e Mansur explicam que temos dois tipos de imunidade: a inata (ou seja, aquela com que nascemos), e a adquirida. Dentro da imunidade adquirida, existem dois outros tipos: a humoral, quando a proteção é dada por anticorpos; e a celular, obtida por meio da atuação de glóbulos brancos como as células T.

“Para que o organismo possa se defender de cada doença, ele estimula um tipo de defesa. Em algumas doenças, a gente não conhece ainda exatamente qual o tipo de defesa que o organismo consegue fazer e se existe algum tipo de defesa”, diz Stucchi.

Existem anticorpos, por exemplo, que não neutralizam uma infecção. “É como se eu fosse para uma guerra e tivesse alguns soldados que não sabem atirar e acertar o alvo”, compara a infectologista. “A ciência busca conhecer quem são os soldados que têm arma e sabem atirar no alvo. Nem sempre a gente conhece isso de todas as doenças.”

Em algumas delas, é possível que o organismo precise dos dois tipos de defesa: anticorpos (imunidade humoral) e células T (imunidade celular).

E como saber que estamos imunes a determinada doença? “Talvez o jeito mais fácil e direto de medir isso seja contando anticorpos que a gente considera neutralizantes contra determinado vírus”, diz Mansur.

No caso específico da doença provocada pelo novo coronavírus, ainda há muito a se descobrir sobre a ação de anticorpos e células T.

“O que a gente sabe até o momento é que há produção de anticorpos quando você tem a doença, mas, em uma parcela razoável das pessoas que tiveram Covid-19, esses anticorpos podem desaparecer ao longo do tempo. Talvez esses anticorpos isoladamente não sejam uma boa medida para saber se a pessoa já teve ou não a doença”, diz Stucchi.

Segundo Mansur, a queda na quantidade de anticorpos ao longo do tempo é normal. “A questão é saber — e isso ainda não foi abordado de maneira ideal — se as células que sobraram são capazes de produzir mais anticorpos se a pessoa for infectada de novo.”


Imunidade cruzada

A atividade das células T tem relação direta com outro tema muito debatido quando se fala de imunidade contra a Covid-19: a imunidade cruzada. De forma bem simplificada, este conceito significa que a exposição anterior a outros tipos de coronavírus pode levar a algum grau de proteção contra o Sars-CoV-2.

“Os outros coronavírus são muito frequentes em crianças, principalmente causando quadro de resfriado comum. Possivelmente, todos nós já tivemos contato. O que se tem especulado muito é que exposições prévias aos outros coronavírus, para algumas pessoas, possa levar a uma proteção contra este novo coronavírus”, diz Stucchi.

Mansur explica que os coronavírus que causam resfriados, por exemplo, têm uma origem comum. Assim, há trechos dos genomas deles que são iguais.

“Nesse ponto, você vai ter alvos das células T ou dos anticorpos que são comuns a esses diversos vírus. Para a Covid-19, se você pega os coronavírus que causam resfriado, tem uma parte desses que geram uma imunidade cruzada contra o Sars-CoV-2. Então, você teve uma resposta imune contra aquele vírus lá atrás e agora, por eles serem da mesma família, terem algumas sequências da proteína parecidas, eu pego uma célula de memória. Você não acerta o mesmo vírus, mas acerta o mesmo pedaço”, diz.

No entanto, ainda não se sabe se esta imunidade cruzada é suficiente para proteger uma pessoa. O caso de reinfecção comprovado em Hong Kong deixa dúvidas sobre a eficácia das células T contra a Covid-19, diz Stucchi. Na primeira vez em que teve Covid-19, o homem teve sintomas como febre e dor de cabeça. Na segunda, se manteve assintomático.

“Ela deixa dúvida sobre qual o papel da imunidade celular, se protege ou não de fato, ou se foi o fato de já ter alguma proteção anterior que fez com que a pessoa não tivesse sintomas”, diz Stucchi. “Talvez uma proteção prévia tenha ajudado a não ter um quadro mais grave. É tudo suposição. A gente deve fazer novos diagnósticos de reinfecção para saber se isso vai ser verdade em todos ou não, porque trabalhos em laboratório mostraram que a reinfecção pode ser até mais grave, mais ou menos como acontece com a dengue.”

No Twitter, a imunologista Akiko Iwasaki, professora da Universidade de Yale (EUA), afirmou que, apesar de a imunidade do caso estudado não ter sido suficiente para impedir a infecção pelo vírus, por outro lado conseguiu conter o desenvolvimento da doença, já que o paciente ficou assintomático.


Imunidade de rebanho

Tem sido comum ver Bolsonaro falar que os brasileiros só ficarão imunes à Covid-19 depois que “60%, 70% da população” pegar a doença. De acordo com o monitoramento de declarações do presidente feito pelo Aos Fatos, ele repetiu isso pelo menos 34 vezes desde março. No entanto, ainda não há comprovação de que a população ficará imune à Covid-19 após esse patamar de contágio.

Quando Bolsonaro fala neste assunto, está abordando a imunidade de rebanho — ou seja, a imunidade que se atinge após uma parcela da população estar protegida contra uma determinada doença, impedindo que ela continue a se espalhar. O patamar necessário para a imunidade de rebanho varia de acordo com a doença e pode ser atingido ou por vacina ou pela exposição à doença.

Segundo a infectologista Raquel Stucchi, é importante saber em que nível se atinge a imunidade de rebanho para avaliar quando é possível flexibilizar as medidas de isolamento social, porque a partir desse momento haverá menos pessoas suscetíveis à doença. “Eu posso planejar o meu sistema de saúde, se ele continua com toda essa força de trabalho, com todos esses leitos”, diz.

O cálculo do percentual necessário para se atingir a imunidade de rebanho está diretamente ligado à taxa de transmissão de uma doença, o chamado R0 — ou seja, quantas pessoas podem ser infectadas por uma pessoa doente. “Se eu transmito para duas pessoas, o R0 normalmente é 2. Se eu transmito para 15 pessoas, o R0 é 15”, explica Mansur.

No caso da Covid-19, ainda não sabemos ao certo qual é a taxa de transmissão. Segundo Mansur, até o momento, estima-se que o R0 para a doença seja igual a 2. “Então, 50% [da população] teria que estar imune para poder extinguir a circulação do vírus. Se o R0 for menor, esse número desce. Se o R0 for muito maior, esse número é muito maior”, diz.

O sarampo, por exemplo, tem um R0 igual a 15, segundo Mansur. É muito mais contagioso do que a Covid-19, mas bem menos letal do que a doença provocada pelo novo coronavírus.

Assim, diante da letalidade da Covid-19, buscar a imunidade deixando que a população se infecte pela doença seria uma “estratégia irresponsável”, afirma Mansur.

Até domingo (23), o Brasil tinha registrado 3,6 milhões de casos de Covid-19 e 114.744 mortes pela doença, segundo o Ministério da Saúde. Isso representava uma taxa de letalidade de 3,2% (a cada 100 pessoas doentes, pelo menos 3 morreram).

Segundo projeção do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), na tarde de segunda-feira (24), a população brasileira estava perto de 212 milhões de pessoas. Se a imunidade de rebanho para Covid-19 for atingida com 50% da população imunizada, uma eventual tentativa de imunização por meio da circulação da doença, sem uma vacina, exigiria o contágio de 106 milhões de brasileiros. Com a taxa de letalidade em 3,2%, isso levaria, em tese, a quase 3,4 milhões de mortos no país.

“Se você está tratando de uma outra doença com taxa de letalidade menor, ou que não leva à ocupação de UTI tanto assim, isso acabar acontecendo é uma coisa. Usar isso como estratégia é outra completamente diferente”, diz o professor da UFSC. “Responsavelmente, o único jeito de chegar à imunidade de rebanho com estratégia é com vacinação.”

A comprovação da possibilidade de reinfecção por Covid-19 pode tornar impossível a eliminação do Sars-CoV-2 por meio da imunidade de rebanho via contágio, segundo trechos da pesquisa da Universidade de Hong Kong divulgados pelo jornal South China Morning Post e pela jornalista Lilian Cheng, repórter da publicação.

“Primeiro, é improvável que a imunidade de rebanho possa eliminar o Sars-CoV-2, apesar de ser possível que infecções subsequentes sejam mais suaves que a primeira, como para este paciente. A Covid-19 deve continuar a circular na população humana, assim como outros coronavírus humanos”, diz um trecho do estudo. “Em alguns casos, a reinfecção ocorre apesar de um nível estático de anticorpos específicos.”

A professora Akiko Iwasaki, da universidade de Yale, fez o mesmo alerta. “Já que a reinfecção pode ocorrer, é improvável que a imunidade de rebanho por infecção natural possa eliminar o Sars-CoV-2. O único jeito seguro e efetivo de atingir a imunidade de rebanho é por meio de vacinação.”

Raquel Stucchi destaca que as vacinas são especialmente importantes no combate a doenças respiratórias, cuja contenção é difícil em comparação a vírus que são transmitidos de outras formas. A disseminação do HIV, por exemplo, pode ser contida pelo uso de preservativos, entre outras medidas de prevenção.

“Gripe, sarampo, tuberculose são doenças que têm que ter vacina, porque não há outras formas eficientes de proteção. O que a gente faz agora [isolamento social] é algo que não vamos conseguir manter uma adesão por muito tempo. Realmente a gente precisa de uma vacina para Covid-19, nem que precise tomar essa vacina duas vezes por ano”, afirma.

Segundo Stucchi, a comprovação de que é possível se infectar novamente pela Covid-19 pode afetar o desenvolvimento de vacinas contra a doença. “O que a possibilidade de reinfecção traz de preocupação é qual será exatamente a eficácia da vacina”, diz.

O estudo de Hong Kong que confirmou o primeiro caso de reinfecção por Covid-19 diz que “vacinas podem não ser capazes de prover proteção contra a doença por toda a vida”, e que estudos sobre vacinas devem passar a incluir pacientes que se recuperaram da doença.

Referências:

1. G1

2. Aos Fatos (1 e 2)

3. Bloomberg

4. Estadão

5. Folha de S. Paulo

6. Twitter de Akiko Iwasaki (1 e 2)

7. Ministério da Saúde

8. IBGE

9. South China Morning Post

10. Twitter de Lilian Cheng

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