Mensagem de guerra civil enviada por Bolsonaro viralizou semanas antes nas redes

Por Luiz Fernando Menezes

24 de agosto de 2023, 15h59

Semanas antes de o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) enviar pelo WhatsApp ao empresário Meyer Nigri um vídeo dizendo que haveria “sangue e guerra civil no Brasil”, uma publicação com conteúdo do mesmo teor já viralizava no Kwai.

Segundo reportagem do UOL baseada em relatório da Polícia Federal, Bolsonaro enviou o vídeo no dia 21 de junho de 2022, junto do comentário: “Eis o enredo das eleições de 2022. Você confia nos 3 min[istros] do TSE/STF?”. No entanto, o Radar Aos Fatos verificou que um vídeo com conteúdo semelhante já circulava na rede chinesa de vídeos curtos quase um mês antes.

  • Aos Fatos identificou que, no mesmo dia da mensagem de Bolsonaro a Nigri, apareceram publicações no Facebook com texto idêntico ao compartilhado pelo ex-presidente no WhatsApp;
  • Além do texto compartilhado por Bolsonaro, essas publicações têm também um vídeo de mesmo teor que o descrito no relatório da PF;
  • Trata-se de uma junção de dois vídeos veiculados originalmente pelo perfil do Kwai e do Helo “Kleber Duarte” — nome que aparece na marca d’água dos vídeos —, que hoje pode ser encontrado pelo nome “BRASILEIRO COM FÉ”;
  • O primeiro conteúdo foi publicado no dia 4 de junho e traz trecho de uma fala em que o ministro do STF Alexandre de Moraes defende a lisura das urnas;
  • No segundo conteúdo, disponível no Kwai desde 31 de maio de 2022, um homem não identificado diz que haveria um plano para fraudar as eleições e as pesquisas eleitorais;
  • Ambas as publicações, portanto, já estavam no Kwai semanas antes da mensagem de Bolsonaro.

Print do Kwai mostra seis exemplos de vídeos publicados antes da mensagem de Bolsonaro.
Cópias. Vídeo publicado em maio de 2022 foi replicado por dezenas de outros perfis no Kwai antes de ser compartilhado pelo ex-presidente (Reprodução/Kwai)

Além de incitar uma guerra civil, o conteúdo é desinformativo: o segundo vídeo utilizado, que traz o relato de um homem não identificado, reproduz na verdade um vídeo satírico do humorista Warley Alberto Clauhs, publicado no YouTube em abril daquele ano, conforme mostrou Aos Fatos em checagem anterior.

De acordo com o relatório da PF divulgado pelo UOL, Bolsonaro enviou o vídeo desinformativo para dois grupos no WhatsApp, além de contatos pessoais.

Barroso. Também enviado pelo ex-presidente a empresários, o vídeo que acusa o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Luís Roberto Barroso de mentir sobre o projeto do voto impresso também circulou nas redes antes.

Conforme noticiado pelo Poder360 na época, Bolsonaro enviou a corrente para seus contatos na manhã do dia 26 de junho de 2022. O perfil do TikTok @fenixb22 publicou o mesmo vídeo no dia 25 de junho. Diferentemente do que sugere o vídeo, no entanto, Barroso não mentiu: em substitutivo apresentado em 2021 à chamada PEC do Voto Impresso, o deputado Filipe Barros (PL-PR), de fato, defendeu a contagem manual dos votos, proposta posteriormente rejeitada pela Câmara.

Print de vídeo compartilhado por Bolsonaro que dizia que Barroso havia mentido sobre voto impresso
Fake news fake. Vídeo compartilhado por Bolsonaro acusava Barroso de desinformação, mas ministro fez afirmações corretas em seu comentário (Reprodução/TikTok)

A única diferença é que Bolsonaro compartilhou o vídeo junto de um texto que acusava o Supremo de interferir nas eleições e o Datafolha de inflar a popularidade de Lula. Após a mensagem de Bolsonaro, às 9h10, outros políticos publicaram a mesma corrente, como Elcio Franco, Cabo Gilberto e Ailton Barros.

Contatado pelo Aos Fatos, o Kwai informou que os vídeos apontados pela reportagem foram removidos e que a plataforma "reitera seu compromisso no combate à desinformação".


Esta reportagem foi atualizada às 10h25 do dia 25 de agosto de 2023 para acrescentar a nota enviada pelo Kwai.

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