Jefferson Rudy/Agência Senado

Ao defender 'tratamento precoce', Heinze falseia fatos e distorce dados na CPI da Covid-19

Por Marco Faustino e Priscila Pacheco

2 de junho de 2021, 17h06

Na CPI da Covid-19, o senador Luis Carlos Heinze (PP-RS) tem se notabilizado pela defesa do chamado "tratamento precoce" com um discurso pontuado por alegações falsas. Em onze sessões da comissão, Aos Fatos verificou que ele repetiu informações enganosas de que a cloroquina seria antiviral e responsável, junto a outras drogas sem eficácia comprovada, pela redução da letalidade da doença em regiões do país.

Checamos oito declarações que têm sido repetidas por Heinze na CPI. Em resumo:

  1. É FALSO que pacientes que participavam de estudo em Manaus sobre a cloroquina morreram por terem recebido doses tóxicas do remédio. As mortes foram em decorrência da Covid-19 e uma investigação não encontrou relação com a droga;
  2. A associação que Heinze faz entre a taxa de letalidade do Amapá e a adoção de “tratamento precoce” no estado é enganosa. O potencial de uma terapia com remédios não pode ser verificado por esse indicador, que têm relação com outros fatores, como a taxa de incidência de casos da doença em uma região;
  3. Também é FALSO afirmar que um estudo que teve uma retratação posterior causou a interrupção de todas as pesquisas posteriores sobre a hidroxicloroquina contra a Covid-19. O episódio não suspendeu estudos com a droga e resultados posteriores também confirmaram que ela é ineficaz para tratar a doença;
  4. Não é verdade que a Pfizer registra um produto para substituir a cloroquina, como alegou Heinze. O antiviral experimental PF-07321332 tem formulação e mecanismo de ação em nível celular diferente do antimalárico;
  5. É FALSO que, por ser indicada contra chikungunya, a hidroxicloroquina teria ação antiviral. A droga é prescrita para consequências da infecção, como artrite e dor musculoesquelética, devido a um potencial efeito anti-inflamatório;
  6. Não foi descoberta a cura do zika vírus, como repetiu o senador. Pesquisas in vitro e em camundongos apresentaram resultados promissores, mas não foram realizados testes em humanos, etapa crucial para definir o sucesso de um tratamento;
  7. Não é verdade que o infectologista David Boulware conduziu um ensaio que mostrou benefícios da hidroxicloroquina contra Covid-19. Os três estudos que ele participou sobre o uso da droga como profilaxia não demonstraram qualquer efeito positivo;
  8. É IMPRECISO alegar que a vacinação no Brasil vai bem se comparada ao resto do mundo, citando apenas em números absolutos de vacinados. O dado proporcional à população também deve ser considerado, segundo epidemiologistas;


A segunda [questão sobre a cloroquina], senador Omar, foi no seu estado, em Manaus, num hospital que acho que leva o nome da sua mãe, onde tem 22 pessoas que faleceram em cima de uma superdosagem.

É FALSA a associação sugerida pelo senador Luis Carlos Heinze em nove sessões da CPI (confira aqui, aqui e aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) entre as doses ministradas de cloroquina no experimento citado e as mortes de 22 pacientes. Segundo Jorge Venâncio, coordenador do Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa), instância máxima de avaliação ética em protocolos de pesquisa com humanos no Brasil, os registros de óbito dos participantes mostram que as causas foram síndrome respiratória aguda ou septicemia, consequências da Covid-19.

A comissão analisou as condições da pesquisa conduzida no Hospital Delphina Rinaldi Abdel Aziz, em Manaus (AM), no ano passado. Foram avaliadas duas dosagens de cloroquina, uma alta (12g em dez dias) e uma baixa (2,7g em cinco dias), em internados em estado grave por duas semanas. Durante o experimento, 22 pacientes morreram de síndrome respiratória aguda ou septicemia. Desses, onze tomaram a dose mais alta.

Após analisar a documentação, incluindo atestados de óbito, e de promover audiências com os pesquisadores, a Conep concluiu que não havia relação direta das dosagens da droga com as mortes.

O ensaio foi interrompido após serem detectadas arritmias cardíacas em 19% do grupo que recebeu a dose mais alta e em 11% dos que tomaram a concentração mais baixa da cloroquina. Depois, a pesquisa foi retomada avaliando apenas as dosagens menores.

Os resultados foram publicados na revista científica Jama, da Associação Médica Americana, e sugerem que “uma dosagem mais alta de cloroquina não deve ser recomendada para o tratamento de casos graves de Covid-19, especialmente entre pacientes que também estão recebendo azitromicina e oseltamivir, devido a questões de segurança”. Também foi verificado pelos pesquisadores que havia tendência de mais efeitos colaterais nos pacientes que fizeram uso de doses maiores.

Aos Fatos já checou essa informação em outros momentos da CPI (veja aqui e aqui).


Sabe qual é a letalidade, hoje, no Estado do Amapá? É de 1,5. Sabe qual é a letalidade no Amazonas? É de 3,4. Em São Paulo, é de 3,4. A do Rio de Janeiro – pasmem! – é de 5,9. É de 1,4... E [no estado do Amapá] adotam esse procedimento ["tratamento precoce"]. Adotam esse procedimento!

É FALSA a associação sugerida em sete sessões da CPI (confira aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) por Heinze entre os dados oficiais de letalidade e a aplicação do suposto “tratamento precoce” em estados e municípios. O potencial de uma terapia não pode ser validado por esses números, uma vez que não há comprovação científica da eficácia do uso de medicamentos contra a Covid-19 e os índices têm relação com fatores como a taxa de incidência de casos.

Isaac Schrarstzhaupt, cientista de dados e coordenador na Rede Análise Covid-19, explica que fatores como o ritmo de detecção de casos, a idade da população e os índices de mobilidade também influenciam na taxa de letalidade.

A taxa de letalidade é medida analisando o número de pessoas que morreram em decorrência da Covid-19 em relação ao número de casos da doença detectados. Segundo dados do painel Conass analisados em 2 de junho, o Amapá tem a terceira maior incidência de infecções pelo coronavírus entre os estados brasileiros, com 13.271,7 casos por cem mil habitantes, perdendo apenas para Roraima (17.141,4) e Santa Catarina (13.574,7).

Esse dado está diretamente ligado à taxa de letalidade, que é de 1,5% no Amapá e de 1,6% em Roraima e Santa Catarina. Em contraposição, o Rio de Janeiro, que tem a maior taxa de letalidade do país (5,8%) tem a menor taxa de incidência (5.035,1 por cem mil habitantes).

Um alto índice de testagem da população pode aumentar a taxa de incidência da Covid-19. O quantitativo total de testes aplicados, entretanto, não é divulgado publicamente pelo Amapá. Aos Fatos entrou em contato com a Secretaria de Saúde do estado para obter essas informações, mas não recebeu retorno até a publicação desta checagem.

Erros. Heinze ainda erra ao dizer que o Amazonas estaria em uma pior situação que o Amapá por não adotar a terapia. A Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas doou comprimidos de ivermectina e do antibiótico azitromicina para as UBSs (Unidades Básicas de Saúde) de Manaus distribuírem para pacientes de Covid-19 em janeiro.

No mesmo mês, o Amazonas anunciou que seria o primeiro estado a testar o TrateCOV, aplicativo do Ministério da Saúde que estimulava o dito “tratamento precoce”. No evento de divulgação, o então ministro da saúde Eduardo Pazuello estimulou a adoção da terapia. A medida, no entanto, não evitou que o número de casos aumentasse e o estado enfrentasse escassez de oxigênio.

Por fim, Heinze costuma citar em suas intervenções na CPI que cidades como Rancho Queimado (SC), Porto Feliz (SP) e Porto Seguro (BA) também teriam bons resultados por causa do “tratamento precoce”, mas conforme o Aos Fatos já mostrou em outras checagens tais alegações permanecem enganosas (confira aqui, aqui e aqui).


Aqui está, para quem quiser ver, a retratação da revista Lancet nesse processo. Então, nesse sentido, são casos gravíssimos e isso acaba tirando fora do processo um produto sério [cloroquina].

O senador Luís Carlos Heinze deu declarações FALSAS em sete sessões da CPI (confira aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) ao sustentar que o estudo publicado na The Lancet em junho de 2020 que apontou ineficácia da cloroquina excluiu a droga das alternativas terapêuticas pesquisadas contra a Covid-19 e, depois, seus autores se retrataram. Embora o estudo tenha apresentado problemas que geraram de fato uma retratação na revista, não houve interrupção das demais pesquisas com a droga.

O estudo observacional foi considerado falho por não apresentar, por exemplo, informações sobre quais países ou hospitais tinham fornecido os dados e trazia uma diferença entre o número de infectados citados e os relatórios oficiais de algumas regiões. A conclusão de que o medicamento aumentava a mortalidade fez com que a OMS (Organização Mundial da Saúde) interrompesse os estudos com a hidroxicloroquina no Solidarity Trial, programa de pesquisas de remédios que poderiam agir contra a Covid-19 coordenado pela entidade.

Após a retratação dos pesquisadores, a OMS retomou o trabalho de pesquisa com a droga, mas, ainda em junho, a excluiu novamente por não ter apresentado redução na mortalidade de pacientes hospitalizados.

Estudos de outros grupos publicados após o estudo veiculado na Lancet também concluíram, em 2020, que não havia efeito da droga para profilaxia e no chamado “tratamento precoce”. Em fevereiro de 2021, uma metanálise (compilação de resultados de pesquisas) publicada pela Cochrane, entidade especializada em revisões sistemáticas de estudos, concluiu que a cloroquina e a hidroxicloroquina têm pouco ou nenhum efeito no risco de morte e pouco ou nenhum efeito na progressão para ventilação mecânica.


A Pfizer já está registrando um produto para substituir a cloroquina.

É FALSO que o medicamento oral desenvolvido pela Pfizer como possível tratamento para a Covid-19 seja um substituto da cloroquina, como alegou o senador gaúcho em três sessões da CPI (confira aqui, aqui e aqui). Em nota, a farmacêutica negou que a droga seja à base do antimalárico, e que não é possível informar potencial, cronograma ou resultado, uma vez que o remédio ainda está em fase de pesquisa e desenvolvimento.

Em março de 2021, a Pfizer anunciou que teve progressos em um estudo de fase um em adultos saudáveis para avaliar a segurança e tolerabilidade do PF-07321332, um antiviral experimental contra a Covid-19. Segundo a empresa, a droga demonstrou ação antiviral in vitro, ou seja, em laboratório, mas não há garantia que seja segura ou eficaz em humanos.

Uma apresentação publicada na revista Chemical & Engineering News, da Sociedade Americana de Química,em abril deste ano, informa que o medicamento foi desenvolvido já durante a pandemia e sintetizado pela primeira vez em julho de 2020.

Ana Paula Hermann, professora de Farmacologia do ICBS/UFRGS (Instituto de Ciências Básicas da Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Sul), afirma que o antiviral PF-07321332 e a cloroquina são diferentes, tanto nas fórmulas quanto no mecanismo de ação em nível celular, e apontou a diferença da estrutura química (confira aqui, aqui e aqui).

“A hidroxicloroquina já foi testada em diversos ensaios clínicos randomizados, em pacientes hospitalizados ou não, e todos os estudos relativamente bem conduzidos e com número adequado de pacientes não encontraram qualquer benefício desse tratamento [contra a Covid-19]. Já para a molécula candidata da Pfizer, ainda não temos esses estudos e, portanto, ainda não sabemos se funciona clinicamente ou não”, disse Hermann.


Algum colega falou que não tinha recomendação para vírus. Está aqui. Chikungunya é um vírus. Trata com o quê? Cloroquina.

A declaração feita pelo senador Heinze em duas sessões da CPI (confira aqui e aqui) é FALSA, porque a hidroxicloroquina não é usada hoje para atacar o vírus que causa a febre chikungunya. A droga tem sido prescrita por médicos contra artrite e a dor musculoesquelética, consequências da fase crônica da doença. A indicação, portanto, seria devido a um potencial anti-inflamatório do fármaco, não antiviral.

O médico infectologista André Siqueira, pesquisador do INI/Fiocruz (Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fundação Oswaldo Cruz), explicou ao Aos Fatos que a hidroxicloroquina é utilizada em pacientes na fase crônica da chikungunya devido à sua semelhança com doenças reumatológicas que são tratadas com a medicação, como artrite reumatoide e espondilite anquilosante.

Nesta etapa da doença, que pode acontecer após três meses da infecção, os pacientes podem sofrer com dores articulares.

Um “potencial efeito antiviral” da hidroxicloroquina é mencionado em um estudo publicado em 2013 que concluiu que a droga teria sido capaz de eliminar o vírus da chikungunya apenas in vitro, ou seja, em laboratório. Esse tipo de experimento costuma ser usado para aferir se um medicamento conhecido tem potencial para combater uma nova doença, mas não garante que os efeitos se repetirão em organismos complexos como o corpo humano.


Um cientista brasileiro, médico de uma universidade na Califórnia, descobriu a cura do zika vírus com cloroquina. É um vírus. É um cientista brasileiro que está nos Estados Unidos.

A afirmação do senador em duas sessões da CPI (confira aqui e aqui) é FALSA porque o pesquisador brasileiro mencionado não "descobriu a cura do zika vírus com cloroquina", apenas publicou um artigo em que afirma ter obtido sucesso com a droga em laboratório. Os achados desta etapa da pesquisa não podem ser considerados definitivos.

Em 2017, o biólogo brasileiro Alysson Muotri, pesquisador da Universidade da Califórnia em San Diego, nos EUA, publicou um estudo na revista Nature em que sugere que a cloroquina poderia impedir a infecção pelo vírus da Zika e evitar a transmissão para o feto em gestantes que já estivessem doentes.

Os experimentos foram bem sucedidos in vitro e em camundongos, mas não houve testes em humanos. Segundo o pesquisador afirmou ao UOL em abril do ano passado, os ensaios clínicos não puderam ser feitos devido à diminuição no número de casos da doença.


Tivemos ensaios positivos de uso precoce da hidroxicloroquina, não apenas observacionais (...), como também de um estudo randomizado duplo cego, como o ensaio do pesquisador Boulware, com resultados que mostram benefícios da droga.

É FALSO que o infectologista David Boulware, da Universidade do Minnesota, nos EUA, tenha conduzido um ensaio que mostrou benefícios da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19, como mencionado por Heinze na sessão do dia 18 de maio. O cientista afirmou ao Aos Fatos que todos os três ensaios que conduziu com sua equipe não demonstraram qualquer ação da droga contra a doença.

A equipe do cientista investigou o uso da droga na profilaxia pós-exposição (NEJM), no tratamento ambulatorial precoce (Annals of Internal Medicine) e na profilaxia pré-exposição entre profissionais de saúde (Clinical Infectious Diseases). Em nenhum dos casos a hidroxicloroquina se provou capaz de deter ou curar a infecção pelo novo coronavírus.

Além destes, não há qualquer outro ensaio de Boulware sobre a hidroxicloroquina contra a Covid-19 no Clinical Trials, site para registro de ensaios clínicos e nos repositórios de estudos da OMS (Organização Mundial da Saúde) e da Wiley Online Library, plataforma americana que compila resultados de periódicos científicos.


O Brasil hoje está na frente da Inglaterra em número de vacinas aplicadas, é o quarto país.

Em três sessões da CPI (confira aqui, aqui e aqui), o senador Heinze disse que o Brasil era o quarto no mundo em número de vacinas aplicadas ou de pessoas vacinadas contra Covid-19. A afirmação é IMPRECISA porque o país só figura nas primeiras posições se considerados números absolutos. De acordo com epidemiologistas, o dado mais adequado para medir o desempenho seria o percentual de imunizados sobre o total da população.

Até 30 de maio, o Brasil de fato era o quarto país com mais doses aplicadas, 67 milhões, segundo a Our World in Data, plataforma mantida pela Universidade Johns Hopkins, dos EUA. Porém, ao considerarmos a porcentagem da população que recebeu ao menos uma dose do imunizante, caímos para a 80ª posição, com 21,2% de vacinados.

A médica epidemiologista Ana Freitas Ribeiro, do Hospital Emílio Ribas, pondera que não é adequado comparar a vacinação por meio de números absolutos, e sim pelo percentual da população imunizada, considerando ainda os grupos prioritários. ”Se você tem a cobertura de primeira dose, por exemplo, de 80% em pessoas de mais de 80 anos, mas só 15% receberam a segunda dose, ainda está ruim”, diz.

Segundo a plataforma Localiza SUS, do Ministério da Saúde, do total de vacinados, cerca de 20,1 milhões receberam a segunda dose, o que equivale a aproximadamente 10% da população do país.

Outro lado. Procurado por Aos Fatos por meio de sua assessoria, o senador Luis Carlos Heinze não respondeu até a publicação desta checagem.

Referências:

1. Senado Federal (Fontes 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7)
2. Gaúcha ZH
3. Jama
4. Aos Fatos (Fontes 1, 2 e 3)
5. Pfizer
6. CEN
7. DrugBank (Fontes 1, 2 e 3)
8. NEJM (Fontes 1, 2 e 3)
9. AIM
10. Clinical Infectious Diseases
11. Clinical Trials
12. OMS (Fontes 1 e 2)
13. Wiley Online Library
14. NCBI
15. Nature
16. UOL
17. The Lancet (Fontes 1 e 2)
18. Poder 360
19. DW
20. ACP Journals
21. Cochrane Library
22. Our World in Data
23. Localiza SUS
24. Painel Conass

Colaborou: Luís Felipe dos Santos

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