OMS e EMA não disseram que doses de reforço da vacina contra Covid-19 danificam sistema imunológico

Por Priscila Pacheco

24 de fevereiro de 2022, 14h58

Não é verdade que a OMS (Organização Mundial de Saúde) e a EMA (Agência Europeia de Medicamentos) disseram que doses de reforço das vacinas contra Covid-19 danificam o sistema imunológico, como circula nas redes sociais (veja aqui). Postagens distorcem declarações das instituições sobre a necessidade de desenvolver novos imunizantes ou de atualizar os existentes. Ambas recomendam a aplicação de um primeiro reforço, principalmente em pessoas mais vulneráveis, mas questionam as injeções periódicas.

As postagens enganosas contam com ao menos 1.987 compartilhamentos nesta quarta-feira (24).


Selo falso

OMS e EMA declaram: Doses de reforços podem danificar o sistema imunológico

Texto enganoso sobre OMS e EMA serem contra reforço da vacina

Postagens que começaram a circular no início de janeiro enganam ao dizer que a OMS (Organização Mundial da Saúde) e a EMA (Agência Europeia de Medicamentos) declararam que doses de reforço das vacinas contra Covid-19 podem danificar o sistema imunológico. Aos Fatos não encontrou declarações das instituições com esse teor.

As peças de desinformação usam a reprodução do título de um texto publicado em 12 de janeiro no site de Karina Michelin, que se apresenta como jornalista. A publicação distorce reportagens da agência de notícias italiana Ansa e do jornal The New York Times para dizer que as vacinas não funcionam contra variantes do vírus.

A reportagem da Ansa citada foi publicada em 11 de janeiro e traz as ressalvas feitas pelo Grupo Técnico Consultivo da OMS sobre a aplicação global de doses de reforço repetidas.

Segundo a agência italiana, especialistas da organização disseram que a aplicação sistemática dos mesmos imunizantes tem poucas chances de ser apropriada ou sustentável, já que as vacinas existentes precisariam ao menos serem atualizadas contra novas variantes. A OMS defende a primeira dose de reforço, mas pondera que é necessário priorizar o acesso ao sistema primário de vacinação (duas doses ou dose única).

O chefe de Estratégias de Vacinas da EMA, Marco Cavalieri, disse em entrevista em 11 de fevereiro que a aplicação de doses de reforço a cada quatro meses pode não ser sustentável a longo prazo:

Estão surgindo debates sobre a aplicação de uma segunda dose de reforço com as vacinas atualmente utilizadas. Ainda não há dados para embasar essa abordagem. Embora um reforço adicional pudesse ser considerado como uma estratégia de emergência temporária, a vacinação repetida em um curto espaço de tempo não seria uma estratégia sustentável em longo prazo. Se tivermos uma estratégia onde damos reforços, digamos, a cada quatro meses, mais ou menos, acabaremos, potencialmente, tendo problemas com a resposta imunológica, e a resposta imunológica pode acabar não sendo tão boa quanto gostaríamos. Portanto, é preciso ter cuidado para não sobrecarregar o sistema imunológico com vacinações repetidas.

Procurada por Aos Fatos, a assessoria de imprensa da EMA explicou que, quando Cavalieri se referia a uma “sobrecarga” do sistema imunológico, não afirmou que as vacinas podem causar danos. “Isso ocorre porque imunizações frequentes e repetidas com o mesmo antígeno podem limitar a maturação da resposta imune, possivelmente dando origem a uma resposta imune abaixo do ideal, incluindo células de memória”, diz.

A instituição incentiva a aplicação de dose de reforço desde outubro do ano passado, com base em estudos que mostram um aumento de produção de anticorpos contra a Covid-19.

O texto enganoso também cita uma reportagem do The New York Times sobre dúvidas de pesquisadores de Israel sobre os benefícios da chamada quarta dose e possíveis reforços adicionais. O país iniciou em dezembro a aplicação em grupos vulneráveis.

O médico Renato Kfouri, diretor da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), afirma que os dados de segurança para uma quarta dose são favoráveis, mas que ainda é incerto o tempo que dura a proteção da revacinação sem que haja uma atualização dos imunizantes.

Esta peça de desinformação foi publicada inicialmente no site de Karina Michelin. Aos Fatos entrou em contato por meio do formulário do site para que a autora pudesse comentar sobre a checagem, mas não obteve retorno até a publicação desta checagem.

Referências:

1. Ansa
2. OMS
3. EMA (Fontes 1 e 2)
4. The New York Times


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