É falso que início do surto de H1N1 foi mais mortal que o de Covid-19

Por Luiz Fernando Menezes e Bruno Fávero

24 de março de 2020, 17h32


Não é verdade que o surto do vírus H1N1 – que chegou ao Brasil em 2009, durante o governo Lula (PT) – foi mais letal e contagioso do que o do novo coronavírus. Publicações nas redes sociais que difundem essa desinformação sugerem que a imprensa exagera na cobertura da atual pandemia para prejudicar o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). No entanto, elas enganam ao comparar o número de casos nas primeiras semanas da Covid-19 com o acumulado de oito meses da gripe suína. Nos 28 dias desde sua chegada ao país, o novo coronavírus infectou 1.891 pessoas e matou 34; já o H1N1 infectou 627 pessoas e matou uma em seu primeiro mês.

A comparação incorreta foi impulsionada pelo pastor Silas Malafaia em seu perfil oficial no Facebook. Sozinha, publicação dele gerou mais de 10 mil interações, sendo 3.100 compartilhamentos. Postagens semelhantes foram publicadas também por perfis pessoais na rede social, acumulando mais outros milhares de compartilhamentos. Todas elas foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta do Facebook (saiba como funciona).


FALSO

Comparação COVID-19 e H1N1

Uma corrente que vem circulando em redes sociais engana ao sugerir que o surto de H1N1 no Brasil, em 2009, foi mais grave do que o atual de Covid-19. No entanto, as publicações comparam casos de oito meses da gripe suína com os infectados em apenas algumas semanas pelo novo coronavírus. Na verdade, em 28 dias, a Covid-19 infectou 1.891 e matou 34 pessoas, enquanto, em período similar, a H1N1 havia infectado 627 pessoas e matou uma.

Publicações enganosas têm usado a comparação incorreta para insinuar que a imprensa está exagerando na cobertura do novo coronavírus para prejudicar o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

O primeiro caso de coronavírus no país foi confirmado no dia 25 de fevereiro, há cerca de um mês. Até 23 de março havia 1.891 casos confirmados no Brasil e 34 mortes, segundo o Ministério da Saúde,

Segundo a pasta, a H1N1 chegou ao Brasil em maio de 2009, quando foram registrados 20 casos da doença em cinco estados. Em pouco mais de um mês da pandemia, 627 pessoas em todo o país estavam contaminadas com o vírus. A primeira morte pela gripe suína ocorreu no dia 28 de junho, em Erechim (RS). A segunda morte foi apenas no dia 10 de julho. O primeiro mês do surto de H1N1, portanto, foi bem menos agressivo que o da pandemia atual.

Os números apresentados pela peça de desinformação sobre o H1N1 são parecidos com os dados totais de 2009. No ano da pandemia, foram confirmados 50.482 casos de gripe suína e 2.060 pessoas morreram em decorrência dela.

A comparação entre as doenças também não leva em conta que a taxa de mortalidade estimada para a Covid-19 é maior do que a da H1N1. Um estudo de 2013 com dados de 19 países estimou que o surto de 2009 infectou de 20% a 27% da população analisada e matou 0,02% dos doentes.

Já os números para o novo coronavírus são menos consolidados porque a pandemia está no começo. Mas estimativas preliminares (como esta da Universidade de Bern, na Suíça) indicam que sua taxa de mortalidade esteja em torno de 1%. Mesmo estudos mais otimistas para a Covid-19 estimam uma mortalidade significativamente maior do que a de H1N1. Cientistas da LSHTM (London School of Hygiene & Tropical Medicine), por exemplo, calcularam 0,5%

Uma reportagem do jornal O Globo que compara o número de mortes das duas doenças também tem sido equivocadamente compartilhada como evidência de que o H1N1 é mais grave do que o novo coronavírus. O texto aponta que, em 2019, 23% dos casos de H1N1 no Brasil resultaram em morte. Esse número, contudo, não reflete a taxa mortalidade do vírus, porque, como a própria matéria explica, casos leves da doença não costumam ser registrados.

Outro lado. Aos Fatos entrou em contato com a assessoria de comunicação do pastor Silas Malafaia para que ele pudesse comentar a checagem. Sem resposta, a reportagem enviou mensagens ao site oficial do pastor, à sua pagina no Facebook e ao endereço de e-mail disponibilizado. Não houve retorno até a publicação desta checagem, no fim da tarde de terça-feira (24).

Referências:

1. Ministério da Saúde 1, 2 e 3
2. Wiley Online Library
3. Aos Fatos
4. Estadão
5. O Globo 1 e 2
6. Yahoo Notícias
7. Universidade de Bern
8. LSHTM

Este texto foi atualizado às 19h30 do dia 26 de março de 2020 para incluir informações detalhadas sobre estudos que estimaram a mortalidade dos vírus H1N1 e Sars-Cov-2. Também foi incluído um esclarecimento sobre uma reportagem do jornal O Globo que compara as mortes das duas doenças.

Às 12h do dia 31 de março, foi corrigida a informação de que o estudo sobre H1N1 foi conduzido em 90 países – na verdade, foram 19. A correção não muda o selo da checagem. O texto também foi atualizado para esclarecer que, pela margem de erro, os pesquisadores estimam que de 20% a 27% da população analisada –e não 20% da população mundial, como constava– pode ter sido infectada pela doença.


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