Aniversário do 8 de Janeiro mostra que elementos da tentativa de golpe ainda estão aí

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No ato no Congresso que marcou o primeiro aniversário do 8 de Janeiro, o tema da desinformação foi citado nos discursos dos chefes dos três Poderes e do presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), ministro Alexandre de Moraes — que voltou a criticar a falta de regulação das redes, “um dos grandes perigos modernos da democracia”, segundo ele.

Enquanto isso, em bolhas radicais, parlamentares de oposição ao governo Lula (PT) pregaram a tese revisionista de que a tentativa de golpe de Estado ocorreu “sem armas” e “com senhorinhas orando”.

EM 5 PONTOS:

  • Em 2023, desinformação buscou eximir Bolsonaro de culpa pelo 8 de Janeiro;
  • Com farto conjunto de evidências, o STF ainda irá julgar se ele cometeu crimes;
  • Aliados do ex-presidente continuam a usar mentiras nas redes como arma política, inclusive para defendê-lo;
  • Ao chamar Bolsonaro de “golpista” em ato no Congresso, Lula cedeu justificativa a Lira e outros ausentes;
  • Elementos que levaram ao 8 de Janeiro ainda estão presentes, e, apesar dos discursos, não há motivo para esperança.

E MAIS: Réus desinformam enquanto aguardam julgamento.


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8 de Janeiro, ano um

Durante todo o ano passado, diferentes justificativas falsas para a intentona extremista que acometeu Brasília buscaram eximir Jair Bolsonaro (PL). De supostos “infiltrados da esquerda” a teorias conspiratórias sobre integrantes do atual governo, apoiadores do ex-presidente forjaram realidades paralelas em que ele não teve um pingo de responsabilidade pelo ocorrido.

No mundo real, porém, dois dias após a invasão da praça dos Três Poderes Bolsonaro publicou um vídeo no Facebook insinuando fraude nas eleições de 2022. Esse e outros possíveis crimes serão julgados pelo STF (Supremo Tribunal Federal), que até agora condenou apenas golpistas da base da cadeia alimentar.

Ainda não é possível, portanto, afirmar que Jair Bolsonaro é culpado pelo 8 de Janeiro perante o Judiciário: o STF dará a palavra final nos vários casos envolvendo o ex-presidente. Ganha um Rolex contrabandeado da Arábia Saudita quem adivinhar qual é a tendência.

A resposta é óbvia não porque o tribunal fará um julgamento parcial, como insinuam bolsonaristas. É só que o conjunto de evidências é farto e está muito bem documentado — dos posts às joias —, sem contar a delação do tenente-coronel Mauro Cid, que deve servir de fio condutor para costurar todas as eventuais ilegalidades.

Apesar da situação periclitante de Bolsonaro diante da Justiça, aliados que habitam para lá da “ribanceira moral” citada pelo presidente do STF, ministro Luís Roberto Barroso, continuam utilizando a desinformação como ferramenta.

A ausência mais notada no Congresso foi a do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que tomou a frente em um boicote que incluiu partidos do Centrão com ministérios no governo Lula. Quinze governadores e quatro integrantes do STF também não compareceram: além dos indicados por Bolsonaro, André Mendonça e Nunes Marques, os ministros Dias Toffoli e Luiz Fux não quiseram interromper as férias.

O evento passou longe do consenso que o governo Lula buscou reunir, inclusive por conta do próprio presidente, que foi o último a discursar e mencionou o antecessor como “ex-presidente golpista”. Se um dos motivos que levou Lira e outras figuras do Centrão a não dar as caras foi o receio de que seria um “evento petista”, a fala do presidente acaba por servir de justificativa posterior.

Não porque Bolsonaro não seja, de fato, um ex-presidente gopista. Mas, até que haja decisão do STF que possa atestar o epíteto, o uso ainda se enquadra no campo da opinião, por mais que seja uma opinião calcada em evidências concretas, e não na concepção jurídica.

Espaços e figuras institucionais devem respeitar os ritos e as palavras da institucionalidade, e Lula deu munição aos adversários ao ignorar essa perspectiva. Quem já acredita que existe um “governo Lula–STF”, termo utilizado em sites alinhados a Bolsonaro, encontrará ainda mais motivos para validar essa ficção.

Um ano depois, continuam à disposição todos os elementos que impulsionaram o 8 de Janeiro. Em discursos ensaiados, os chefes de Poderes condenaram a disseminação de mentiras — mas nada mudou na legislação desde então. Tudo como dantes no quartel d’Abrantes. Feliz 2024. Quem sabe no ano que vem haja mais motivo para esperança.


🟢🟡 Para não esquecer

  • Das primeiras horas após os atos golpistas até hoje, o Aos Fatos produziu reportagens que combateram a desinformação sobre o 8 de Janeiro e ajudaram a explicar o acontecimento;
  • Com mídias coletadas pelo Radar Aos Fatos, construímos o Golpeflix, especial lançado em março que é uma amostra histórica do conteúdo que alimentou o extremismo;
  • O projeto contou com apoio da Fundação Muckrock, e o acervo com milhões de mídias coletadas foi compartilhado com 37 pesquisadores e jornalistas;
  • Conteúdos de cinco plataformas (Facebook, Instagram, WhatsApp, X e YouTube) fazem parte do banco de dados, além de publicações de sites hiperpartidários;
  • Em 2023, o Radar Aos Fatos passou por testes para utilizar tecnologia de LLM (sigla em inglês para Grande Modelo de Linguagem) capaz de analisar e classificar conteúdos com mais precisão que outras tecnologias;
  • No primeiro aniversário do 8 de Janeiro, esses dados serviram para mostrarmos as versões falsas que mais circularam desde então;
  • Revelamos também que réus pela tentativa de golpe continuam a publicar desinformação nas redes enquanto aguardam julgamento. Leia a íntegra.

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