Segurança das eleições foi questionada no Twitter por ao menos dez parlamentares

Por Bruno Fávero, Débora Ely, João Barbosa e Marina Gama Cubas

17 de novembro de 2020, 19h57


Ao menos dez parlamentares estiveram entre os perfis que mais geraram engajamento no Twitter ao disseminar mensagens nos últimos dias que questionam a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro, mostra levantamento do Radar Aos Fatos. A lista inclui principalmente nomes de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), como os deputados federais Filipe Barros (PSL-PR), Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e Carla Zambelli (PSL-SP).

Esses dez perfis concentraram mais de 178 mil interações (curtidas e retweets), ou 24% do engajamento total dos 160 posts mais populares que reproduziram esse discurso (742 mil interações) entre domingo (15), dia da eleição, e segunda-feira (16).

As postagens analisadas incluem tanto publicações claramente desinformativas —como aquelas que acusavam fraude na eleição de domingo— quanto mensagens que apenas expressavam desconfiança do sistema eleitoral. Posts que somente defendiam a adoção do voto impresso, sem explicitamente questionar a segurança das eleições, não foram considerados.

A mensagem mais popular do levantamento foi a do deputado federal Filipe Barros (PSL-PR), que usou o vazamento de dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para questionar a segurança das urnas eletrônicas. Como o Aos Fatos mostrou, o ataque hacker não está relacionado ao sistema que contabiliza e transmite os votos das eleições.

Em tom mais moderado, Eduardo Bolsonaro, o segundo parlamentar que mais engajou nesse universo, citou o posicionamento do TSE sobre o caso, mas disse que "há sempre o risco" de um ataque afetar a eleição e que isso não aconteceria "se já tivesse sido implementado o voto impresso".

A terceira parlamentar da lista foi Carla Zambelli, que afirmou não acreditar que "o sistema [de apuração dos votos] trave desta forma sem fraude envolvida".

Aviso. A publicação de Filipe Barros foi rotulada pelo Twitter com a mensagem "Esta reivindicação de fraude é contestada". A iniciativa é uma reedição no Brasil da estratégia da plataforma de restringir a disseminação de desinformação eleitoral implementada recentemente nas eleições dos Estados Unidos.

Dentre os 160 tweets encontrados pela reportagem, 15 (9,4%) foram marcados pelo Twitter por conterem informações enganosas sobre as eleições municipais. Doze mensagens receberam a marca “Esta reivindicação de fraude é contestada” e três, “Saiba por que urnas eletrônicas são seguras”.

Além de Barros, a única parlamentar que aparece no levantamento do Radar Aos Fatos e foi afetada pela política do Twitter foi a deputada federal Bia Kicis (PSL-DF), ao reproduzir um tweet do empresário Winston Ling.

A deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), candidata derrotada à Prefeitura de São Paulo, também teve um tweet marcado pela plataforma, que não apareceu nesta análise porque foi excluído antes da coleta feita pela reportagem.

As outras 13 publicações rotuladas pela plataforma, além das de Kicis e Barros, são de blogueiros e influenciadores bolsonaristas, que também são o grupo mais presente no levantamento do Radar — publicaram 111 das 160 (69%) mensagens encontradas e concentraram 66% do engajamento total.

Nesses grupos, os perfis que mais somaram engajamento com o discurso foram o blogueiro Bernardo Kuster, do site Brasil Sem Medo; o jornalista Oswaldo Eustáquio; e a conta @taoquei1, da youtuber Bárbara Destefani, do canal Te Atualizei.

Eustáquio, que teve três de suas mensagens marcadas pelo Twitter, foi alvo de buscas pela PF (Polícia Federal) e teve sua prisão domiciliar decretada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) nesta terça-feira (17). Segundo o ministro Alexandre de Moraes, ele descumpriu medidas cautelares impostas após sua prisão anterior, em junho, deslocando-se de Brasília sem autorização prévia e mantendo-se ativo nas redes sociais. Ele é um dos investigados no inquérito do STF que apura a organização e o financiamento de atos antidemocráticos.

Nas mensagens publicadas desde domingo, Eustáquio afirmou, por exemplo, que o vazamento de dados do TSE demonstra que as urnas foram fraudadas, teoria que o Aos Fatos já desmentiu.

Nas mensagens marcadas pelo Twitter, também aparecem publicações de Alan Lopes (PSD-RJ), que concorreu, sem êxito, a uma vaga na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

Procurada, a assessoria de imprensa do Twitter disse que não dispõe de um levantamento sobre quantas mensagens sobre as eleições brasileiras foram rotuladas pela plataforma – nos Estados Unidos, segundo o BuzzFeed News, houve mais de 300 mil marcações de tweets que difundiam dados enganosos sobre as eleições americanas.

De acordo com a Política de Integridade Física do Twitter, atualizada em setembro deste ano devido ao processo eleitoral, são removidas ou mantidas com avisos na plataforma as mensagens que “tenham como intuito minar a confiança do público em uma eleição ou outro processo cívico”.

As regras incluem “informações falsas que podem causar confusão sobre leis e regulamentos”, “afirmações contestadas que podem minar a fé no próprio processo”, incluindo mensagens não verificadas sobre fraude eleitoral e adulteração de urnas, e “alegações enganosas sobre resultados”.

Outro lado. A reportagem entrou em contato com todos os nomes citados nesta reportagem.

A responsável pela conta @taoquei1, Bárbara Destefani, afirmou: "Como cidadã, que pensa, que possui senso crítico, me sinto no direito de questionar absolutamente tudo pois esse processo eleitoral é de extrema importância para o nosso Estado democrático de direito". Disse, também, que é obrigação do TSE "sanar absolutamente todas as dúvidas e questionamentos que apareçam para que nós, eleitores, possamos seguir confiantes que esse processo é justo".

A deputada Bia Kicis, por meio de sua assessoria, manifestou que "vem travando a luta por uma eleição segura há mais de seis anos" e que "isso não tem nada a ver com quem está no poder no momento". Afirmou, também, que "é inaceitável que instituições republicanas insistam em barrar o voto impresso e impedir eleições seguras no Brasil".

A deputada Carla Zambelli, também por meio de sua assessoria, disse que "todo sistema de votação é passível de fraude. Cabe à autoridade eleitoral, não ao cidadão, provar que o resultado é confiável, mediante possibilidade de auditoria e contagem física manual. Tudo o que é inauditável é suspeito de fraude. Imcube ao TSE provar que ela não ocorreu".

Metodologia. Por meio de uma busca na API do Twitter, foram capturados 75.741 tweets únicos publicados da meia-noite de domingo (15) até às 22h de segunda-feira (16) que contivessem termos relacionados a acusações de fraude eleitoral.

Com uma análise de modularidade no programa Gephi, os perfis foram divididos em três grandes grupos, de acordo com o nível de interação entre eles —perfis que se retweetam muito, por exemplo, tendem a ficar no mesmo grupo.

Em seguida, foi selecionado o grupo dentre esses três que reproduzia com mais frequência o discurso de que as eleições brasileiras não são confiáveis. As 245 mensagens com mais engajamento desse grupo foram então analisadas qualitativamente.

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Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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