O que é antissemitismo e o que dizem pesquisadores e organizações sobre a fala de Lula

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) comparou, no último domingo (18), a atuação do governo israelense contra o povo palestino, no conflito com o grupo extremista palestino Hamas, ao genocídio perpetrado por nazistas contra judeus. A declaração, dada em entrevista na Etiópia, gerou uma crise diplomática que incluiu a convocação do embaixador brasileiro em Israel e a classificação de Lula como persona non grata pelo país.

“O que está acontecendo na Faixa de Gaza com o povo palestino não existe em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu, quando Hitler resolveu matar os judeus”, afirmou Lula em entrevista.

Organizações e autoridades judaicas emitiram notas de repúdio considerando a declaração do presidente brasileiro como antissemita. Pesquisadores divergem sobre a classificação, pois consideram que criticar práticas do governo israelense não necessariamente caracteriza antissemitismo.

Aos Fatos procurou organizações e especialistas para entender a definição de antissemitismo e se a fala do presidente pode ser de fato considerada antissemita.

  1. O que é antissemitismo?
  2. Quais são os argumentos para dizer se a fala de Lula caracteriza ou não antissemitismo?
  3. Criticar a atuação do governo israelense caracteriza antissemitismo?
  4. Qual é a diferença entre antissemitismo e antissionismo?
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1. O QUE É ANTISSEMITISMO?

Em resumo, antissemitismo é o ódio contra os judeus pelo fato de serem judeus. Na definição do Dicionário de Oxford, o termo é caracterizado como “preconceito, hostilidade ou discriminação contra o povo judeu por motivos religiosos, culturais ou étnicos”. Desde 1998, a ONU considera o antissemitismo uma forma de racismo ou discriminação racial.

O próprio STF (Supremo Tribunal Federal) considerou, em um julgamento em 2003, que antissemitismo é uma forma de discriminação racial e, portanto, é um crime previsto na lei nº 7.716/1989.

Em documento publicado em 2019, as Nações Unidas afirmam que o “antissemitismo, expressado por meio de atos de discriminação, intolerência e violência contra judeus, viola diversos direitos humanos, incluindo o direito à liberdade religiosa e de crença”. O relatório cita ataques a sinagogas e escolas como exemplos explícitos de preconceito, mas ressalta que também devem ser consideradas discriminatórias ações que resultam na exclusão social e no assédio contra judeus.

Outra definição adotada por diversos países é a da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto. A organização intergovernamental, criada em 1998 para promover a conscientização sobre o genocídio do povo judeu, afirma que:

“O antissemitismo é uma determinada percepção sobre judeus, que se pode exprimir como ódio em relação a judeus. Manifestações retóricas e físicas de antissemitismo são orientadas contra indivíduos judeus e não-judeus e/ou contra os seus bens, suas instituições comunitárias e suas instalações religiosas.”

O exemplo mais claro de antissemitismo na história é o Holocausto, perpetrado pelo nazismo, que assassinou cerca de 6 milhões de judeus entre 1933 e 1945 e instituiu medidas econômicas e legais amplamente discriminatórias.

Para além dos registros históricos, a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto defende que há novas formas de antissemitismo no contexto atual. Estão entre elas:

  • Negar o fato, os âmbitos, os mecanismos e o caráter intencional do Holocausto;
  • Efetuar comparações entre a atual política israelense e o nazismo;
  • Considerar o povo judeu coletivamente responsável por ações do Estado de Israel;
  • Negar o direito à autodeterminação do povo judeu, alegando que o Estado de Israel é um empreendimento racista;
  • Usar símbolos ou imagens associados ao antissemitismo clássico — alegando, por exemplo, que judeus assassinaram Jesus;
  • Acusar o povo judeu de ser coletivamente responsável por irregularidades reais ou imaginárias cometidas por judeus ou não.

Foto mostra o primeiro-ministro israelense falando; atrás dele há uma bandeira de Israel
‘Vergonhosa.’ O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, disse que a comparação de Lula ‘cruzava a linha vermelha’ (Kobi Gideon/Governo de Israel)

As definições que buscam enquadrar como antissemitismo questões ligadas ao Estado de Israel, no entanto, são alvo de críticas de pesquisadores e organizações. De acordo com a professora de História Árabe da USP Arlene Clemesha, classificar como antissemita qualquer comparação entre governantes israelenses e o nazismo pode ser um recurso para blindar as políticas do governo de Israel: “É uma maneira de tentar instrumentalizar o antissemitismo para deslegitimar os oponentes”, afirmou ela, em entrevista ao Aos Fatos.

O ELSC (European Legal Support Center) divulgou um relatório em que afirma que a definição de antissemitismo da Aliança Internacional é usada para suprimir direitos dos palestinos. “A oposição política ao sionismo ou ao Estado de Israel, que não acolhe nem representa todos os judeus, não é em si uma expressão de animosidade contra os judeus.”

Ainda de acordo com o documento, a definição da Aliança Internacional é pouco clara, o que prejudica sua eficácia no combate ao antissemitismo. “Tal como muitos especialistas argumentaram, a IHRA WDA [Definição Prática de Antissemitismo da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto] não oferece orientações para distinguir as críticas a Israel do antissemitismo. A ambiguidade resultante facilitou seu uso indevido como uma arma política que reprime a liberdade de expressão”.

Há, no entanto, organizações que defendem a definição. O American Jewish Committee, por exemplo, afirma que a classificação da Aliança Internacional é “uma ferramenta para identificar e abordar o antissemitismo — e nada mais”, e que os exemplos de antissemitismo no contexto atual “servem simplesmente como diretrizes, para que os críticos possam distinguir entre criticar as políticas nacionais (totalmente aceitável) e negar o direito do povo judeu à autodeterminação (não aceitável)”.

2. QUAIS SÃO OS ARGUMENTOS PARA DIZER SE A FALA DE LULA CARACTERIZA OU NÃO ANTISSEMITISMO?

Especialistas e organizações consultados pelo Aos Fatos divergiram sobre a classificação da fala do presidente. Enquanto alguns grupos judaicos apontaram que o comentário de Lula alimenta o antissemitismo ao realizar uma comparação cruel entre os judeus e seus maiores algozes, pesquisadores entendem que a declaração não instila ódio contra o povo judeu.

  • Em nota, o Instituto Brasil-Israel afirmou que a declaração fomenta o antissemitismo, porque “invoca a ideia de que os judeus são ‘os nazistas do presente’”, e que não há paralelo a ser feito com o conflito atual com o Hamas. “O genocídio nazista foi um plano de exterminar, em escala industrial, toda a presença judaica na Europa, sob uma ideologia de superioridade racial e antissemitismo”;
  • O comunicado do grupo Judeus pela Democracia segue no mesmo caminho e alega que, apesar de o conflito em Gaza ser uma “tragédia humanitária”, o líder brasileiro ignora massacres ocorridos em outras partes do mundo, como Ruanda, Rússia, Nigéria e Sudão;
  • Já o Museu do Holocausto afirmou que a “vulgarização do Holocausto” exibida na comparação do presidente alimenta o antissemitismo e usa uma “seletividade cruel” ao comparar os judeus a seus algozes.

A Conib (Confederação Israelita do Brasil), uma das principais entidades judaicas do país, também criticou a declaração do presidente, mas não usou o termo antissemita em nota. Em entrevista à CNN Brasil, o presidente da entidade, Claudio Lottenberg, afirmou que “Israel está se defendendo” no conflito com o Hamas e que o presidente Lula “deve uma satisfação à comunidade judaica”.

O coletivo Vozes Judaicas por Libertação, no entanto, defendeu a declaração de Lula e disse que o presidente “externou o que está no imaginário de muitos de nós”. O grupo ressaltou, no entanto, que comparar genocídios é sempre um assunto delicado.

Bruno Huberman, professor de relações internacionais da PUC-SP e membro do Vozes Judaicas por Libertação, disse interpretar a declaração de Lula como um ato político imprudente, mas não como antissemitismo.

“Lula não fez a comparação de forma a minimizar o Holocausto, pelo que eu entendi. Genocídios são comparáveis. Só que há uma espécie de excepcionalização do Holocausto judeu como se fosse um genocídio incomparável na história. E não é verdadeiro isso. O Holocausto contra os judeus foi um genocídio terrível, assim como foi o genocídio armênio, o congolês, o sudanês, o palestino.”

“Cada genocídio é singular em seu processo e único para o povo que sofreu, porque é uma chaga para o povo vitimado que ceifa a vida das pessoas. Existem judeus sobreviventes do Holocausto até hoje, famílias que até hoje são legatárias e traumatizadas por isso. Mas não só porque é algo próximo e algo feito contra judeus é que deve ser excepcionalizado”, continuou o pesquisador.

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3. CRITICAR A ATUAÇÃO DO GOVERNO ISRAELENSE CARACTERIZA ANTISSEMITISMO?

Não necessariamente. Pesquisadores e organizações apontam que tudo depende do teor da crítica e dos argumentos usados.

A própria Aliança Internacional para a Memória do Holocausto ressalta que “críticas a Israel similares às feitas contra qualquer outro país não podem ser consideradas antissemitas”. De acordo com a organização, no entanto, comparações que fazem alusão ao nazismo, como a feita por Lula, ou que estendem a todos os judeus a responsabilidade por ações adotadas por Israel são antissemitas.

Já Bruno Huberman afirma serem preconceituosos comentários que, ainda que se refiram ao Estado de Israel, fazem alusão ao antissemitismo clássico. “O antissemitismo clássico tem a seguinte concepção a respeito do judeu: que o judeu domina o mundo pelos bastidores, que ele é o banqueiro e o comunista, que manipula as grandes potências pelos bastidores. Isso é um tradicional discurso antissemita. Então quando você fala que Israel está agindo dessa forma, isso está sendo antissemita. Porque você está transferindo uma forma clássica de antissemitismo para um Estado que diz representar os judeus”.

Mapa mostra território de Israel e Palestina

4. QUAL É A DIFERENÇA ENTRE ANTISSEMITISMO E ANTISSIONISMO?

Sionismo é o nome dado ao movimento político nascido no século 19 para restabelecer o Estado de Israel no Oriente Médio. Considera-se, portanto, que uma posição é antissionista quando ela se opõe à criação desse território ou à sua existência.

Há uma discussão entre a comunidade judaica se o antissionismo é, sempre, uma forma de antissemitismo:

  • De acordo com o artigo “Antissionismo e Antissemitismo”, publicado por Robert Wistrich — um dos maiores pesquisadores de antissemitismo do mundo — na Jewish Political Studies Review, trata-se de duas ideologias que podem convergir, mas não necessariamente estão ligadas, uma vez que sempre houve judeus das mais variadas vertentes ideológicas que se opuseram fortemente ao sionismo sem expressar ódio ao povo judaico. O problema, segundo o autor, é que parte dos antissionistas contemporâneos acabam deslegitimando, difamando e demonizando Israel e os judeus como um todo;
  • O grupo Nexus, formado por acadêmicos americanos judeus, acredita que “a oposição ao sionismo e/ou a Israel não reflete necessariamente uma posição antijudaica nem conduz propositadamente a comportamentos e condições antissemitas”. Eles usam como exemplo uma pessoa que seja contra a ideologia nacionalista ou até alguém que foi afetado diretamente pela criação do território de Israel: “estas motivações ou atitudes em relação a Israel e/ou ao Sionismo não constituem necessariamente comportamento antissemita”;
  • O grupo Jewish Voice For Peace também defende que se trata de termos distintos: “A oposição ao movimento político do sionismo e/ou às políticas do Estado de Israel não é diferente da crítica a qualquer outra ideologia política ou políticas de qualquer outro Estado-nação, como o colonialismo, o imperialismo e a supremacia branca na fundação do Estados Unidos”;
  • Algumas instituições judaicas, no entanto, consideram que qualquer forma contemporânea de antissionismo é antissemita. O WJC (World Jewish Congress), por exemplo, acredita que o movimento nega a conexão histórica dos judeus com o território israelense e também o direito do povo à autodefesa. Além disso, a instituição acredita que o antissionismo acaba sendo usado como uma forma de ódio contra os judeus.
  • Uma posição semelhante foi expressa pelo ex-chanceler Celso Lafer, que, em texto publicado no Estadão, argumenta que o antissionismo é uma manifestação do antissemitismo porque nega o direito à existência de Israel.

De forma semelhante ao que ocorre com a definição da Aliança Internacional sobre antissemitismo, especialistas criticam o uso político do antissionismo para blindar as políticas do governo israelense. Peter Bainart, autor do livro “A Crise do Sionismo”, por exemplo, explica que ser contra a expansão do território israelense sobre o território palestino, por exemplo, não necessariamente é ser contra a identidade judaica. Por isso, classificar qualquer forma de antissionismo como antissemitismo seria incorreto.

“Antissemitismo é uma forma de racismo. É a subjugação dos judeus pelo fato de serem judeus, é o racismo antijudeu. Já o antissionismo é a rejeição à ideologia nacionalista colonial sionista”, disse Bruno Huberman ao Aos Fatos.

De acordo com ele, os antissionistas não entendem o sionismo apenas como um movimento de libertação dos judeus, mas “como um nacionalismo constituído através da colonização da terra e do povo palestino”. Em sua avaliação, antissemitismo é uma coisa, antissionismo é outra. É possível inclusive ser judeu e antissionista.

Referências

  1. Dicionário de Oxford
  2. Jewish Virtual Library
  3. Senado
  4. Planalto
  5. ONU
  6. Aliança Internacional pela Memória do Holocausto (1, 2 e 3)
  7. Ohchr
  8. Enciclopédia do Holocausto (1 e 2)
  9. Guardian (1 e 2)
  10. ELCS
  11. AJC (1 e 2)
  12. X (1, 2 e 3)
  13. Conib (1 e 2)
  14. Folha de S.Paulo
  15. Nexus
  16. Jewish Voice for Peace
  17. World Jewish Congress
  18. O Estado de S. Paulo
  19. The Israel Democracy Institute

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