Aloisio Mauricio / Fotoarena / Estadão Conteúdo

Vídeos de Bolsonaro apagados pelo YouTube reuniam mais de 3,3 milhões de visualizações

Por Amanda Ribeiro, Débora Ely e João Barbosa

22 de julho de 2021, 16h16

Vídeos em que o presidente Jair Bolsonaro propagava remédios sem eficácia comprovada contra a Covid-19 já haviam somado mais de 3,3 milhões de visualizações quando foram apagados pelo YouTube na última quarta-feira (21), segundo levantamento do Radar Aos Fatos. Em sua ação mais rigorosa contra o canal do presidente, a plataforma excluiu de uma só vez 15 conteúdos publicados pelo perfil – entre eles, 14 lives.

Em junho, reportagem do Aos Fatos mostrou que o YouTube abrigava 38 lives de Bolsonaro com 113 declarações desinformativas sobre “tratamento precoce”, o que viola a política contra desinformação da rede social. Juntas, elas acumulavam, à época, 8,9 milhões de visualizações. Hoje, 24 dessas transmissões seguem no ar.

Sobre os vídeos excluídos na quarta-feira, o YouTube informou que suas "regras não permitem conteúdo que afirma que hidroxicloroquina e/ou ivermectina são eficazes para tratar ou prevenir Covid-19; garante que há uma cura para a doença; ou assegura que as máscaras não funcionam para evitar a propagação do vírus”. Segundo a plataforma, essas diretrizes "estão de acordo com a orientação de autoridades de saúde locais e globais".

Todos os links dos vídeos apagados, agora, mostram a mensagem: “Este vídeo foi removido por violar as diretrizes da comunidade do YouTube”. Eles haviam sido publicados no período de quase um ano, entre maio de 2020 e junho deste ano. Além das 14 lives, o YouTube também excluiu uma entrevista da médica Nise Yamaguchi, defensora do “tratamento precoce”, que havia sido compartilhada no canal de Bolsonaro.

Entre os vídeos deletados, o mais popular era uma live transmitida em 15 de abril deste ano, que somou 498,8 mil visualizações e, de acordo com o contador do Aos Fatos de declarações do presidente, tinha ao menos duas alegações enganosas sobre o tratamento da Covid-19. Na ocasião, Bolsonaro defendeu, por exemplo, o uso da hidroxicloroquina para o combate à doença. “Muita gente tomou e se safou”, disse, após condicionar a sua própria cura ao medicamento.

Também uma live, o segundo vídeo mais assistido (341,7 mil visualizações) foi publicado no último dia 27 de maio. Desta vez, foram ao menos sete falas falsas ou distorcidas de Bolsonaro sobre medicamentos. Em uma delas, ele promoveu drogas cientificamente ineficazes contra a Covid-19. Em outra, sugeriu o consumo de chás usados por indígenas para tratar a doença, o que também não tem eficácia comprovada.

O terceiro vídeo mais visualizado (255,9 mil) é de 4 de junho de 2020. Na live, Bolsonaro disse que a cloroquina seria a única alternativa contra o coronavírus. “Não tem outro remédio, o que seria um novo remédio. Só tem a cloroquina", pontuou. Dias antes, em 20 de maio, o Ministério da Saúde havia publicado uma orientação que autorizava o uso do medicamento em casos leves, desde que com prescrição médica. Semanas depois, a droga foi excluída de protocolos da OMS (Organização Mundial da Saúde) e da agência de controle dos Estados Unidos.

O YouTube afirma que a política de excluir vídeos que desinformam sobre remédios como a cloroquina é retroativa. “Vale dizer que, quando atualizamos uma regra, algumas vezes oferecemos aos criadores um ‘período de carência’ para que possam compreendê-la e se adaptarem. Isso significa que vídeos postados antes da mudança ou até um mês depois da atualização são removidos do YouTube, mas não geram um aviso (strike) como penalidade”, disse, em 22 de abril, a gerente de políticas públicas do YouTube no Brasil, Alana Rizzo, no blog da empresa.

Após a última ação do YouTube, Bolsonaro corre o risco de ser banido da plataforma. Isso porque as diretrizes da comunidade indicam o encerramento permanente do canal após três avisos de violações em um intervalo de 90 dias. Até o momento, o perfil do presidente permanece ativo porque a maioria dos vídeos deletados havia sido publicada antes da atualização da política.

Já em outras redes sociais, como no Facebook, e em canais de apoiadores do presidente no YouTube, algumas das transmissões excluídas na quarta-feira seguem disponíveis. Esta não foi a primeira vez em que a plataforma removeu publicações de Bolsonaro – até maio, ao menos 17 haviam sido deletadas, segundo a Novelo Data.

Metodologia

O Radar Aos Fatos monitora, diariamente, por meio da API do YouTube, os vídeos publicados em canais de políticos e influenciadores políticos do país. Assim, consegue identificar os dados dos conteúdos que são deletados pelos próprios perfis ou, eventualmente, removidos pela plataforma.

Referências
1. Metrópoles
2. Aos Fatos (1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7)
3. YouTube (1 e 2)
4. CNN Brasil
5. Estadão (1 e 2)
6. G1

sobre o

Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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