Isac Nóbrega/PR

Tuíte de Ciro Nogueira iniciou onda desinformativa sobre Pix

Por Ethel Rudnitzki e João Barbosa

5 de agosto de 2022, 17h25

Uma série de tuítes com informações falsas sobre o Pix, publicada pelo ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP), serviu como ponto de partida para uma onda desinformativa sobre o assunto. A partir da thread, apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL) espalharam desde mentiras sobre a autoria do meio de pagamento até um suposto plano do ex-presidente e pré-candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de, caso seja eleito, acabar com a inovação para beneficiar os bancos — o petista desmentiu.

Após a publicação de Nogueira, interações em conteúdos enganosos sobre o Pix aumentaram dez vezes no Twitter e se espalharam para outras redes, revela levantamento do Radar Aos Fatos.

O ministro publicou, no dia 26 de julho, que os principais bancos do país teriam perdido entre R$ 30 bilhões e R$ 40 bilhões após a implementação do Pix, na tentativa de justificar por que banqueiros assinaram um manifesto em defesa da democracia. A cifra exagera até estimativas superestimadas que reúnem todas as tarifas cobradas por bancos, não só as de transferências.

  • Nas 24 horas anteriores à postagem, publicações enganosas sobre Pix somavam pouco mais de 6.000 interações (curtidas e retuítes).
  • No dia seguinte, o número chegou a 60,7 mil.
  • Durante os sete dias que seguiram, conteúdos falsos sobre os pagamentos instantâneos totalizaram 170 mil interações.

O Aos Fatos procurou a assessoria de Nogueira na quinta-feira (28), mas o ministro não respondeu ao pedido de comentário. Impulsionadas pelo tuíte do político do PP, postagens enganosas sobre o Pix também se espalharam por outras redes:

  • No Facebook, o título de um texto do site Terra Brasil Notícias foi replicado pelo menos 88 vezes, chegando a 29,4 mil interações. Entre os replicadores estão o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o vereador carioca Carlos Bolsonaro (PL-RJ).
  • No TikTok, o influenciador bolsonarista Alberto Silva publicou um vídeo que chegou a mais de 850 mil visualizações, no qual repete os falsos R$ 40 bilhões de prejuízo aos bancos.

As postagens desinformativas ganharam nova tração após fala de Bolsonaro, dois dias depois. Durante conversa com apoiadores no cercadinho do Palácio do Planalto, o presidente repetiu o argumento desinformativo de Nogueira, de que banqueiros teriam assinado manifesto devido à perda de receitas com o Pix.

Além disso, ele afirmou que o meio de pagamento teria sido uma criação de seu governo. Na verdade, o Pix começou a ser desenvolvido por servidores do Banco Central em 2016, na gestão de Michel Temer (MDB). A reivindicação de autoria do meio de pagamento já foi repetida pelo presidente em outras oito ocasiões desde maio.

TRÊS DESINFORMAÇÕES SOBRE PIX

Diferentes alegações falsas sobre os pagamentos instantâneos apareceram após o tuíte do ministro.

1. A mais popular delas é a de que os bancos teriam tido grandes prejuízos com o meio de pagamento.

Ao menos 42 publicações, que somaram 71,4 mil interações, repetiram as cifras infladas por Nogueira, entre elas uma postagem do ex-secretário de Cultura do governo e pré-candidato à Câmara, Mario Frias (PL-RJ), com 4.000 interações, e outra da deputada Caroline de Toni (PL-SC), com 4,5 mil. Outras 14 mil interações foram para postagens com uma nova cifra — também superestimada — que dizia que os bancos perderão R$ 22 bilhões devido ao Pix em 2022.

A nova estimativa foi citada por Bolsonaro em sua live semanal de quinta-feira (28), e também exagera os índices, pois considera os custos que teriam sido feitos caso todas as transações por Pix tivessem sido feitas por TED ou DOC, desconsiderando, por exemplo, casos em que há cobrança de tarifa via Pix.

Algumas publicações ainda alegavam que os bancos teriam lucrado menos durante o governo Bolsonaro. Na verdade, as quatro maiores instituições financeiras do país registraram o 4º maior lucro da história em 2021, o maior desde 2006, no primeiro mandato de Lula.

2. Também ancorada nas falas de Bolsonaro e Nogueira, a segunda desinformação mais popular sobre o assunto é a de que Jair Bolsonaro teria sido responsável pela criação do meio de pagamento, chegando a 41,7 mil interações.

Além do presidente, um dos puxadores desse tipo de conteúdo foi o perfil Dama de Ferro, que, ao comparar com ironia feitos dos governos Lula e Bolsonaro, citou o Pix como feito do atual mandatário — e somou 18,8 mil interações.

Print de tuíte do perfil Dama de Ferro que atribui falsamente a criação do Pix ao governo Bolsonaro

3. Lula foi o terceiro tema mais relacionado à desinformação sobre o Pix. Tuítes que diziam que o petista pretende acabar ou taxar o Pix caso eleito chegaram a 39,3 mil interações após a fala do ministro.

A informação falsa, desmentida pela campanha petista, foi impulsionada por um texto publicado pelo site Terra Brasil Notícias, com o título: “Banqueiros têm esperanças que Lula revogue Pix”, no dia 27 de julho. Prints falsos diziam que o G1 teria publicado que Lula negociou apoio com os bancos em troca da revogação do Pix — trata-se de uma montagem, já desmentida pelo site do Grupo Globo.

No dia seguinte (28), o ex-presidente afirmou que não tem intenção de acabar com a ferramenta e que é a favor da inclusão bancária. Além disso, devido à autonomia do Banco Central, aprovada pelo Congresso durante o governo Bolsonaro, nem Lula nem qualquer outro eleito ao cargo poderia sozinho revogar o Pix.


INSINUANDO RELAÇÕES

Além de Bolsonaro e Ciro Nogueira, outros políticos e influenciadores também relacionaram a assinatura de banqueiros ao manifesto pela democracia com insatisfações geradas pelo meio de pagamento, mas não desinformaram, apenas expressaram opiniões.

  • Na noite anterior ao tuíte do ministro, a youtuber Bárbara Destefani, do canal “Te Atualizei”, insinuou a relação entre banqueiros, manifesto pela democracia, Pix e Lula, citando cifras corretas.
  • Em tuíte que chegou a 7.000 interações, a deputada Carla Zambelli (PL-SP) também pediu para seus seguidores “ligarem os pontos” entre esses elementos, sem citar números, apenas um “prejuízo bilionário” aos bancos.

print de tuíte da deputada Carla Zambelli

METODOLOGIA

Por meio da API do Twitter, o Radar Aos Fatos coletou todas as publicações que citavam Pix, junto com o ex-presidente Lula ou as cifras citadas pelo ministro Ciro Nogueira, feitas nos sete dias entre 25 de julho e 1º de agosto de 2022. Depois, a reportagem analisou as 342 publicações com mais curtidas e comentários da amostra — que representavam 95% do total de interações — para identificar a presença ou não de desinformação.

Referências:

1. Aos Fatos (1, 2, 3)

2. G1

3. iG

4. O Estado de S. Paulo

sobre o

Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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