Alvo de operação sobre 8 de Janeiro, Carlos Jordy compartilhou vídeos em defesa de intervenção militar após eleições

Por Luiz Fernando Menezes

18 de janeiro de 2024, 17h52

Alvo de uma operação de busca e apreensão nesta quinta-feira (18/01) em meio a investigações sobre o 8 de Janeiro, o deputado federal Carlos Jordy (PL-RJ) afirmou, em vídeo publicado nas redes, que nunca incitou ou apoiou qualquer manifestação antidemocrática. A declaração vai na contramão de posicionamentos adotados após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de 2022, época em que o parlamentar compartilhou vídeos que faziam menção a uma intervenção militar.

“Eu em momento algum do 8 de Janeiro eu incitei, falei para as pessoas que aquilo era correto, em momento algum eu estive nos quartéis-generais quando estavam acontecendo todos aqueles acampamentos, nunca apoiei nenhum tipo de ato tanto anterior ou depois do 8 de Janeiro, embora as pessoas tivessem todo seu direito de fazer suas manifestações contra o governo eleito.” — Carlos Jordy, em vídeo publicado em 18 de janeiro de 2024.

Aos Fatos não encontrou registros públicos de que Jordy, hoje líder da oposição ao governo Lula, tenha participado de acampamentos antidemocráticos ou publicado em suas redes convocações para manifestações entre o fim do segundo turno e o 8 de Janeiro.

O parlamentar, no entanto, foi responsável por disseminar gravações em que comentaristas incitavam atos golpistas ou defendiam os manifestantes nos quartéis. Juntas, as publicações acumularam mais de 62 mil interações e 700 mil visualizações no Facebook e no Instagram.

Post de Jordy no Instagram no dia 5 de dezembro de 2022 mostra trecho de programa da Jovem Pan com manchete ‘Bolsonaro chora durante evento das Forças Armadas’
‘Ponta do iceberg’. Na entrevista, Salles, então deputado federal eleito, explicou que Bolsonaro esperava um sinal dos militares (Reprodução/Instagram)

  • Um exemplo é um vídeo postado em 5 de dezembro de 2022 que traz fala do deputado federal Ricardo Salles (PL-SP) na Jovem Pan News. Em resposta às críticas sobre o silêncio de Jair Bolsonaro (PL) e de parlamentares de direita, Salles afirma que o presidente espera um sinal dos militares. “Você tem um chefe supremo das Forças Armadas que olha para os seus oficiais-generais e se indaga: essa turma tá comigo ou não tá comigo? Essa turma é pela legalidade ou é pela comodidade? Quantos são melancias, quanto são bananas e quantos são linha-dura?”;
  • A fala de Salles foi compartilhada por Jordy com legenda que dizia: “Quem vive criticando deputados aliados do Presidente Bolsonaro por não se manifestarem com mais firmeza junto com a população está apenas olhando a ponta do iceberg”;
  • no dia 7 de dezembro, o parlamentar publicou entrevista concedida pelo ex-prefeito de Tapurah (MT) Carlos Capeletti, à Jovem Pan News. O político foi afastado do cargo pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes por incentivar a “subversão da ordem” em Brasília;
  • No vídeo, o ex-prefeito afirma estar participando dos acampamentos golpistas porque “as pessoas não tão acreditando nas eleições, as pessoas querem alguma atitude das Forças Armadas”;
  • Outra gravação com teor similar foi publicada em 4 de dezembro. Nela, os apresentadores do canal do YouTube 4 por 4 discutem se havia ou não a possibilidade de Bolsonaro “tomar uma atitude mais drástica”. O comentarista Rodrigo Constantino diz então que era necessária uma “concertação mais vigorosa”, que envolvesse a Presidência, o Congresso e as Forças Armadas, para “impedir a catástrofe do ladrão voltando à cena do crime e subindo a rampa”;
  • Jordy também compartilhou um trecho do programa Pânico de 12 de dezembro com a legenda “Rodrigo Constantino comenta sobre o futuro do Brasil”. Ao ser questionado na gravação se Bolsonaro iria “se manifestar da maneira que o povo está pedindo”, Constantino responde que o presidente estaria tentando “fazer um apelo até para que as Forças Armadas realmente cumpram o seu dever patriótico e constitucional de evitar o Brasil virar a próxima Venezuela”.
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Aos Fatos também identificou ao menos duas publicações nas quais Jordy fez comentários que, apesar de não convocarem diretamente para manifestações, incitam a revolta de eleitores.

Em vídeo postado em 19 de dezembro de 2022, por exemplo, o deputado sugeria que o Brasil iria seguir os passos da ditadura venezuelana. O conteúdo foi compartilhado com legenda que alegava que Lula estaria usando o STF para retirar os poderes do Congresso. “É hora de reação!”, dizia o texto.

Post de Jordy no Instagram no dia 19 de dezembro de 2022 traz vídeo com legenda ‘ou aprendemos com os erros dos outros ou sofreremos as mesmas consequências’
‘Hora de reação’. Jordy comparou situação brasileira com a venezuelana por conta de decisões do STF após a vitória de Lula (Reprodução/Instagram).Intertítulo. LegendaComNoMáximoDuasLinhas

Cerca de duas semanas depois, o parlamentar também publicou no X (ex-Twitter) uma crítica à decisão do ministro Alexandre de Moraes de banir bolsonaristas das redes. “Essa é a democracia tão bradada pela esquerda e determinada pelo Supremo. Lembra do “Brasil, ame ou deixe-o”? Agora é, Lute ou fuja!”.

Tuíte de Jordy do dia 30 de dezembro de 2022, onde se lê ‘Constantito, Figueiredo e Conrado, os mais novos banidos das redes. Essa é a democracia tão bradada pela esquerda e determinada pelo Supremo’.
'Lute ou fuja!'. Banimento de bolsonaristas foi considerado ‘censura’ por Jordy nas redes (Reprodução/X)

Depois do 8 de Janeiro. Vale ressaltar que o parlamentar também foi um dos principais defensores da teoria conspiratória de que infiltrados de esquerda teriam sido os responsáveis pela depredação no 8 de Janeiro.

No dia da invasão, por exemplo, ele publicou um vídeo que mostrava um homem sendo preso, acompanhado da legenda: “Inúmeras pessoas afirmam que os atos foram provocados por esquerdistas infiltrados como esse do vídeo”. Além de nada nas imagens provar que o homem era de esquerda, ele mesmo diz na gravação que era bolsonarista e estava acampado no quartel de Brasília.

Jordy continuou defendendo a tese meses depois do ataque e foi um dos responsáveis por pressionar pela criação da CPMI do 8 de Janeiro.

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Denúncia. De acordo com o subprocurador-geral da República Carlos Frederico do Santos, responsável pelo pedido que gerou a recente operação de busca e apreensão, Jordy, “além de orientar grupo expressivo de pessoas, tinha o poder de ordenar as movimentações antidemocráticas, seja pelas redes sociais ou agitando a militância da região”. O parlamentar é investigado por liderar atos antidemocráticos no Rio de Janeiro, como bloqueios de rodovias, que teriam culminado no 8 de Janeiro.

De acordo com o inquérito obtido pelo jornal O Globo, o deputado teria trocado mensagens com Carlos Victor de Carvalho, conhecido como CVC, preso sob suspeita de ter financiado ônibus que levaram manifestantes para os atos golpistas. De acordo com o documento, CVC chamou Jordy de “meu líder” em novembro, quando foram feitas paralisações em diversas rodovias após a vitória de Lula. Ele também entrou em contato com o deputado enquanto estava foragido da polícia, em janeiro de 2023.

Outro lado. Aos Fatos entrou em contato com o gabinete do deputado na tarde desta quinta-feira (18). Até a publicação desta reportagem, no entanto, não houve resposta.

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