Termômetro infravermelho não causa danos à glândula pineal

Por Bernardo Barbosa

14 de agosto de 2020, 15h20


É falso que termômetros infravermelhos causem danos à glândula pineal, como sustentam posts e vídeos que circulam no Facebook (veja aqui). O aparelho não dispara raios: a temperatura é medida pela radiação infravermelha emitida pelo próprio corpo humano.

A peça de desinformação afirma ainda que a medição da temperatura no pulso é “mais precisa” e que a glândula pineal fica “no centro da testa”, o que não é verdade; e que ela “influencia o desenvolvimento sexual” e tem “atividade antioxidante”, tópicos sobre os quais não há consenso na ciência.

No Facebook, a peça de desinformação reunia ao menos 2.400 compartilhamentos nesta sexta-feira (14). O conteúdo foi marcado com selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (saiba como funciona).


FALSO

Estamos sendo dessensibilizados ao direcionarmos isso à cabeça e também causando problemas de saúde potenciais ao apontar um raio infravermelho para a glândula pineal?

Publicações no Facebook trazem a alegação falsa de que termômetros infravermelhos emitem um “raio infravermelho” que prejudicaria a glândula pineal. Estes termômetros são aqueles em formato parecido com o de uma pistola, que medem a temperatura ao serem apontados para a testa de uma pessoa.

A afirmação faz parte de um suposto testemunho de “uma enfermeira australiana”, cujo nome não é citado. Um outro trecho do texto diz que a enfermeira passou a “medir a temperatura no pulso, que acabou sendo mais precisa, já que a testa é mais fria do que o pulso, e os resultados diferem em mais de um grau em alguns casos”, o que também é incorreto.

O termômetro que mede a temperatura apontado para a testa não emite raios infravermelhos; na verdade, faz a medição ao captar a radiação infravermelha emitida pelo próprio corpo humano, explicam os professores Rickson Mesquita, do Instituto de Física da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas); e Fabiano Bernardi, do Instituto de Física da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

“Todo corpo naturalmente emite radiação eletromagnética na região do infravermelho. A intensidade da radiação emitida está relacionada à temperatura do corpo. O termômetro de infravermelho mede a intensidade da radiação de infravermelho emitida pela superfície de um corpo para inferir sobre a temperatura desse corpo”, disse Bernardi em e-mail enviado para o Aos Fatos.

Sendo assim, afirmou o professor, “não existe raio infravermelho sendo incidido sobre a cabeça do ser humano durante a medida de temperatura. É exatamente o oposto que acontece; o ser humano emite radiação eletromagnética na região do infravermelho em várias direções, incluindo a do termômetro, que mede a intensidade e converte esse valor em temperatura. Ou seja, não há prejuízo ao corpo humano”.

De acordo com Rickson Mesquita, da Unicamp, nenhum termômetro que usa o infravermelho dispara radiação eletromagnética. “Um termômetro desse tipo é apenas um detector, e não uma fonte de radiação infravermelha.”

“Ele [o termômetro] usa o fato, bem conhecido na Física desde o final do século 19 e explicado por Max Planck em 1900, de que todos os objetos que têm uma certa temperatura emitem radiação. Esse fenômeno é chamado de radiação de corpo negro. Nosso corpo, por estar permanentemente regulando a temperatura (normalmente, por volta de 36-37°C), emite radiação infravermelha. O tipo de radiação emitida (tecnicamente falando, a intensidade da radiação em diferentes comprimentos de onda) depende da temperatura do corpo”, disse o professor.

Mesquita explica ainda que há uma razão para o termômetro ser usado na testa:

“Como a temperatura interna do nosso corpo pode ser ligeiramente diferente da temperatura da superfície, esses termômetros são calibrados antes de comercializados, e geralmente se usa a testa como a área de calibração. Por isso, em geral, se recomenda usar a testa — para que a medida seja mais parecida com a da calibração e, com isso, aumente a precisão na medida da temperatura.”

Por fim, a luz vermelha que existe em alguns termômetros do tipo também não tem nada a ver com um suposto “raio infravermelho”, mas apenas serve como um guia para a medição da temperatura no local correto, de acordo com o professor da Unicamp.

“Isso ocorre para que as pessoas usem a luz vermelha como guia e, com isso, apontem o detector do infravermelho para o lugar correto. Mas essa luz do equipamento é uma luz visível. Afinal, se as pessoas estão vendo a luz, é porque ela é visível, e não infravermelho — nossos olhos não conseguem enxergar o infravermelho emitido pelos nossos corpos. É igual a uma luz de um LED, e como qualquer outra luz visível, não faz nenhum mal ao corpo humano”, afirmou Mesquita.

A FDA, agência do governo americano que regula o uso de medicamentos e equipamentos médicos, entre outros produtos, diz em seu site que o uso dos termômetros infravermelhos tem como benefício a redução do risco de contaminação cruzada, já que não há contato físico.

Glândula pineal. Segundo o neurologista José Renato Felix Bauab, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, não há respaldo científico para dizer que o uso do termômetro atinge a glândula pineal.

“Em relação ao termômetro atingir a glândula pineal, isso não tem respaldo científico, não tem sentido nenhum. E muito menos aferir temperatura no cotovelo ou no pulso, que não são locais onde se afere temperatura no corpo humano”, explicou Bauab.

De acordo com o médico, a temperatura no corpo humano deve ser medida de preferência nas axilas, e “não tem problema nenhum” fazer a aferição na região frontal da testa. Em nível hospitalar, podem ser usadas aferições pelo reto, bexiga ou esôfago, disse o neurologista.

Outra alegação falsa do texto que circula nas redes sociais é a de que a glândula pineal fica “no centro da testa”. Na realidade, ela está no centro do cérebro, em uma região mais profunda que a da testa, de acordo com Bauab.

O post também fala sobre as funções da glândula pineal, dizendo que ela seria responsável pela produção de melatonina e influenciaria os ciclos do sono. As informações deste trecho são corretas, afirmou o médico. “Ela [glândula pineal] tem a ver com a secreção da melatonina, conhecida como o ‘hormônio do sono’, que regula o relógio biológico”.

Já as alegações de que a glândula “influencia o desenvolvimento sexual” e o sistema imunológico, além de ter “atividade antioxidante” ainda são controversas entre cientistas.

“Em relação à atividade antioxidante ou no restante do aparato hormonal-sexual, tem muita controvérsia sobre o papel dela, se seria apenas marginal ou se teria um papel realmente importante, central nisso. Provavelmente não é central, mas algo periférico. Há alguns indícios um pouco mais fortes no sentido de proteção imunológica”, afirmou Bauab.

A circulação de falsidades sobre a medição de temperatura pela testa e a suposta presença de raios infravermelhos não acontece só no Brasil. Desde maio, pelo menos 14 conteúdos com informações falsas sobre o assunto foram identificados em países da América Latina, da Europa e do Oriente Médio, de acordo com a base de dados reunida pela aliança internacional de checagem CoronaVirusFacts, liderada pela IFCN (International Fact-Checking Network).

O suposto testemunho da “enfermeira australiana”, por sua vez, teve quase 6.000 compartilhamentos em posts escritos em francês no Facebook, de acordo com checagem feita pela agência de notícias AFP no fim de julho.

O site Boatos.org também publicou uma checagem sobre esta peça de desinformação.

Referências:

1. FDA
2. IFCN (1, 2 e 3)
3. AFP
4. Boatos.org


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