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Vídeo deletado por Bolsonaro — e que STF cobra da Meta — segue circulando no Facebook

Por Ethel Rudnitzki

6 de dezembro de 2023, 16h24

O ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), determinou na terça-feira (5) que a Meta envie em até 48 horas informações sobre um post publicado e deletado em seguida pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), no dia 10 de janeiro deste ano.

Moraes já havia determinado a entrega do conteúdo em janeiro, ordem que ele reiterou em agosto, mas a Meta até agora não cumpriu. Nesta semana, o ministro estabeleceu prazo de 48 horas para que a empresa cumpra a decisão, sob pena de multa diária de R$ 100 mil.

A publicação trazia um trecho de entrevista do procurador Felipe Gimenez, de Mato Grosso do Sul, veiculada em novembro na Rádio Hora 93,2, de Campo Grande (MS), em que ele alega, sem apresentar provas, que Lula “não foi eleito”, mas “escolhido pelo sistema eleitoral”.

Print de postagem apagada por Bolsonaro no Facebook
Desinformação. Vídeo compartilhado por Bolsonaro em que procurador do estado sugere que houve fraude nas eleições 2022. (Reprodução)

A peça é considerada fundamental para a denúncia da PGR (Procuradoria Geral da República) contra o ex-presidente por incitação ao crime, em decorrência da tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro.

Bolsonaro fez a publicação dois dias depois da destruição em Brasília e deixou o conteúdo no ar por algumas horas, até deletá-lo. A exclusão não interrompeu a disseminação da mentira — pelo contrário, ajudou a impulsioná-la, estratégia que o ex-presidente usou outras vezes durante o mandato.

Levantamento do Radar Aos Fatos mostra que até hoje o conteúdo postado por Bolsonaro em 10 de janeiro continua disponível no Facebook e em outras plataformas.

  • Foram identificadas 22 publicações no Facebook com o mesmo vídeo publicado por Bolsonaro, somando mais de 3.750 visualizações;
  • Outros 9 posts, que foram vistos mais de 3.000 vezes, trazem outros trechos da mesma entrevista;
  • As publicações foram feitas após o dia 11 de janeiro deste ano;
  • O vídeo, que foi originalmente publicado no Kwai por uma conta deletada, também segue circulando em diferentes plataformas com maior viralização;
  • Lá, dezenas de contas replicaram a postagem, somando mais de 150 mil visualizações;
  • No Instagram, foram identificadas três publicações que somam mais de 14 mil visualizações;
  • No TikTok, quatro posts com quase 22 mil visualizações;
  • E no X (ex-Twitter), seis postagens vistas mais de 45 mil vezes.

Usuários aproveitam o gancho da decisão de Moraes para voltar a divulgar o vídeo e a falsa alegação sobre as eleições de 2022. “Urgente o vídeo que a PGR quer que a Meta entregue em até 48 horas, que Bolsonaro postou em 10 de janeiro”, diz texto de vídeo no TikTok que traz o conteúdo da publicação deletada pelo ex-presidente.

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Estratégia conhecida. O caso não é o primeiro e nem o único em que um post excluído por Jair Bolsonaro viraliza nas redes sociais. Na verdade, essa é uma estratégia usada repetidamente pelo ex-presidente durante seu mandato.

  • Em outubro de 2019, ele compartilhou um vídeo em que retratava autoridades como animais — ministros do STF, por exemplo, eram hienas, e ele, o leão — e apagou logo depois. A publicação continuou viralizando no Twitter e em outras redes sociais;
  • Durante a pandemia da Covid-19, Bolsonaro compartilhou um vídeo mentiroso em que um homem dizia que o Ceasa de Contagem (MG) estaria desabastecido por conta das medidas de isolamento. A publicação foi deletada quando acumulava mais de 200 mil visualizações e dezenas de milhares de compartilhamentos — e continuou viral;
  • Em julho de 2021, Bolsonaro repetiu a estratégia e disseminou imagens de uma motociata realizada um mês antes, em São Paulo, como se fossem recentes e tivessem sido feitas em Porto Alegre. A publicação foi apagada, mas o vídeo descontextualizado e outras imagens enganosas viralizaram por meio de seus apoiadores.

O mesmo método de fazer publicação incitando a disseminação de mentiras e depois apagar motivou a suspensão do ex-presidente americano Donald Trump do Facebook e Instagram. Os perfis saíram do ar em 7 de janeiro de 2021, um dia após a invasão do Capitólio, por violarem as políticas da Meta contra violência política.

Em janeiro, Aos Fatos entrou em contato com a Meta perguntando se a mesma regra valeria para o ex-presidente brasileiro, mas não obteve respostas.

Após a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro, a empresa divulgou nota à imprensa dizendo que, “antes mesmo das eleições, designamos o Brasil como um local temporário de alto risco e passamos a remover conteúdos que incentivam as pessoas a pegar em armas ou a invadir o Congresso, o Palácio do Planalto e outros prédios públicos”.

“Agora também designamos este ato como um evento violador, o que significa que removeremos conteúdos que apoiam ou exaltam essas ações. Estamos acompanhando a situação ativamente e continuaremos removendo conteúdos que violam nossas políticas”, conclui o texto.

Conforme o Aos Fatos mostrou recentemente, a atual política da Meta permite anúncios que aleguem que as eleições de 2022 no Brasil foram fraudadas, o que é mentira.

Referências:

1. O Globo
2. Folha de S.Paulo
3. Metrópoles
4. Aos Fatos (1, 2, 3)
5. Meta

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