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Pesquisa feita na USP não prova que pessoas em confinamento são mais vulneráveis à Covid-19

Por Bernardo Barbosa

19 de agosto de 2020, 18h53

É falso que uma pesquisa feita na USP (Universidade de São Paulo) tenha provado que o confinamento deixa as pessoas mais vulneráveis à Covid-19, como diz o título de um link que circula nas redes sociais (veja aqui).

Segundo a própria empresa responsável pelo estudo, o título não corresponde ao resultado da pesquisa, que prova apenas a presença do coronavírus em suspensão no ar e reforça a importância da ventilação em ambientes fechados.

“A pesquisa realizada pela Omni-electronica no Hospital das Clínicas, em São Paulo (SP), não avaliou o efeito de medidas de distanciamento e/ou isolamento social. Ressaltamos também que, em nenhum momento, citamos o termo ‘confinamento’ em nenhum de nossos materiais de divulgação, pois a pesquisa não fala [sobre] este tema”, disse Arthur Aikawa, CEO da Omni-eletronica, que fez a pesquisa.

O link foi compartilhado mais de 5.000 vezes no Facebook. O conteúdo foi marcado com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (saiba como funciona). O Aos Fatos também recebeu pedidos de checagem de leitores que receberam o link via WhatsApp, mas não é possível estimar o alcance da peça de desinformação no aplicativo, já que estes dados não são fornecidos pela empresa.


FALSO

Reviravolta: USP comprova que pessoas em confinamento são mais vulneráveis a contaminação por Covid

Não é verdade que uma pesquisa feita na USP tenha comprovado que pessoas confinadas por causa da pandemia de Covid-19 são mais vulneráveis à doença, como diz o título de um texto do site Terra Brasil Notícias. A própria empresa responsável pelo estudo afirma que em nenhum momento usou o termo “confinamento” em seus materiais de divulgação, “pois a pesquisa não fala [sobre] este tema”.

Em e-mail enviado para o Aos Fatos na terça-feira (18), a Omni-electronica diz que seu estudo se limitou a “evidenciar a presença de material viral suspenso no ar em ambientes interiores ocupados”; e a “correlacionar a quantidade de material viral amostrado com parâmetros físico-químicos da Qualidade do Ar Interior (QAI), como: temperatura, umidade relativa, concentração de dióxido de carbono, compostos orgânicos voláteis e material particulado suspenso”.

No mesmo comunicado, a companhia afirma que a pesquisa “não avaliou o efeito de medidas de distanciamento e/ou isolamento social”; e “não levou em conta fatores como: virulência do material amostrado ou carga viral necessária para infecção de indivíduo saudável”.

A pesquisa da Omni-eletronica foi realizada no Hospital das Clínicas, em São Paulo, que é vinculado à USP. Segundo a empresa, “o resultado do estudo nada tem a ver com as medidas de isolamento social”.

“O único objetivo foi identificar formas que possam auxiliar uma retomada mais segura do trabalho presencial, por meio do monitoramento, em tempo real, da QAI como forma de viabilizar a gestão de risco de contaminação por bioaerossóis [partículas expelidas por tosse, espirro ou até mesmo pela fala ou expiração do ar], já que a transparência sobre níveis de ventilação e condicionamento do ar interior permitem uma gestão eficaz e a tranquilidade do público ocupante”, afirma a companhia.

“Portanto, o estudo vinculou um maior risco de contaminação pelo novo coronavírus em ambientes com baixos índices de Qualidade do Ar Interior (QAI), em caso de locais fechados, em que haja uma ou mais pessoas infectadas pelo vírus. Ou seja, o uso do dispositivo é mais uma ferramenta para auxiliar a redução do risco de contágio, que deve ser usado em conjunto com as outras medidas de segurança indicadas pela OMS, como: uso de máscara, higienização regular das mãos e evitar aglomerações, para retomar as atividades do trabalho presencial com segurança”, diz a nota da Omni-electronica.

Segundo a empresa, a pesquisa vem sendo realizada há dois meses no Hospital das Clínicas. Os pesquisadores afirmam ter conseguido capturar o SARS-CoV-2 — o vírus da Covid-19 — suspenso no ar em ambiente hospitalar e demonstrar que, mesmo em hospitais, a renovação adequada do ar tem capacidade para reduzir o risco de contaminação. Uma reportagem do Jornal da USP diz que um artigo científico sobre a pesquisa deve ser concluído ainda em agosto.

O texto do Terra Brasil Notícias é basicamente uma reprodução de trechos de uma reportagem do Estadão Conteúdo que foi publicada por vários veículos de imprensa — entre eles o R7, citado como fonte do material. No entanto, a reportagem original não faz a afirmação presente no título checado.

Em nota enviada na quarta-feira (19), o Terra Brasil Notícias reafirmou a alegação de que “a pesquisa faz menção a que pessoas em ambientes fechados são mais vulneráveis à transmissão do vírus” e defendeu que o título publicado “está totalmente de acordo com o estudo feito”. O site também disse que “não fala em confinamento residencial, apesar do estudo não descartar essa hipótese”.

Após a resposta do Terra Brasil Notícias, o Aos Fatos procurou novamente a Omni-eletronica, que afastou qualquer relação entre os resultados de sua pesquisa e uma suposta comprovação da relação entre confinamento e vulnerabilidade à contaminação por Covid-19.

O CEO da empresa, Arthur Aikawa, afirmou que “em nenhum momento” citou o termo “confinamento” em materiais de divulgação, “pois a pesquisa não fala [sobre] este tema”.

Segundo Aikawa, o título usado pelo Terra Brasil Notícias não corresponde ao resultado da pesquisa.

“O título não está em conformidade com o resultado da pesquisa, pois nosso estudo não avaliou o efeito de medidas de distanciamento e/ou isolamento social”, disse. “A matéria do R7 não usou este título nem esta informação, pois foi réplica de uma entrevista que eu concedi para o jornal O Estado de S. Paulo.”

A peça de desinformação circulou principalmente em grupos bolsonaristas, acompanhada de questionamentos sobre a necessidade de isolamento social e de críticas ao ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e aos governadores que defenderam tal medida.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) é um crítico do isolamento social amplo como medida de combate à Covid-19. O monitoramento de declarações de Bolsonaro feito pelo Aos Fatos mostra que, em pelo menos cinco ocasiões neste ano, o presidente fez a alegação falsa de que 70% das pessoas com Covid-19 em Nova York se contaminaram em casa. Esta é uma interpretação errada de um dado apresentado pelo governador do estado americano que, na verdade, não trazia informações sobre o local do contágio (leia a checagem sobre o assunto).

A agência Lupa e o G1 também publicaram checagens sobre esta peça de desinformação.

Referências:

  1. Jornal da USP

  2. R7

  3. Aos Fatos (1, 2 e 3)

  4. Agência Lupa

  5. G1


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