O que se sabe sobre a eficácia de produtos vendidos como ‘Ozempic natural’

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Aprovado em 2018 no Brasil para o tratamento da diabetes tipo 2, o Ozempic — cujo princípio ativo é a semaglutida — se tornou popular entre os que buscam emagrecimento rápido, por proporcionar sensação de saciedade do apetite. Seu uso indiscriminado para a perda de peso fez com que o medicamento faltasse nas prateleiras das farmácias americanas e brasileiras.

No início deste ano, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) liberou também a venda do Wegovy, medicamento que usa o mesmo princípio ativo que o Ozempic, mas em dosagem mais alta, e é indicado para o tratamento de obesidade.

Como todo remédio usado sem orientação, a semaglutida tem riscos: além de náuseas, vômitos, constipação ou diarreia, o composto pode causar hipoglicemia e inflamação do pâncreas. Devido à crescente escassez do medicamento, a Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade) e a SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) emitiram em março uma nota conjunta em que alertam para os riscos do uso desenfreado do produto.

Somado aos efeitos colaterais, o alto custo do remédio — cujos preços chegam a R$ 1.000 — tem feito com que potenciais consumidores procurem alternativas mais baratas. No Google Trends, cresceram a partir de junho deste ano buscas pelo termo “Ozempic natural”, que levam a anúncios nas redes que prometem emagrecimento rápido com o uso de compostos como o vinagre de maçã e o chá de hibisco.

A verdade, no entanto, é que não há evidências científicas de que esses compostos auxiliem no emagrecimento. “Não existe Ozempic natural. A semaglutida é um ‘hormônio’ modificado. Ele não está presente em nenhum alimento”, afirma a endocrinologista e professora do departamento de medicina interna da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Luciana Verçoza Viana.

Aos Fatos consultou especialistas e estudos científicos para explicar quais são as evidências científicas por trás das substâncias propagandeadas como versões naturais da semaglutida. E ouviu também orientações de entidades médicas para o emagrecimento saudável.

  1. Quais são as evidências sobre o vinagre de maçã?
  2. Quais são as evidências sobre o chá de hibisco?
  3. Quais são as evidências sobre a berberina?
  4. Qual o caminho para um emagrecimento saudável

Ilustração de frasco de vinagre de maçã

1) Quais são as evidências sobre o vinagre de maçã?

O vinagre de maçã, também conhecido como vinagre de cidra, é obtido a partir do suco da fruta fermentado. Além de não haver evidências de que a substância pode ser usada para o emagrecimento, seu uso indiscriminado pode trazer problemas à saúde.

“Existem pequenos estudos, com poucos pacientes, de curta duração e com importantes limitações metodológicas que mostram resultados contraditórios do vinagre de maçã. Esses estudos não sustentam o uso para tratamento da obesidade nem a curto nem a longo prazo”, afirmou ao Aos Fatos Ricardo de Oliveira Moreira, diretor do departamento de diabetes mellitus da SBEM.

  • Comumente citado como prova de eficácia da substância, um estudo duplo-cego randomizado realizado com 155 indivíduos obesos no Japão em 2009 analisou os efeitos da ingestão de uma bebida que continha entre 15 ml e 30 ml de vinagre, além de corante e adoçante artificial;
  • Ao fim de 12 semanas, os indivíduos que ingeriram a bebida perderam entre um e dois quilos. Não houve diferença entre as duas dosagens oferecidas ou melhora dos parâmetros relacionados à glicose.

“Um tratamento para ser efetivo para emagrecer deve levar a uma perda ponderal de mais de 5% do peso corporal. Portanto, não podemos considerar o vinagre um ‘tratamento’ para emagrecimento”, afirmou ao Aos Fatos a endocrinologista Luciana Verçoza Viana.

Ricardo de Oliveira Moreira ressaltou ainda que o estudo realizado em 2009 não mostrou perda de gordura visceral, que é considerada a mais prejudicial à saúde.

O uso do vinagre de maçã no controle glicêmico também foi objeto de estudos ao longo dos últimos anos. Apesar de um estudo clínico randomizado e duas meta-análises (veja aqui e aqui) terem indicado que a substância pode ajudar nesse controle, as pesquisas analisam dados de um número pequeno de participantes e não são unânimes em definir a dosagem necessária para que os efeitos sejam observados.

“Para se chegar a algum tipo de conclusão definitiva, seria preciso estudar muito mais gente, por um tempo maior, avaliando esses participantes de forma sistemática e incluindo outras variáveis de estilo de vida”, afirmou Viana.

Efeitos colaterais. Circulam também nas redes receitas que orientam indivíduos a diluir o vinagre em em água para ser ingerido diariamente por um mês. Essa prática, no entanto, pode ser perigosa para a saúde, causando alterações dentárias e lesões nas mucosas, de acordo com a endocrinologista.

Devido à acidez do vinagre, não se recomenda sua ingestão em jejum. Pessoas com problemas renais ou úlceras também não devem consumir a substância.

Ilustração de xícara de chá de hibisco

2) Quais são as evidências sobre o chá de hibisco?


Outro suposto substituto “natural” do Ozempic, o chá de hibisco — por vezes associado a doses da fibra natural psyllium — também não pode ser considerado um emagrecedor. Os estudos disponíveis até o momento, realizados in vitro, com animais ou com pequenos grupos de pessoas, ainda não são suficientes para determinar se o chá de hibisco pode de fato ajudar na perda de peso.

  • Pesquisas realizadas em 2007 e 2013 analisaram os efeitos do extrato de hibisco — que usa uma concentração maior da planta do que o chá — em ratos de laboratório obesos. Em ambos os casos, os pesquisadores verificaram que o extrato reduziu ou inibiu o ganho de peso nos animais;
  • Já um estudo publicado em 2009 comparou o consumo do chá preto com o do chá de hibisco entre 60 pessoas diabéticas, que foram instruídas a ingerir as bebidas duas vezes ao dia durante um mês. O grupo que tomou chá de hibisco apresentou redução do colesterol e triglicerídeos em comparação com o grupo que consumiu chá preto, mas não foi relatada perda de peso;
  • Outro estudo, de 2013, comparou o consumo do chá verde com o de chá de hibisco entre cem pacientes diabéticos. O consumo de 150 ml de chá de hibisco três vezes ao dia, durante quatro semanas, não afetou o nível de glicemia em jejum, o peso corporal ou o IMC (índice de massa corporal) dos participantes;
  • Por fim, em 2014, um estudo analisou 36 mulheres, entre 18 e 65 anos, obesas e com acúmulo de gordura no fígado, que foram divididas em dois grupos: um recebeu 450 mg de hibisco encapsulado e o outro placebo, com administração três vezes ao dia durante 12 semanas. O grupo que recebeu cápsulas de hibisco apresentou uma perda de peso inferior a 1%.

Também não há evidências de que o psyllium pode ser usado para o emagrecimento. Especialistas indicam o uso da fibra apenas para regulação do trato gastrointestinal.

Ilustração de frasco repleto de cápsulas vermelhas

3) Quais são as evidências sobre a berberina?


A berberina é um composto que pode ser extraído de raízes, rizomas e casca de diversas plantas, principalmente de um grupo de arbustos chamado berberis. Apesar de ser promovida nas redes como um suplemento alimentar que promete emagrecimento rápido, não há evidências robustas que atestem que a substância ajude a perder peso.

De acordo com o CFF (Conselho Federal de Farmácia), as evidências sobre o uso da berberina para emagrecimento são preliminares e inconclusivas. Uma revisão sistemática publicada em 2020 avaliou estudos clínicos e mostrou que tomar diariamente a substância por via oral pode levar a discretas reduções nos índices de massa corporal, peso e circunferência de cintura. A maioria dos estudos analisados, no entanto, são pequenos e de qualidade variável.

Quem consome o composto sem acompanhamento também pode sofrer efeitos colaterais. O uso da substância está ligado a efeitos como dor abdominal e distensão, constipação, diarreia, flatulência, náuseas, vômitos e dor de cabeça. Ela também não deve ser usada por crianças, gestantes e lactantes.

“Uma vez que a berberina tem metabolização hepática e os estudos pequenos e curtos não avaliam a segurança, não se pode excluir risco de interação medicamentosa ou mesmo hepatotoxicidade ”, afirmou ao Aos Fatos a endocrinologista e ex-presidente do departamento de Obesidade da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia), Maria Edna de Melo.

4. Qual o caminho para um emagrecimento saudável?

Não há fórmula mágica para emagrecer. A orientação de especialistas e entidades de saúde é que a perda de peso deve ser gradual e estar relacionada a mudanças na alimentação e uma rotina de atividades físicas.

Confira abaixo algumas dicas:

  • As mudanças na rotina alimentar devem ser orientadas por especialistas e incluir um cardápio variado, que considere as preferências do paciente, seu estilo de vida, os recursos financeiros disponíveis e a quantidade de calorias necessárias para manter o bom funcionamento do organismo;
  • É importante programar refeições e evitar o consumo de ultraprocessados;
  • Também é preciso praticar atividades físicas regularmente e, quando possível, trocar os deslocamentos de carro por caminhadas ou pedaladas;
  • Os tratamentos de saúde devem ser individualizados e sempre submetidos a uma supervisão médica contínua;
  • Caso sejam necessários, os medicamentos devem ser prescritos pelo médico, que deve acompanhar todo o tratamento.

Ilustrações: Méuri Elle

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